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Governo reconhece oficialmente novas profissões
Depois de 20
anos sem atualização, a última edição
da Classificação Brasileira de Ocupações
(CBO) oficializou profissões que estavam pendentes por regulamentação.
Essas ocupações, na sua maioria, são resultantes
de novos setores de atividade econômica, que contribuem na
formação do Produto Interno Bruto (PIB) do país,
como as áreas de meio ambiente, biotecnologia, telecomunicações,
aeroespacial, multimídia, eletrônica e informática.
Leia
mais:
- Governo atualiza descrição de profissões
em nova CBO
- Antigos ofícios são reconhecidos
Governo atualiza descrição de profissões em
nova CBO
Uma das profissões
em alta no Brasil é a do mecatrônico - uma combinação
de engenheiro mecânico e engenheiro eletrônico, trabalhador
que deve ter conhecimento nas áreas de eletrônica,
robótica e informática, além de sistemas de
automação, porém tendo a base de sua informação
na mecânica. São profissionais com mercado quase cativo
nas indústrias automotiva, aeronáutica e siderúrgica.
A constatação é da nova Classificação
Brasileira de Ocupações (CBO), levantamento desenvolvido
durante três anos pelo Ministério do Trabalho e que
será lançado pelo ministro Paulo Jobim no próximo
dia 10 de outubro.
A nova CBO,
atualizada 20 anos depois da primeira classificação,
representa uma radiografia desse novo mercado de trabalho e das
novas ocupações que ele demanda. A antiga telefonista
não mais existe, ocupação hoje exercida pela
operadora de telemarketing - uma espécie de orientadora,
com discernimento para atendimento ao público externo -,
mas o ofício de parteira continua o mesmo.
As ocupações emergentes são resultantes de
novos setores de atividade econômica, com participação
crescente na formação do Produto Interno Bruto (PIB)
do País, como as áreas de meio ambiente, biotecnologia,
telecomunicações, aeroespacial, multimídia,
eletrônica e informática.
O banco de dados
da CBO, que pode ser consultado pela Internet, já é
utilizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) para fazer o Censo Demográfico e pela Receita Federal
para a classificação das atividades profissionais
na declaração do Imposto de Renda.
O ministro Paulo
Jobim destaca duas grandes mudanças entre a primeira publicação
e a que será lançada agora. A primeira diz respeito
ao contexto sócio-econômico, pois a CBO 82 foi desenvolvida
na década de 70, visando ao planejamento dos recursos humanos
do País em uma época de expansão econômica,
escassez de mão-de-obra e grande migração do
campo para as cidades. A nova CBO foi realizado em um momento em
que as mudanças no mercado de trabalho são quase diárias,
com o desafio de criar vagas para um contingente crescente de trabalhadores
desempregados. Além disso, há as mudanças decorrentes
da organização de blocos econômicos, como o
Mercosul.
Na visão
de Jobim, a segunda mudança foi a transformação
de uma classificação estática para uma classificação
dinâmica, em que os próprios trabalhadores descreveram
como exercem a sua ocupação. "Adotou-se um método
no qual a classificação é descrita pelos próprios
trabalhadores e um sistema que pode ser atualizado continuamente,
formando um banco de dados que estará disponível na
Internet para toda a sociedade. E não será preciso
mais 20 anos para se ter um novo inventário do conteúdo
do trabalho no País", observou o ministro.
"A nova
CBO é um 'presentaço' para o próximo governo,
pois ajudará na criação de novos empregos,
a maior preocupação de qualquer brasileiro atualmente",
disse Jobim. O ministro lembra que a CBO auxiliará na adoção
de políticas públicas de emprego muito melhor direcionada,
na medida que vai atrelar oferta à procura. Ou seja, evitará
que se criem vagas para ocupações que não mais
existem, em função da transformação
tecnológica do mercado de trabalho. Além disso, Jobim
acredita que a nova classificação suscitará
permanente debate, com os trabalhadores que não foram incluídos
reivindicando sua colocação na CBO.
Cláudia
Carvalho Paiva, chefe da Divisão Brasileira de Classificação,
avalia que a nova CBO ajudará também no controle da
migração de mão-de-obra. "Se uma empresa
estrangeira instalada no País quer trazer da matriz um gerente
financeiro, por exemplo, esse profissional deverá ter um
perfil que se enquadre na definição da CBO",
salienta Cláudia.
Ela observa
ainda que a nova CBO permitirá ao trabalhador se "mover"
de uma ocupação para outra, fazendo apenas uma pequena
atualização. "Com um pouco de tecnologia surgiu
a máquina de controle numérico, programada para exercer
essa tarefa, em substituição ao antigo torneiro mecânico.
Mas com pequeno treinamento, o torneiro mecânico estará
apto a operá-la, desde que perceba que essa atualização
é necessária", exemplifica Cláudia.
(Gazeta Mercantil
- 12/09/02)
Antigos ofícios são reconhecidos
Francisco Gomes
e Cláudia Carvalho Paiva, coordenadores do processo de atualização
da Classificação Brasileira de Ocupações
(CBO), recorrem à criação da Concla - Comissão
Nacional de Classificações Interministerial para explicar
o início do grande avanço na definição
das novas ocupações do mercado de trabalho. A Concla
permitiu unificar a linguagem sobre o assunto de todos os órgãos
públicos, facilitando a classificação ocupacional.
Como resultado concreto, em 1994 foi firmada a primeira parceria
com o IBGE para uso dessa nomenclatura em suas pesquisas. "Foi
um marco", observa Francisco.
A partir daí,
houve um novo desdobramento, com a classificação evoluindo
de ocupação para família ocupacional. Cerca
de três mil ocupações foram agrupadas em aproximadamente
600 famílias ocupacionais. "São profissões
que guardam alguma afinidade entre si, tem algum parentesco",
define Cláudia. Esse inventário de atividades, que
ouviu e registrou a descrição ocupacional relatada
e mostrada por cerca de sete mil trabalhadores de todas as regiões
do País, foi realizado pelo ministério em parceria
com Universidade Federal de Minas Gerais, Unicamp, Fipe e Senai.
Francisco e
Cláudia, que coordenaram 100 pesquisadores para atualizar
a CBO, enfrentaram até situações embaraçosas
para realizar esse trabalho. Como a desconfiança de um trabalhador
autônomo quando chamado pelo Ministério do Trabalho
para descrever sua ocupação. Ele, porém, participou
do painel de dois dias, sem fazer alusão que estava perdendo
um dia de trabalho. Ao contrário, filósofos e sociólogos
queriam receber diárias para participar, conta Cláudia.
"O psicanalista queria receber por sessão", emenda
Francisco.
Porém,
a adesão à convocação do ministério,
sem qualquer restrição, foi o destaque do trabalho.
Descreveram suas ocupações, entre outros, parteiras,
embalsamadores, tintureiros, lavandeiros, trabalhadores florestais,
dançarinos (Carlinhos de Jesus foi um dos personagens), artistas
de circo (com participação do palhaço Picolino
e do ilusionista "Come Espadas" Eugênio Ledesma
Ortiz), agentes comunitários de saúde, charuteiros
(ocupação exercida em sua maioria por mulheres no
interior da Bahia), músicos, compositores, arranjadores e
maestros, caciques e suas mulheres indígenas, mãe
de santo e pajés, estes dois últimos da família
de ministros e cultos religiosos afro e indígena.
O consultor
em gerência de risco José Eustáquio, de Brasília,
foi um dos participantes dos painéis de atualização
da CBO. Sua simples participação confirma que a atividade
que desempenha - muito ligada ao setor de seguro e considerada uma
profissão no exterior - ganhará esse status no Brasil,
ingressando na estrutura do código brasileiro de ocupações.
"Mapear os profissionais e classificá-los pela profissão
que exerce é um fato extraordinário, pois garantirá
o registro profissional de atividades que não constavam na
CBO", disse Eustáquio.
Gabriela da
Silva Leite, 51 anos, coordenadora da Rede Nacional de Profissionais
do Sexo, descreveu sua atividade levando os pesquisadores, um sábado
à noite, à Vila Mimosa, zona de prostituição
do Rio de Janeiro, popularmente conhecida como Mangue. "Entrar
na classificação, no CBO, é uma grande vitória,
um passo importante para que a prostituição saia da
marginalidade e vire profissão", exulta Gabriela. O
passo seguinte, segundo ela, será a legalização
das casas de prostituição, conforme projeto do deputado
Fernando Gabeira (PT-RJ). "Com a legalização,
poderemos fazer contratos de trabalho e pensar na aposentadoria
remunerada", sonha Gabriela, gratificada com o fato de sua
atividade figurar, a partir de agora, como profissão no Censo
do IBGE.
(Gazeta Mercantil
- 12/09/02)
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