Reino Unido é máquina de gerar empregos

Quem visita Leeds, Manchester, Birmingham, Liverpool e outras cidades do norte do Reino Unido que eram pouco desenvolvidas até recentemente vê grandes transformações. Essas cidades ilustram o bom desempenho econômico do país, principalmente na criação de empregos. Desde 1997, o Reno Unido criou 1,8 milhão de novos empregos, principalmente no setor privado.

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Reino Unido é máquina de gerar empregos

Quem visita Leeds, Manchester, Birmingham, Liverpool e outras cidades do norte do Reino Unido que eram pouco desenvolvidas até recentemente vê grandes transformações. Essas cidades ilustram o bom desempenho econômico do país, principalmente na criação de empregos.

Desde que o Partido Trabalhista do primeiro-ministro Tony Blair subiu ao poder, em 1997, o Reino Unido criou 1,8 milhão de novos empregos, principalmente no setor privado. A taxa de desemprego é a mais baixa entre os países do G-7: 4,8% contra 5,6% nos EUA e a média de 8% na União Européia.

Com a perspectiva de eleição talvez já no próximo ano, o governo não perde a oportunidade de enfatizar esse sucesso econômico. Ao divulgar o Orçamento para 2004, em março, o ministro da Finanças, Gordon Brown, disse que o Reino Unido "passa pelo maior período de crescimento econômico sustentável em mais de 200 anos".

A questão agora é quanto isso vai durar - especialmente o crescimento que gera empregos. O sucesso britânico tem sido notável, especialmente nas cidades do norte do país, que foram duramente atingidas pelo quase colapso da indústria de transformação do país. Leeds, por exemplo, se transformou numa economia de serviços, e criou mais empregos que qualquer outra cidade britânica, com exceção de Londres, nos últimos 20 anos.

O grande sucesso de Leeds foi o crescimento explosivo no setor de serviços financeiros, que contribui com 25% dos US$ 18 bilhões do PIB da cidade. O sucesso de Leeds e do Reino Unido como um todo contrasta com a maior economia européia, a Alemanha. A força dos sindicatos alemães, leis trabalhistas rígidas e um custo maior da mão-de-obra fazem com que aquele país seja menos atraente para os negócios e os investimentos internacionais. A Alemanha não consegue reduzir o desemprego a menos de 10%. Para os políticos alemães que estão procurando soluções, o Reino Unido pode ensinar algumas lições importantes.

O bom desempenho do mercado de trabalho britânico é resultado de décadas de política de flexibilização do trabalho, impostos baixos, regulamentação limitada e mercados abertos. Enquanto os economistas arrancam os cabelos com a "recuperação sem empregos" e os europeus se perguntam sobre se haverá recuperação, o Reino Unido vai bem, tendo crescido 2,3% em 2003, contra 0,4% da zona do euro. Em 1,3%, a inflação britânica está entre as mais baixas da Europa. A expectativa é que o país cresça mais de 3% este ano.

Os mercados começam a se recuperar e a City, setor financeiro de Londres, está contratando. O Centre for Economic & Business Research (CEBR), consultoria com sede em Londres, prevê a criação de até 24 mil novos empregos na City nos próximos três anos. No fim de 2003, o setor tinha 311 mil postos de trabalho. Mesmo quando os mercados estavam em baixa, entre 2001 e 2002, e ocorreram 15 mil demissões na City, foram criados novos empregos financeiros por bancários e corretores demitidos, que abriram novos negócios.

O emprego recorde encorajou os consumidores a gastarem mais, o que também alimenta a criação de empregos nos setores varejista e de construção. A Tesco, maior rede de supermercados do país, criou 9 mil empregos de período integral só em 2003. Os preços dos imóveis sobem, mas os juros baixos de financiamento continuam a incentivar os compradores de moradias.

O que pode estragar esse cenário de sucesso e tirar os trabalhistas do poder? Segundo economistas, há o perigo de estouro da bolha imobiliária, no setor de moradias, o que acarretaria a queda do consumo, caso os juros subam rapidamente. Mas a expectativa é que a alta dos juros será gradual. Um perigo maior à competitividade britânica é a baixa produtividade.

Em 1,5% por ano, o crescimento da produtividade britânica fica atrás da dos EUA, Alemanha e França, segundo estudo da McKinsey. Economistas responsabilizam anos de subinvestimento em tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, o que, segundo Blair, o governo tenta agora reverter. "Aqui, as empresas contrataram para atender a demanda, enquanto que nos EUA, os ganhos de produtividade é que fazem isso", diz o economista Alan Castle, da Lehman Brothers no Reino Unido.

Mas isso é uma faca de dois gumes. Se o Reino Unido aumentar a produtividade, as novas contratações podem ser reduzidas. Uma eventual terceirização para outros países também pode desacelerar a criação de novos empregos. A onda de terceirização que atingiu os EUA chega agora ao Reino Unido. Bancos como HSBC Holdings e Lloyds, e a segurador Aviva têm planos de transferir milhares de empregos de baixa qualificação de seus call-centers para a Índia e outros países da Ásia.

Segundo estimativa do CEBR, até 500 mil empregos britânicos em call-centers correm perigo devido à terceirização. Mas a consultoria prevê que os trabalhadores dispensados encontrarão outros empregos. Além disso, especialistas em recursos humanos dizem que é muito mais fácil contratar pessoas para trabalho temporário no Reino Unido do que em países onde o custo do emprego é mais baixo. O trabalho temporário é uma enorme fonte de emprego no Reino Unido.

O governo Blair diz que o perigo da terceirização é exagerado. Muitos empregos industriais foram perdidos para China, mas as exportações do Reino Unido para aquele país também cresceram muito, diz. Ou seja, Blair aposta que, de uma forma ou outra, o livre comércio e a baixa regulamentação manterão o crescimento dos empregos no Reino Unido.

(Valor Econômico – 12/04/04)

   
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