Maioria dos músicos atua informalmente no mercado

As pessoas que precocemente estudam música em busca de um espaço no mercado não têm o tratamento de glamour que se imagina. A maioria é tratada com prestador de serviço, tem trabalho precário e nada estável. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), só 10,9% dos compositores, músicos e cantores têm vínculo formal de trabalho. A maioria (71,4%) trabalha por conta própria ou sem registro (13,9%).


Leia mais:
- Só 11% dos músicos têm elo formal
- Diversificação de trabalho é comum
- Mestrado é o caminho para a ampliação do campo de atuação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Só 11% dos músicos têm elo formal

Músico também é um trabalhador. A constatação só parece óbvia à segunda vista, depois de dissipada a névoa de glamour que rodeia os eruditos e que dá a eles o aspecto de celebridade - o que poderia isentá-los, portanto, de problemas mundanos como carteira assinada e brigas com o chefe. Se há algo que difere os músicos de operários de outros andaimes é sua formação precoce. Enquanto outros estão a criar artimanhas para cabular aulas, os pequenos músicos já dedicam horas diárias ao estudo.

Aos oito anos, Renato Martins Longo tocava com profissionais. "Eu já havia escolhido o que queria fazer", recorda. Aos 15, integrava a Banda Sinfônica Jovem, e hoje, aos 19, faz parte da Orquestra Experimental de Repertório, no Teatro Municipal. Ele tentou a vaga por três anos. "Há muitos campos para a música, mas eu gosto da "performance'", conta Longo, premiado no último Festival de Inverno de Campos do Jordão.

Ao começar cedo, o músico acaba entrando prematuramente no mercado de trabalho. "Como não há apoio do Estado, o aluno tem de trabalhar desde cedo, prejudicando a formação", diz a socióloga Dilma Marão Pichoneri, que acompanhou por dois anos o cotidiano de trabalho dos músicos da Sinfônica do Teatro Municipal.

O estudo foi tema de seu mestrado na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e integra o projeto "Trabalho e Formação no Campo da Cultura: Professores, Músicos e Bailarinos", financiado pela Fapesp (instituição de apoio).
A fragilidade dos contratos empregatícios é uma das observações da equipe.

"Esperávamos encontrar nos teatros públicos um trabalho vinculado a direitos sociais. No entanto, constatamos a sistemática supressão de postos formais de trabalho durante os anos 90 e o aumento de contratos renovados a cada cinco meses - formas precarizadas de trabalho." Apenas 40% dos músicos da Sinfônica Municipal têm contratos formais e são estáveis. Os demais são contratados via dotação orçamentária.

O cenário piora quando considerado todo o universo de trabalhadores. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) analisados pela professora da Unicamp Liliana Segnini apontam que só 10,9% dos compositores, músicos e cantores têm vínculo formal de trabalho. A maioria (71,4%) trabalha por conta própria ou sem registro (13,9%).

Além disso, a renda mensal desses trabalhadores é de R$ 826 - bem abaixo do salário de algumas orquestras sinfônicas, nas quais o músico erudito recebe em torno de R$ 5.000.

Com o vínculo de trabalho em constante ameaça, o que impede a dedicação exclusiva, a classe se rende a uma alternativa comum nesse universo: o cachê, ou a multiplicidade de fontes de renda. "Esse movimento tem um forte pé na precarização. Será que ele faz cinco casamentos no fim de semana porque gosta?", questiona Pichoneri, que pretende aprofundar a discussão em sua tese de doutorado.

Para a premiada maestrina Érika Hindrikson, 35, "ter outros trabalhos é uma garantia". "O músico é contratado como prestador de serviços", diz ela, regente-assistente da Banda Sinfônica do Estado e professora da Universidade Livre de Música. Em licença-maternidade de seu primeiro filho, ela conta que, por não ter vínculo formal, teve de fazer um "acordo de cavalheiros" para ter direito à pausa. "Não houve problemas, mas espero que meu lugar ainda esteja lá", brinca. "O cargo é muito cobiçado."

(Folha de S. Paulo – 11/06/06)

 

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Diversificação de trabalho é comum

Diversificar os canais de trabalho é quase regra no ambiente musical. Manter apenas uma ocupação é inviável não pelo salário, mas pela necessidade de fazer contatos e de estancar a precarização do trabalho.

"A sensação é a de estarmos sempre recomeçando a carreira", diz o guitarrista Sergio Rossoni, 38, que, com seu grupo, acaba de lançar o quinto CD. "Não temos mais o mesmo número de shows. O cenário musical mudou muito", analisa.

Há dez anos, Rossoni voltou-se para a área de produção e criou com um sócio o estúdio Zabumba Records, do qual é diretor artístico. Há pouco tempo, porém, ampliou as atividades e hoje produz trilhas, "jingles" e outros trabalhos para publicidade, cinema e TV.

"O músico brasileiro não consegue viver só de música", acrescenta Alcides Lima, da Traditional Jazz Band, que acompanha há 42 anos o cenário musical de São Paulo. Ele iniciou a carreira tocando bateria em bailes. Depois de anos como executivo da indústria automobilística, hoje dedica-se à banda e à consultoria de marketing. Os dois interesses fizeram nascer o projeto de assessorar empresas em treinamentos empresariais.

O trompetista Renato Martins Longo também vê vantagens nos cachês e diz que não ganha muito, mas está satisfeito com a soma no fim do mês. "Músicos também têm contas a pagar", lembra ele, que se divide entre a faculdade, o curso na Universidade Livre de Música e o trabalho na Orquestra Experimental, além de atuar em ações e eventos.

"Eles trabalham em outros locais para aumentar a rede de contatos", diz a pesquisadora Dilma Marão Pichoneri, da Unicamp. Ter o nome conhecido e ser chamado para os eventos são a base desse mercado.

Como estratégia de inserção, os músicos também tornam-se professores - uma atividade prestigiosa, já que o universo musical é repleto de referências aos mestres. Nessa trajetória, a graduação passa a ter um papel bastante relativizado: muitos já estão trabalhando em orquestras quando entram na faculdade. "A frustração do músico é ver seu trabalho não ter continuidade. O investimento nos alunos é algo muito pessoal", explica Henrique Autran Dourado, diretor da Escola Municipal de Música (EMM). A instituição recebe por ano cerca de 2.500 inscrições de novos alunos - há cem vagas.

Para Dourado, houve uma ampliação do mercado de trabalho para músicos. "A competição é natural. O número de empregos aumentou, as orquestras ampliaram seus quadros e as universidades criaram áreas de música", opina.

(Folha de S. Paulo – 11/06/06)

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mestrado é o caminho para a ampliação do campo de atuação

Em música, ter um diploma de mestrado ou doutorado no currículo não pesa tanto a favor quanto em outras carreiras. "'A performance" ainda não exige diploma", assinala Dorotéa Kerr, coordenadora do programa de pós-graduação em música da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

Apesar de ser uma área que exige o domínio prático, também requer reflexão. Isso faz com que a formação acadêmica seja ocupada sobretudo por profissionais em busca de especialização teórica para entrar no mercado de trabalho e por músicos interessados no título para poder dar aulas.

No mestrado, há três tipos de aluno: os que querem dar aula em universidades públicas, os que saíram da graduação e estão em busca de trabalho e aqueles que já estão no mercado e desejam especialização.

(Folha de S. Paulo – 11/06/06)