Oferta de empregos na área fiscal cresce 10%

Após o impacto de fraudes corporativas em diversas multinacionais, contabilistas, auditores e controladores voltaram a ganhar espaço no mercado. A área de fiscalização obteve um aumento de 10% em oportunidades de emprego.

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Oferta de empregos na área fiscal cresce 10%

O impacto da fraude corporativa da Parmalat se alastrou rápido mundo afora. Revelado em dezembro, o escândalo contábil da empresa italiana não poupou a subsidiária brasileira, que pediu concordata. E gerou um efeito colateral: colocou em foco contabilistas, auditores e controladores.

Maior cobrança sobre os profissionais que atuam nessas áreas foi uma das conseqüências imediatas geradas pela eclosão de fraudes corporativas, que teve se deu há dois anos, época do escândalo da Enron. Aumentaram as fiscalizações, o rigor no cumprimento dos princípios contábeis e as punições às más condutas.

O segundo efeito é previsível: o surgimento de novas vagas, já que as empresas estão deixando o amadorismo de lado e contratando profissionais qualificados para orientar seus negócios. Estimativa do Grupo Foco, consultoria de RH (Recursos Humanos), aponta que, no Brasil, a movimentação do setor também é grande.

Cresceu entre 8% e 10% a oferta de empregos nas áreas fiscal, financeira, tributária, de controladoria e de contabilidade no segundo semestre de 2003, em relação aos seis meses anteriores. "A demanda aumentou em razão das mudanças tributárias e fiscais no Brasil", justifica João Canada, vice-presidente-executivo do grupo.

De acordo com o contador e advogado José Carlos Alcântara, 46, da Ability Auditoria e Consultoria, as consultas de clientes aumentaram 40% nos últimos dois anos. "Trabalho dez horas por dia. Jornada de oito horas não é mais suficiente atualmente."

Neli Barboza, da consultoria Manager, que presta serviços na área de RH, aponta que, com a retomada da economia, os empresários sentem hoje a necessidade de elevar o controle sobre seus custos, daí a forte procura por contadores, sobretudo nos níveis de supervisão e gerência.

O consultor de gestão de negócios Carlos Bizarro avalia que a área de controladoria ainda está distante dos quadros de funcionários das pequenas e médias empresas. "Os escândalos internacionais serviram para alertar mais o Brasil para a necessidade de ter bons controladores." Para ele, a tendência é a popularização da figura do controlador no país.

No Brasil, novas regras que visam a qualidade das informações econômico-financeiras começaram a ser implementadas antes mesmo do auge das fraudes corporativas internacionais. "Hoje está mais perigoso para um contador efetivar lançamentos que não estão de acordo com a legalidade", opina Bizarro.

Embora a cultura do caixa dois (omissão de informações visando o não-pagamento de impostos) ainda seja comum no país, especialistas dizem acreditar que as empresas que sonegam tributos são cada vez mais evitadas pelos profissionais.

Foi justamente essa cautela que fez com que A.N., 34, (não quer se identificar), estudasse bem o terreno antes de aceitar convite para dirigir o departamento de contabilidade de uma companhia de São Paulo, cujo faturamento mensal é de R$ 3 milhões.

"Fiz um levantamento do balanço e vi que a empresa possuía um caixa dois expressivo. Com base nisso, resolvi não aceitar a proposta. Prezo por contas transparentes, não me envolvo em casos assim", afirma o contador.

A complexidade da legislação de impostos no país obriga a atualização permanente desses profissionais. No caso de empresas multinacionais, a tarefa é dupla: é preciso dominar também as leis e os procedimentos adotados no país-sede da companhia.

- Exame para registro barra 60% dos formados

Quando o assunto em questão é a formação dos contabilistas, tanto em nível superior quanto técnico, o resultado é desanimador: no último exame, realizado em setembro de 2003, 60% dos candidatos foram reprovados. Na edição anterior, o índice foi de 38%.

A explicação do Conselho Federal de Contabilidade é dupla: queda na qualidade dos cursos e aumento do nível de exigência no exame para obtenção do registro, obrigatório para o exercício da profissão. Situação semelhante é verificada no exame da Ordem dos Advogados do Brasil. Em abril de 2003, apenas 27,45% dos candidatos do Estado de São Paulo foram aprovados.

Na avaliação de José Martonio Alves Coelho, presidente do conselho, os baixos índices relacionam-se à proliferação de escolas, sobretudo de nível superior, o que, segundo ele, comprometeu a qualidade do ensino. Embora o percentual de aprovados tenha recuado, o nível dos serviços prestados por quem já está no mercado melhorou consideravelmente, segundo o mesmo órgão.

Questões de ética, elaboradas com base no Código de Ética Profissional do Contabilista, ganham a cada ano mais destaque no Exame Nacional de Suficiência. Suspensões do registro por até dois anos e advertências são algumas das punições aplicadas pelo conselho por desvios de conduta.

Autos de infração, documentos emitidos pelos conselhos regionais de contabilidade em razão de indícios de irregularidades, cresceram nos últimos anos: foram 6.759 em 2002 e 8.865 em 2003.

O salto é explicado pelo aumento da fiscalização em empresas e órgãos públicos com vistas ao fiel cumprimento da boa conduta ética e disciplinar.

A área de auditoria também ganhou destaque no mercado. Desde 2003, auditores independentes são submetidos a exames de qualificação e a um programa de educação continuada (32 horas/aula anuais), cuja participação é obrigatória. O conselho tem a intenção de estender o programa a contadores e técnicos.

"É mais um passo visando a melhoria da qualidade das informações prestadas ao mercado", diz José Carlos Bezerra da Silva, gerente de normas contábeis da Comissão de Valores Mobiliários.

O contabilista Glauco Martins Bou Assi, 32, que está há 14 anos no mercado, defende a necessidade de profissionais dessas áreas estarem sempre em busca de atualização. "Hoje, minha rotina é mais sobrecarregada. Dedico duas horas do meu dia ao estudo da legislação."

(Folha de S. Paulo – 15/02/04)

   

Especialização técnica pode desaparecer

A profissão de técnico em contabilidade pode estar com os dias contados. O Conselho Federal de Contabilidade planeja deixar de conceder registro para os que se matricularem em cursos técnicos a partir do próximo ano.

Inscritos até dezembro de 2004 terão o registro garantido, independentemente do ano de conclusão do curso, segundo estabelece resolução dessa entidade.

Com a decisão, o conselho quer estimular o ingresso na graduação. Para o órgão, a complexidade das atividades nas empresas demanda formação superior.

Dentro de dois meses, o conselho estima enviar ao Congresso Nacional projeto de lei alterando itens da legislação de 1946, que regulamenta as atividades do técnico em contabilidade.

Enquanto as mudanças não forem providenciadas, o registro de técnico em contabilidade está assegurado, afirma Ataíde Alves, conselheiro da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação. "Hoje, não há amparo legal para que o registro não seja concedido", diz ele.

Alternativas à resolução do conselho de contabilidade foram propostas em encontro que reuniu representantes do governo, do conselho e das escolas técnicas, lembra Alves. Entre as propostas apresentadas, estava o emprego de técnicos em firmas de menor nível de complexidade. A sugestão, no entanto, não foi acatada pelo conselho de contabilidade.

Conforme mapeamento parcial do Cadastro Nacional de Cursos Técnicos, elaborado pelo Ministério da Educação, existem hoje no país mais de 199 cursos técnicos em contabilidade.

(Folha de S. Paulo – 15/02/04)

   
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