Página pessoal do Orkut vira ferramenta de seleção de candidatos

Algumas empresas estão contratando profissionais não apenas com base no currículo e na entrevista, mas também por meio de informações colhidas na página pessoal do Orkut do candidato.

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Empresas adotam a prática de espionar no Orkut a vida pessoal dos que buscam uma vaga

A carioca Raquel Oliveira, de 25 anos, formada em letras, estava à procura de emprego havia dois meses quando soube de uma vaga na ID Projetos Educacionais, uma firma de consultoria. Mandou o currículo para a empresa, foi chamada para uma entrevista e acabou contratada no cargo de coordenadora pedagógica. Só depois Raquel descobriu que sua contratação foi feita não apenas com base no currículo e na entrevista. À sua revelia, a ID também colheu informações na página que ela mantém no Orkut, o site de relacionamento mais popular do Brasil, com 9 milhões de usuários, um terço de todos os brasileiros com acesso à internet.

Por meio desse expediente, a empresa ficou sabendo que a então candidata participava de comunidades virtuais que comentavam assuntos relacionados a literatura e música. Também constatou que ela não havia aderido a comunidades do tipo "Eu odeio trabalhar" e "Detesto meu chefe", muito comuns no site. As informações colhidas no Orkut foram decisivas para que a ID contratasse Raquel. "Fiquei surpresa em saber que a empresa havia consultado o Orkut, pois eu nem havia comentado que mantinha uma página no site", ela conta.

Raquel não é a única a passar por essa experiência. Muitas empresas vêm adotando a norma de consultar o Orkut para vasculhar a vida pessoal dos aspirantes a emprego. Com esse procedimento, traçam um perfil mais preciso do candidato, e muitas vezes chegam a informações que ele gostaria de omitir. Nas páginas do Orkut e de outros sites do gênero, como o Friendster, os internautas costumam registrar detalhes de sua vida pessoal, desde listas de melhores amigos até preferências sexuais.

Pode ser a ferramenta ideal, por exemplo, para pais que querem vigiar a vida dos filhos e para namorados que desconfiam de seus parceiros. Era questão de tempo se tornar um aliado também dos departamentos de recursos humanos das empresas. "No ano passado, descartamos vários candidatos depois de descobrir que eles faziam parte de comunidades batizadas de 'Eu bebo até cair' e 'Eu assisto a todas as novelas da TV'", diz Andrea Ramal, diretora da ID. "Apesar de bem-humoradas, essas comunidades passam uma idéia de superficialidade que não condiz com uma empresa de consultoria", ela completa.

A empresa de tecnologia SPPS, de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, eliminou dois candidatos a uma vaga de gerente de contas porque eles participavam de comunidades do tipo "Eu odeio". Atualmente, a SPPS tem três vagas abertas e já recebeu mais de 100 currículos. "Vamos consultar o Orkut toda vez que o número de candidatos selecionados for alto e precisarmos de informações adicionais sobre eles", diz Iedo Joner Jr., diretor da empresa.

A agência de marketing promocional Decidindo, de São Paulo, incluiu o Orkut no processo de seleção de funcionários no ano passado. "Como lidamos com o público jovem, damos preferência a pessoas que participam de comunidades com temas ligados a esse segmento", diz o diretor Rodrigo Clemente. O paulista Vinícius Santos Hirose, de 22 anos, foi selecionado em agosto pela Decidindo justamente porque tinha esse perfil. "Faço parte de muitas comunidades ligadas a festas e a faculdades", ele diz. Sua função na empresa é fazer pesquisas com estudantes universitários.

As empresas de recrutamento não vêem com bons olhos a prática de investigar o perfil de candidatos no Orkut. Elas alegam que o comportamento que se tem na vida pessoal não é necessariamente levado para o ambiente de trabalho. "Se uma pessoa declara no Orkut que odeia acordar cedo, não significa que seja incapaz de cumprir horários", diz Neli Barboza, gerente de recrutamento e seleção da empresa de recursos humanos Manager. Além disso, nem sempre a descrição de si próprio que alguém faz no Orkut é fiel. Muitos, por brincadeira, se atribuem características esdrúxulas. Existe também o risco de a página no Orkut ser falsa.

Qualquer um pode se cadastrar no site utilizando o nome de outro indivíduo. Essa brecha faz com que algumas pessoas, para se vingar da ex-namorada ou do ex-chefe, por exemplo, criem páginas em nome dos desafetos, com informações difamatórias. "Concluir que um candidato não está apto à vaga com base no conteúdo de seu Orkut é preconceito e invasão de privacidade", afirma Rodrigo Vianna, da consultoria Case Consulting, de São Paulo. Pode ser, mas o fato é que, em muitas empresas, a espiadinha no Orkut já virou rotina.

(Revista Veja)

   
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