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Alunos aprendem com "headhunters" dicas sobre entrevistas
de emprego
Por um lado,
a situação em que a jovem carioca Renata de Albuquerque
Figueiredo se encontra é invejada por muitos profissionais
em início de carreira. Aos 26 anos, aluna do segundo ano
do mestrado em administração do Instituto Coppead,
da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Renata provavelmente
não terá muitos problemas em se recolocar no mercado
no próximo ano, quando acabar a última etapa do mestrado,
um intercâmbio em Wharton. Afinal, o curso do Coppead é
o único da América do Sul a constar no ranking dos
100 principais MBAs do mundo elaborado pelo jornal britânico
Financial Times e tem sido alvo fácil das maiores companhias
brasileiras e multinacionais na busca por promissores talentos.
Mas, na outra
ponta, Renata não se esquece que, ao optar por fazer o curso
em tempo integral no Coppead, abriu mão de dois anos de experiência
profissional em um momento de extrema competitividade no mercado
de trabalho. Apesar de o MBA já lhe garantir na saída
um patamar bem superior ao que ela ocupava quando iniciou o curso,
a jovem sente-se insegura em relação ao que vai encontrar
pela frente.
Não sabe
direito, por exemplo, como deve se comportar nas futuras entrevistas
de emprego, já que nem todos os entrevistadores poderiam
entender a sua opção de ficar dois anos mergulhada
na vida acadêmica e agora almejar por posições
e salários mais altos que os seus anteriores.
Na última
sexta-feira, Renata passou pela primeira vez pelo crivo de um "headhunter",
figura um tanto misteriosa e temida por grande parte dos profissionais.
Foi entrevistada por Augusto Carneiro, sócio do escritório
do Rio de Janeiro da Korn/Ferry, uma das maiores empresas de recrutamento
de executivos do mundo. Carneiro buscava um profissional para atuar
na área de marketing da Dentsply, empresa do setor odontológico.
Outro candidato entrevistado para a vaga foi Georges Ayoub Riche,
24 anos, também aluno do Coppead.
Mas as entrevistas
foram diferentes daquelas normalmente feitas pelos recrutadores
de executivos: foram realizadas em público, assistidas por
cerca de 40 pessoas, colegas de turma do mestrado. Na verdade, tanto
a entrevista como a vaga na Dentsply foram simuladas, a pedido do
Coppead. A idéia da escola, explica a assessora de desenvolvimento
institucional, Eva Hirsch Pontes, foi desmistificar para os alunos
o trabalho dos "headhunters" e ao mesmo tempo sanar muitas
das dúvidas que esses jovens carregam principalmente por
interromperem a carreira profissional por dois anos.
"Essas
pessoas ainda não possuem disciplina de entrevista, no máximo
já passaram por agências de emprego, que é o
oposto do nosso trabalho", afirma Carneiro, que conduziu uma
das entrevistas. A outra foi feita por Carlos Mello, associado da
Korn/Ferry. "É fácil dizer 'seja você mesmo'
na entrevista, mas no fundo você sabe que está sendo
monitorado o tempo todo", desabafa Renata, "aprovada"
para o cargo.
As entrevistas,
no entanto não foram totalmente falsas, explica Carneiro.
Dos 44 alunos do MBA, por exemplo, 17 estão inscritos no
site de recrutamento de média gerência da Korn/Ferry
e são potenciais candidatos a vagas para jovens talentos.
E existe também a possibilidade de a vaga fictícia
da Dentsply se tornar real.
Apesar de pessoas
em início de carreira não fazerem parte do trabalho
principal da Korn/Ferry, voltada para altos executivos, o sócio
da empresa conta que é inevitável comentar informalmente
com alguns de seus clientes sobre a qualidade dos alunos do mestrado.
Uma grande companhia do setor de mineração, por exemplo,
já está de olho em uma aluna desse MBA.
Na próxima
semana, acontece na universidade carioca a tradicional semana de
recrutamento, na qual os alunos do mestrado apresentam seu portfólio
a diretores de recursos humanos e dirigentes de empresas dos mais
diversos setores, interessadas em contratar um recém-MBA.
Santander, HSBC, Companhia Vale do Rio Doce, McKinsey e Booz Allen
& Hamilton são algumas das companhias que já confirmaram
presença na semana de recrutamento. Será uma grande
forma de testar o que aprenderam na simulação da entrevista
com os "headhunters."
(Valor -
18/07/02)
Recrutadores ensinam passo a passo o que fazer
Como devo me
comportar em uma conversa com um "headhunter"? Em que
situações ele está apenas me testando? Qual
é o momento de falar sobre salário? O fato de eu ter
decidido mudar de área de trabalho após o MBA pode
ser um ponto negativo no meu currículo? A minha experiência
anterior me condena? Estas são apenas algumas das muitas
perguntas sobre o momento da entrevista que podem parecer bobas
mas incomodam uma infinidade de profissionais.
Na simulação
de entrevista feita para os alunos do Coppead, os "headhunters"
da Korn/Ferry Augusto Carneiro e Carlos Mello deixaram claro que,
em primeiro lugar, não é preciso ter medo do entrevistador.
E, além disso, apenas falar a verdade. Afinal, eles não
estão ali para criticar o profissional mas sim para escolher
o perfil ideal para a vaga que o seu cliente - a empresa - pretende
preencher. Uma mudança de rumos, por exemplo, é normal
no início da carreira. "Não estamos preocupados
em fazer pegadinhas", afirma Carneiro.
O processo de
seleção dos candidatos passa por diversas etapas.
A primeira delas, após a solicitação do cliente,
é encontrar o maior número possível de potenciais
candidatos. As buscas são feitas no banco de dados da empresa,
no mercado e também por indicações, explica
Mello. Então, escolhidos de oito a dez nomes, se faz o primeiro
contato por telefone.
Nessa abordagem
inicial, o "headhunter" faz perguntas simples: se a pessoa
está feliz com o atual trabalho, o que quer para a carreira
e se gostaria de participar de uma entrevista para uma posição
em outra companhia. "Se nessa conversa bater com o perfil que
procuro, chamo para a entrevista", conta Mello. Gafes comportamentais
e de postura? Não há regras. O importante é
usar o bom senso, diz Mello.
A primeira conversa
face-a-face serve para confirmar os dados do currículo do
candidato. Pouca gente sabe, mas em grandes empresas de recrutamento
o consultor pesquisa, por exemplo, se o nome da pessoa consta em
cadastros de inadimplência, checa nas universidades se ela
realmente possui o diploma de conclusão do curso e testa
a fluência de idiomas descrita pelo candidato. Por isso, não
adianta mentir no currículo.
Em seguida,
o consultor pergunta sobre questões profissionais: trabalho
atual, empregos passados, responsabilidades, experiências
em liderança de equipes e referências profissionais
para checar as informações. Depois, pergunta sobre
a vida pessoal do candidato: se tem hobbies, pratica esportes, se
cuida da saúde, como é a relação com
amigos e família. "É importante saber se a pessoa
faz outras coisas além de trabalhar", diz Mello.
Antes de serem
apresentados ao cliente, os candidatos passam por uma entrevista
final com um sócio da empresa de recrutamento, que vai aprovar
ou não a escolha. Dos oito ou dez entrevistados inicialmente
pelo consultor, seis são apresentados ao sócio, que
geralmente encaminha três nomes ao cliente.
Uma das regras
dos "headhunters" é: nunca se fala sobre salário
em entrevista, a não ser que o entrevistador toque no assunto.
"Quando o cliente se encanta, ele faz qualquer negócio",
diz Mello. "Se você pergunta quanto vai ganhar logo na
primeira conversa, mostra que está interessado mais no dinheiro
do que no desafio."
Ao final da
primeira entrevista, o candidato é informado sobre a empresa
interessada na contratação. E a dica é descobrir
o máximo de informações possíveis sobre
essa companhia antes da última entrevista com o "headhunter".
"Isso deve ser feito também para você decidir
se quer trabalhar lá", explica Augusto Carneiro. Até
porque na conversa o sócio não vai mais tratar do
passado do candidato, mas sim de planos futuros e o que ele poderia
agregar ao seu cliente.
As entrevistas
envolvem também um teste de cartas, com adjetivos escritos.
O candidato escolhe os adjetivos que mais se encaixam no seu perfil
e quais são aqueles que ainda precisam ser aprimorados. "Usamos
as cartas não para testar o candidato, mas porque fazemos
o exercício inverso com o cliente", explica Carneiro.
(Valor -
18/07/02)
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