Empresas enganam desempregados para ganhar dinheiro

Cargos fictícios são criados em anúncios de jornais, revistas, murais e sites na Internet para fazer com que vítimas paguem por entrevistas.

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    - Denúncia é a melhor defesa contra falsa chance de emprego
    - Empresas atrelam cargo fictício a vendas
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    - "Tudo é mentira, tudo é golpe", diz ex-funcionária

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Busca de emprego esbarra em estelionato

Descrito da literatura às investigações policiais ao longo de décadas, o conto-do-vigário se profissionaliza, mas não perde a definição que lhe é devida: estelionato. Atualmente, uma das principais vítimas desse modelo de golpe, caracterizado no famoso artigo 171 do Código Penal como o "ato de obter vantagem ilícita induzindo ou mantendo alguém em erro", é o desempregado ou quem busca um novo emprego, principalmente por meio de anúncios em jornais, revistas e murais ou em sites na internet.

Com um contingente de 1,7 milhão de pessoas sem trabalho só na Região Metropolitana de São Paulo, não faltam vítimas para cair nas emboscadas. Por exemplo, no Disque-Denúncia, o estelionato é a quinta maior causa de reclamações, só em 2005, até o fim de julho, foram 30 acusações contra golpes de emprego. Do outro lado, sobram empresas no mercado que se aproveitam dessa situação para poder faturar.

Em junho deste ano, três homens foram acusados de enganar centenas de pessoas na Baixada Fluminense com falsas promessas de emprego. Foram considerados culpados por crime de estelionato e condenados a passar de quatro a cinco anos na prisão. As vítimas eram induzidas a vender planos de saúde e títulos de hotéis para obter uma vaga fictícia.

Em Salvador, dois jovens foram autuados em flagrante por aplicar o "golpe do emprego". Ambos anunciavam em jornais da cidade vagas para o cargo de auxiliar administrativo com salário de R$ 1.800. Em novembro do ano passado, também na Bahia, foi preso um homem procurado em dez Estados e com mais de 30 mandados de prisão solicitados por praticar o golpe. Nas cidades por onde passava, ele anunciava em cartazes vagas de serviços gerais com salário de R$ 500 e fazia uso da documentação dos candidatos para realizar fraudes.

Pela extensão e diversidade, o número de vítimas do golpe não pode ser mensurado. Fernanda Sanches, 24, por exemplo, foi uma delas. Atraída por um anúncio que ofertava um salário de R$ 2.500 e 25 vagas para advogados, ela ligou para um telefone celular em busca da oportunidade. A gravação da caixa postal digital identificava a empresa como sendo o Banco do Emprego, que dizia contar com um sistema "revolucionário" de seleção.

A entrevista para a suposta vaga era feita pela própria máquina. Durante a gravação, além de anunciar um serviço de disque-amizade, a empresa exige insistentemente que o candidato envie por correio seu currículo e 25 selos comerciais, o que custaria, no mínimo, R$ 15. A justificativa é que os selos são usados para o envio do currículo a 25 contratantes. Só falta um detalhe: não pede 25 cópias do currículo.

Os anúncios variam: há desde oportunidades para médicos como para office-boys, com salários atrativos e sempre com 25 vagas. O prejuízo individual é modesto (R$ 15 em selos e outros R$ 15 do custo de uma ligação para celular por cerca de 15 minutos), mas, quando somado, o volume cresce exponencialmente. Segundo a Folha apurou, os anúncios foram publicados por, pelo menos, seis semanas consecutivas em classificados de cinco dos maiores jornais do país.

Um funcionário da agência dos Correios informou que a caixa postal alugada pela empresa recebe cerca de 20 a 30 cartas por dia. Os Correios afirmam que a empresa não recompra selos.

De acordo com o CNPJ fornecido para o registro do site da empresa, o cadastro da firma na Receita Federal mostra que ela está inscrita como Global Serviços de Cobrança Ltda. e, segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo, também sofre duas ordens de despejo por falta de pagamento.

Para Guliver Augusto Leão, diretor do comitê jurídico da Associação Nacional de Jornais, constituída por 127 empresas jornalísticas de todo o país, devido à impossibilidade de checar o conteúdo de todos os anúncios, sua publicação deixa de ser de responsabilidade do jornal se este cerca-se de medidas cautelares como o cadastro dos dados do anunciante.

"Especificamente nesse aspecto, o jornal não pode se responsabilizar, desde que exija as informações do anunciante", defende.

A empresa Global S.C. Ltda. confirma que é detentora do site Banco do Emprego e afirma que o serviço é gratuito e que o candidato tem "apenas um único custo de uma ligação para telefone móvel".

Alegando os "poucos resultados" obtidos com o envio do currículo por correio em comparação com o serviço de gravação por telefone, a empresa informa que, a partir de setembro, irá "disponibilizar em seu site um serviço gratuito de cadastramento de currículos, onde o candidato poderá gravar os dados em forma de entrevista ou cadastrá-los no site".

(Folha de S. Paulo – 14/08/05)

   

Denúncia é a melhor defesa contra falsa chance de emprego

Quem se vê lesado por uma falsa chance de emprego passa, geralmente, por dois sentimentos: a raiva por ter sido enganado e o medo de denunciar e sofrer represália da empresa.

Fazer a denúncia, porém, é um dos melhores caminhos para evitar tanto que outras pessoas passem pela mesma experiência como para fornecer aos órgãos públicos elementos de investigação.

A denúncia pode ser feita à Fundação Procon-SP, a delegacias, ao Disque-Denúncia, pelo telefone 181, ou ao Ministério Público, quando a acusação aponta casos que ferem os diretos coletivos, pelo (11) 3017-7700.

Para os que se sentem prejudicados moral ou financeiramente ou desejam reclamar direitos trabalhistas, o melhor caminho é a orientação de um advogado.

(Folha de S. Paulo – 14/08/05)

   

Empresas atrelam cargo fictício a vendas

O dinheiro ela não tinha. Mas a aposta de emprego certo motivou o empréstimo de R$ 3.000 para a compra de dois planos odontológicos dos quais a família não precisava. Luciana Correia dos Santos, 19, caiu no estratagema da OdontoExpress há quase um ano. Só agora quitou as dívidas que fez.

Aquele que talvez seja o golpe de emprego mais antigo da cidade ainda atuando livremente no mercado age sempre da mesma maneira: induz a venda de planos de saúde odontológicos vinculados a uma fictícia oferta de vaga.

Além disso, tornou-se uma indústria à parte, com o surgimento de outras empresas que atuam de forma semelhante. Depois que o candidato vende o número de planos imposto, é recusado pela firma, que alega "falta de perfil".

"Tive que assinar um contrato dizendo que me comprometia em vender dez planos da OdontoExpress (que pertence à JBR Benefícios e Intermediação). "Havia mais de 90 candidatos no dia em que fui inscrever-me, após ter lido um anúncio para jovens sem experiência", conta Santos, que foi proibida de comunicar-se com outros candidatos e, na saída, foi escoltada por um funcionário da empresa até a catraca do metrô.

As vítimas reclamam da ineficiência dos órgãos públicos na apuração dos casos. "Fiz várias ligações ao Disque-Denúncia e não tive resposta nem no prazo estipulado nem meses depois", afirma uma das vítimas, que não se identificou. "Eu caí no golpe. Fiz um boletim de ocorrência, mas o escrivão me disse que eles tinham denúncias mais importantes para apurar", diz outro prejudicado.

A fim de conter parte das fraudes, o Ministério Público entrou com ação civil pública e investiga a Executive Plame Standard, ligada à Odontomeg, empresa que elabora o cartão da Plame Odonto, uma das mais atuantes no ramo. A OdontoExpress sofre 44 processos no Tribunal de Justiça de São Paulo, e a Odontomeg, 87.

O técnico administrativo Willys Pereira de Lima, 32, conheceu a Ondontomeg há 11 anos, quando candidatou-se para uma vaga de assistente comercial. Para ele, a tática continua sendo executada da mesma forma. "Eles fazem a cabeça de quem é jovem e está desempregado. Disseram-me [na época] que vender o plano era só para ganhar experiência. Percebi que era golpe, peguei meus documentos e fugi", conta.

A forma de abordagem e de ação dessas empresas são moldadas de acordo com o candidato. Além de divulgar vagas inexistentes, preparam a encenação e a retórica para iludir o desempregado. Quem chega a um desses endereços é levado a uma sala de "treinamento". Entre testes e entrevistas, a pessoa é coagida a vender, logo no mesmo dia e à vista, o seu primeiro plano odontológico.

O contrato de venda do serviço é um dos poucos elementos reais. Justamente por isso, está sujeito ao cancelamento do acordo por parte do usuário em até 30 dias. Mas a proliferação de informações divulgadas pelas vítimas na internet tem sido o meio mais efetivo de proteção ao golpe.

(Folha de S. Paulo – 14/08/05)

   

Oferta atrativa oculta venda de livros

O anúncio da empresa é bastante atrativo. Além de dizer que se trata de uma multinacional em expansão, oferta vagas para diversos perfis profissionais e aceita de modelos a acadêmicos. E o melhor: não exige experiência.

Ao chegar com os documentos em mãos a um dos endereços listados, porém, descobre-se que a intenção é outra. Quando Cláudia (nome fictício) se apresentou à empresa, desconfiou das peculiaridades da ficha cadastral.

"Eles queriam saber a placa do meu carro, se eu usava óculos, se lia com rapidez e quantos livros eu tinha lido neste ano", conta.
A empresa em que Cláudia procurava trabalho tinha feito um anúncio de fachada. Na verdade, sua atividade principal é vender cursos de leitura dinâmica e apostilas didáticas de temas variados.

"Disseram-me que eu começaria ganhando R$ 2.000 e em um ano me tornaria diretora", diz Cláudia. A empresa já tem 49 processos contra ela no Tribunal de Justiça de São Paulo, a maioria por desconstituição de contrato.

(Folha de S. Paulo – 14/08/05)

   

Empresas dizem que acusações não procedem

A Odontomeg, responsável pela venda do plano odontológico Plame Odonto, diz que "todas as acusações não são verdadeiras". Segundo a empresa, "a Odontomeg tem 15 anos de mercado e, se estivesse aplicando golpe, fatalmente já estaria fechada". A firma diz que "todos os funcionários são registrados antes que vendam qualquer coisa". "Mas há um índice de pessoas que não se adaptam ao trabalho, e temos que buscar outras para substituir esse número", diz.

Já a empresa OdontoExpress diz que parte dos candidatos, buscando a efetivação no cargo, age de má-fé ao vender o cartão para familiares, mas são instruídos pela empresa a não fazê-lo. Além disso, a empresa afirma que todos os funcionários são registrados antes de iniciarem as vendas.

(Folha de S. Paulo – 14/08/05)

   

"Tudo é mentira, tudo é golpe", diz ex-funcionária

Rachel (nome fictício) trabalhou por um ano numa empresa que vende planos odontológicos no centro de São Paulo e não consegue calcular o número de pessoas que ajudou a enganar. A ex-funcionária conta que o golpe funciona há mais de uma década por ser bem armado para levar credibilidade ao candidato e porque existem "ligações obscuras com órgãos de denúncia e investigação".

"Da entrevista ao salário, tudo é mentira, tudo é golpe", afirma. Segundo ela, o interesse da empresa é por pessoas que aparentam ter dinheiro para pagar pelos planos. "Esse é o segredo: eles avaliam a roupa e o porte do candidato. [Os aprovados] são sempre jovens à procura do primeiro emprego -para que se deslumbrem com o salário e vendam mais."

Ela conta que, durante o treinamento, a empresa chega a induzir candidatos ao furto. "De forma sutil, induzem também as pessoas a contrair empréstimos, comprar o próprio plano, vender o que têm", declara.

(Folha de S. Paulo – 14/08/05)

   
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