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Aposentados são recrutados para suprir a falta de especialistas
Em novembro de 2002, o administrador de empresas
Pedro Paulo Scoffano, 63 anos, retornava ao mercado de trabalho,
12 meses após ter se aposentado pela Petrobras, onde começou
como estagiário e saiu como assistente do superintendente
da Gaspetro (braço da estatal). Quando se despediu de uma
carreira em ascensão de 22 anos, ele não imaginava
que pouco tempo depois retornaria à casa. Mas a explosão
do setor de petróleo e gás, que resultou num 'gap'
de mão-de-obra especializada, vem levando muitas companhias
a buscar profissionais já aposentados, como ele.
Scoffano foi chamado por uma assessoria na área
de gestão empresarial, escolhida por meio de licitação
para prestar serviços à gigante do petróleo,
passando a atuar como consultor. "Este é um segmento
bem complexo, que exige um profundo grau de conhecimento técnico
dos processos", afirma. "E o mundo acadêmico não
consegue acompanhar o ritmo de crescimento acelerado do mercado.
Resultado, os recém-formados acabam não saindo prontos".
A realidade do setor de petróleo também
se aplica em outras áreas, como a de mineração,
siderurgia, seguro e construção, que vivem seus melhores
momentos. Consequentemente, o boom dos novos investimentos reflete
na abertura de inúmeras vagas não preenchidas pela
falta de gente preparada. E a alternativa encontrada diante do problema
tem sido trazer de volta profissionais experientes que penduraram
a chuteira. "É um fenômeno interessante, porque
o mercado normalmente descarta quem já passou dos 50",
avalia André Bocater, diretor geral da Case Consulting, consultoria
especializada na seleção de profissionais para média
gerência.
"Mas vale ressaltar que esse movimento só
acontece em funções que exigem do profissional um
perfil técnico ou segmentos que enfrentam a escassez de talentos",
observa. Ele destaca que no setor de petróleo e gás
não há gerentes de operação ou gerentes
técnicos disponíveis. O mesmo pode ser observado em
indústrias que precisam hoje de engenheiros químicos,
que migraram de área por conta da falta de boas oportunidade
no passado e agora são de novo bastante valorizados.
De acordo com Bocater, tirá-los da concorrência
sai bem mais caro, já que quem está empregado nessas
áreas ganha altos salários e benefícios. "Não
quer dizer que todo mundo vai se aposentar e ter emprego garantindo.
Apenas esses profissionais que construíram carreira em setores
extremamente especializados ou que vêm se expandindo",
afirma. Em geral, os aposentados que voltam à ativa são
contratados como pessoa jurídica.
Por outro lado, com medo de perderem suas mentes
brilhantes e não acharem substitutos no mercado, algumas
companhias retêm os executivos após a aposentadoria.
"O mercado está aquecido e as empresas não podem
segurar os negócios por falta de gente", avalia Karin
Parodi, sócia da Career Center, consultoria especializada
em orientação de carreira. "Vemos companhias
desenharem programas de aposentadoria com o objetivo de não
deixar as pessoas sairem".
Sérgio Duarte Cruz, 73 anos, recebeu proposta
da diretoria da Marsh, multinacional americana que atua no gerenciamento
de riscos e seguros, para permanecer na companhia como consultor
após sua aposentadoria - na época ele tinha 65 anos.
Seus mais de 40 anos de casa pesaram na decisão da empresas
em mantê-lo. Poucos conhecem o setor de segurança patrimonial,
análise de risco, roubo e prevenção como ele.
"Tinha até convite para trabalhar em
outra empresa. No entanto, resolvi ficar porque aqui faço
o que gosto, sem ter a responsabilidade administrativa de antes,
como funcionário", destaca. Cruz está sempre
viajando, algo que lhe agrada por permitir fugir da rotina. "Faço
inspeções, avaliação de risco e auditoria,
esse trabalho que complementa o que ganho com minha aposentadoria".
Além dele, a empresa possui outros aposentados em seus quadros,
responsáveis por tarefas bastante peculiares, dominadas sobretudo
por profissionais bem mais experientes.
Luiz Alberto Bezerra, 60 anos, foi até promovido
quando comunicou a empresa que estaria se aposentando. Convidado
em 2003 a ocupar a gerência corporativa de recursos humanos
do grupo Orsa - indústria dos setores de celulose, papel
e embalagens -, até então era responsável pela
parte administrativa de uma das unidades da holding, em Paulínia,
interior de São Paulo. "Foi um salto importante, porque
fiquei com todas as áreas de RH do grupo sob o meu comando",
afirma.
"A empresa reconhece o profissional com experiência,
que possui uma bagagem difícil de achar por aí".
Bezerra acredita que a valorização do profissional
mais velho começa a ser uma prática em alguns mercados.
"É claro que imaginava permanecer na organização,
mas não esperava ser chamado para subir degraus", diz.
O que para ele é um bom indicador de que os cabelos brancos
significam experiência e capacidade de lidar com situações
em que os mais novos possuem pouco traquejo.
Na opinião de Flávio Kosminsky, sócio
da Korn/Ferry INternational, empresa de recrutamento de alto executivos,
trazer de volta aqueles que já saíram do mercado ou
manter profissionais aposentados é uma opção
que vem se tornando comum às companhias com déficit
de talentos. "Formar bons profissionais leva em torno de 10
a 15 anos. Não dá para esperar esse tempo. A demanda
é bem superior à oferta de gente preparada",
explica. "No setor de petróleo então, a situação
é mais grave. São posições extremamente
especializadas em exploração e produção".
Para o executivo, essa caça aos aposentados deve permanecer
forte nos próximos oito anos, pelo menos, quando os os mais
jovens estarão lapidados.
(Valor)
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