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Trabalho não assusta a nova geração, o que
eles querem é ser o número um
Para cumprir
a primeira etapa do programa de trainees da Ambev, que começou
em janeiro, muitos dos 40 participantes, escolhidos entre 14 mil
candidatos, tiveram que deixar por quatro meses a família
e os namorados para conhecer as operações do grupo
em vários cantos do Brasil. Alguns acabaram bem longe de
casa, como o argentino Lucas Herscovici, 24, e o venezuelano Henrique
Ponte, 25.
Mas, dedicação
total ao futuro trabalho, é algo que esses jovens já
esperavam. "Eu tenho vontade de trabalhar no Brasil e já
sabia que poderia ser enviado para qualquer lugar", diz Herscovici.
"Faz parte". Todos têm na ponta da língua
os planos de trabalho para o futuro. Querem ser gerentes e diretores
até chegarem ao topo. Rodolfo Chung, 22, além de galgar
posições na empresa, quer ainda estudar em Stanford,
uma das melhores universidades do mundo.
Na vida pessoal,
o planejamento dos trainees é mais "light", já
que a carreira vem sempre em primeiro lugar. Maria Cecília
de Oliveira, 23, por exemplo, diz que só irá pensar
em casamento depois dos 30 anos. Filhos? Nem ela, nem a colega Pethra
Vargas Ferraz, 23, conseguem saber quando terão tempo para
pensar no assunto.
Os novatos sabem
que para se sobressairem na companhia que escolheram, terão
que pensar nela 24 horas por dia. Ou pelo menos, terão que
gastar uma boa parte do seu tempo bolando estratégias, não
só para sua área de atuação na Ambev,
mas para conseguir impulsionar sua carreira lá dentro. "Sonhar
pequeno dá tanto trabalho quanto sonhar grande", diz
a gerente de comunicação corporativa, Carla Coelho,
propagando um dos slogans da empresa. "Queremos jovens com
espírito empreendedor, que gostem de correr riscos",
endossa Maurício Luchetti, diretor de gente e qualidade.
Na Ambev não
existe um plano formal de carreira. A pessoa entra e deve então
trilhar seu caminho sozinha. O sistema de bônus é um
dos mecanismos que funciona como motivador individual e de equipes.
"A pessoa só tem direito ao seu, quando o departamento
consegue cumprir sua meta", explica o diretor-geral, Magim
Rodrigues Junior. E isso só será possível,
se a empresa toda atingir seu objetivo. "Se alguém da
equipe não estiver chegando na sua meta, o departamento todo
será prejudicado", diz Luchetti. "Os outros então
irão ajudá-lo a chegar lá".
Outra forma
de envolver os funcionários na busca frenética por
resultados é torná-los sócios da companhia.
Um privilégio para poucos. "Fazemos uma reunião
anual com todos os diretores em um hotel onde eles sugerem os membros
de sua equipe que poderiam ganhar ações", explica
Luchetti. "A eleição de quem poderá virar
acionista é feita através do voto aberto de todos".
Quem receber o bônus e for escolhido para ser acionista, poderá
usá-lo para comprar as ações. "Temos hoje
250 sócios", diz Magim. "Metade deles vieram do
programa de trainees".
Ele acredita
que desde 1990 até hoje, errou na escolha de apenas 10% dos
novos acionistas. Pelo programa de trainees da Ambev, já
passaram 500 jovens. Destes, alguns chegaram a cargos de gerência.
Atualmente, a média de idade dos funcionários da área
administrativa é de 29 anos.
Rodrigo Figueiredo
de Souza, 26 anos, é um exemplo de trainee que virou acionista.
Natural de Ourinhos, cidade localizada no interior do estado de
São Paulo, Rodrigo é engenheiro formado pela Escola
Politécnica (SP). Pouco tempo antes de se formar em 1997,
ouviu uma palestra de Magim, que na época comandava a Brahma,
que depois da fusão com a Antarctica, originou a Ambev. As
idéias empreendedoras propagadas pelo executivo encantaram
o estudante, que decidiu abandonar a idéia de seguir carreira
na construção civil, para aventurar-se na indústria
de bebidas.
Com três
anos e meio no emprego e apenas 21 anos de idade, ele já
respondia por uma gerência na recém-criada Ambev. Hoje,
ele comanda uma fábrica com 280 empregados, em Lages (SC),
que produz 150 milhões de litros de cerveja ao ano.
Agora, com alguns
anos de experiência e muitas responsabilidades a mais, ele
diz que se casou com o trabalho. Segue à risca todos os passos
da cartilha da Ambev. Faz visitas noturnas à fábrica,
que funciona 24 horas, e dá aquela passada no fim de semana
para verificar se está tudo em ordem. "Acho necessário,
pois me sinto como se fosse o dono, e de fato como acionista, eu
sou", diz. "E eu quero o lugar do Magim, pode ser daqui
a dez anos, mas é para isto que eu estou me empenhando".
(Valor -
22/05/02)
De olho no lugar do presidente
As regras na
Ambev são claras. Trabalho no fim de semana é motivo
de orgulho. Relacionamentos amorosos dentro da empresa prejudicam
a carreira. Bater a concorrência vem sempre antes de tudo
- isso significa, por exemplo, nunca beber um refrigerante de uma
marca que não pertença ao grupo. Almejar o lugar do
chefe é saudável e até recomendável.
Se a pessoa perceber que isto não se aplica ao seu departamento,
o melhor é mudar para outro. O crescimento só acontece
no grupo quando se cava as próprias oportunidades. O expediente,
para o pessoal da área administrativa, não tem hora
certa para acabar.
Os rígidos
mandamentos da terceira maior cervejaria do mundo, entretanto, não
assustam a nova geração. Maria Cecília de Oliveira,
23 anos, que está terminando este ano o programa de trainees,
é um exemplo do que os diretores da Ambev gostam. Fala cinco
línguas, fez curso de administração na FEA/USP,
intercâmbio na Alemanha, acorda às cinco horas da manhã
para fazer ginástica e sabe muito bem onde quer chegar daqui
a cinco anos. "Vou ser gerente de produtos", diz sem pestanejar.
E acrescenta: "De primeira linha, é claro".
Para ingressar
no programa de trainees da Ambev e chegar à maratona final,
com um mês de palestras dia e noite em um hotel fazenda perto
de São Paulo, que termina esta semana, ela e um grupo seleto
de 40 jovens tiveram que bater 14 mil candidatos.
Uma disputa
vencida, principalmente, no papo. Isso porque todos os 200 finalistas,
que passaram pela primeira peneira via Internet, eram candidatos
de primeira linha. Haviam estudado nas melhores faculdades do país
e possuíam um currículo brilhante. Mas apenas 40 conseguiram,
com seu discurso, convencer o diretor-geral da empresa, Magim Rodrigues
Junior. Os escolhidos tinham o que ele chama de "espírito
Ambev", ou seja, tipeito para dizer que estavam ali para, em
alguns anos, poder roubar o seu lugar.
Muita ambição
e dedicação total ao trabalho. Estes são alguns
dos ingredientes básicos daqueles que reúnem o perfil
ideal para trabalhar no grupo, que emprega hoje 17 mil pessoas.
Os "workaholics", tão criticados pelos modernos
gurus da economia, na Ambev são bem-vindos e até cultuados.
"Queremos gente que cuide da empresa como um padeiro, que é
dono do próprio negócio, trabalha de segunda a sábado
e no domingo ainda dá uma passada para ver se está
tudo em ordem", diz Magim. Para achar os candidatos perfeitos,
ele prefere ser o responsável direto pela caça aos
trainees. Todos os anos, vai pessoalmente fazer uma palestra nas
principais universidades de São Paulo e Rio de Janeiro, onde
com seu olho clínico identifica os futuros talentos.
O que chama
a atenção do presidente? "É difícil
dizer, mas é fácil de identificar", explica.
"O candidato presta atenção, tem um certo brilho
nos olhos". Magim acompanha todo o programa de trainees de
perto. Ele também realiza uma entrevista na segunda etapa
do treinamento, que dura mais de duas horas e na qual o candidato
é metralhado de perguntas sobre praticamente tudo. "Pergunto
até se ele já tomou um porre na vida", diverte-se.
Se, depois de
cumprir todas as etapas do programa, o trainee decidir trabalhar
em outro lugar, Magim é capaz de telefonar de próprio
punho para o fujão e pedir que ele fique. O executivo até
já perdeu alguns talentos, mesmo ligando e insistindo. Mas,
dentro da filosofia da empresa, a decisão do candidato que
não quis ficar é definitiva: esta foi a sua última
chance. Quem vai embora não pode voltar. Isso se aplica a
todos os funcionários, de qualquer nível. "Se
a pessoa quer mudar de área, é só dizer. E
se quiser abrir um negócio próprio, podemos estudar
o caso e até abrir em parceria", diz. Não existe
perdão ou desculpa para quem quer mudar de emprego.
A seleção
para o programa de trainees do próximo ano começa
em agosto. "Não temos um número de vagas em aberto",
explica Maurício Luchetti, diretor de gente e qualidade.
"Só vamos decidir quantos iremos incorporar ao grupo
depois de conhecer os jovens". Em 1999, dos mais de 10 mil
candidatos, ficaram apenas 8 .
(Valor -
22/05/02)
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