Nova geração de advogadas abre espaço no mercado

O número de mulheres nas classes das universidade é igual ou até maior que o de homens. E esse é apenas um dos vários indicadores do aumento expressivo da atuação das mulheres nas mais diversas áreas do Direito. No país, 42% dos 412 mil advogados na ativa são mulheres, segundo dados da Ordem dos Advogados do Brasil.

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Nova geração de advogadas abre espaço no mercado

Há 102 anos, formava-se na Faculdade de Direito Largo São Francisco a primeira mulher advogada: Maria Augusta Saraiva. Demorou para que ela fizesse escola: até a década de 30, era raro a São Francisco ter uma mulher em suas fileiras; quando as tinha, era só uma em todos os anos da faculdade. Algumas, mais prevenidas, levavam damas de companhia para assistir às aulas.

Hoje, o número de mulheres nas classes da São Francisco é igual ou até maior que o de homens. E esse é apenas um dos vários indicadores do aumento expressivo da atuação das mulheres nas mais diversas áreas do Direito. No país, 42% dos 412 mil advogados na ativa são mulheres, segundo dados da Ordem dos Advogados do Brasil - 43% dos 160 mil advogados de São Paulo, 45% dos 87 mil advogados do Rio. E pelo quadro que se pinta nas faculdades, esse crescimento feminino só tende a continuar. De acordo com o dados do Provão, em 2002 a proporção dos que optaram pela área foi de 51,4% de mulheres para 48,6% de homens.

"Não foi fácil abrir a porta para as mulheres, e me esforço para manter essa porta sempre aberta", conta Clemência Wolthers, a primeira advogada a ser admitida como sócia no renomado Pinheiro Neto. Trabalhando no escritório desde 1962, ela entrou para o seleto clube de sócios dez anos depois, em 1972. Mas demorou para ver uma colega sentar ao seu lado nas reuniões - a segunda sócia só foi admitida em 1981, quase uma década depois.

"Antigamente, como não eram aceitas nos grandes escritórios, as mulheres montavam os seus próprios com duas ou três sócias para cuidar de áreas como direito trabalhista, previdenciário ou fiscal", conta Clemência. "E ainda hoje considero baixa a proporção de mulheres nos escritórios, mas isso ocorre porque o casamento e a família limitam a opção. Mas o número de currículos que recebemos de advogadas é cada vez maior, e é gratificante constatar que elas estão cada vez mais bem preparadas."

Hoje são 11 mulheres em um total de 60 sócios no Pinheiro Neto - uma proporção de 18%. Nos escalões menores, a proporção aumenta bastante - 35% entre os 258 advogados e 38% entre os 180 estagiários. "Acredito que temos mais sensibilidade para o trato social e um perfil adequado para coordenar várias tarefas simultâneas. Para o escritório muitas vezes é interessante montar os grupos de trabalho misturando homens e mulheres", observa Mila Vio, uma das "discípulas" de Clemência, no escritório há seis anos. Ela colabora com a consolidação das mulheres até fora do expediente, participando do time de futebol feminino do escritório criado há dois anos - o masculino reinou sozinho por 18 anos.

Algumas áreas sinalizam uma maior presença feminina, como direito da família, societário e trabalhista. Nelas, já surgem nomes como Priscila Corrêa da Fonseca, especialista em divórcios e direito familiar, e Raquel Stajn, atuante na área de direito societário.

Mas enquanto as advogadas comemoram essa maior visibilidade, algumas críticas são constantes. "Os colegas estão acostumados, mas ainda sentimos muito preconceito por parte dos clientes. Em questões que envolvem muito dinheiro ou um problema societário de grandes proporções, muitos ainda fazem questão de uma assessoria masculina", diz Márcia Setti, sócia do escritório Pompeo, Longo e Kignel. "E como em todos os campos de trabalho, elas ainda ganham menos do que eles."

Entre os estagiários e advogados novatos, os homens ainda são muitas vezes preferidos para executar tarefas ingratas como correr por toda a cidade até o fórum para protocolar um processo ou acompanhar um oficial de justiça para citar uma pessoa que não compareceu ao tribunal.

Se os escritórios já vivenciam um boom feminino em suas hostes, uma outra área é apontada pelos advogados como a recordista na absorção de mulheres: a carreira pública. Nunca se viu tantas advogadas como agora nos tribunais, em cargos de magistratura dentro do Ministério Público.

O que mais atrai nesses cargos é a flexibilidade de horários, mais adequada para as mulheres que chegam à fase de conciliar família e trabalho. "Quando se começa a pensar em ser mãe, essa é uma alternativa atraente", diz Andréa Pazzo, há seis anos no escritório Mattos Filho.

De acordo com os dados do Tribunal Superior do Trabalho, por exemplo, as mulheres já ocupam 43,1% das vagas nas Varas do Trabalho, 41,9% dos postos na Justiça do Trabalho e 37,1% das colocações nos Tribunais Regionais do Trabalho em todo o país. Se a Justiça sempre foi simbolizada por uma mulher vendada segurando uma balança, nada mais justo do que elas finalmente conquistarem esse espaço.

(Folha de S. Paulo – 28/04/04)

   
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