| |
Noites de Nobel e Oscar para fidelidade eterna
Ter uma boa
bagagem é fundamental para conquistar emprego em tempos bicudos.
Mas os empregadores estão aprendendo que o segredo dos negócios
- e da manutenção de poucos e bons funcionários
na empresa - pode estar escondido numa viagem. Ao contrário
do que acontece com o turismo de lazer, refreado pela alta do dólar,
as chamadas viagens de incentivo, utilizadas pelas companhias para
estimular os melhores funcionários, distribuidores ou clientes,
estão em alta e vêm sendo cada vez mais utilizadas
como instrumento para catalisar as vendas e debelar a crise.
Não existem
números oficiais sobre o faturamento do setor, mas o termômetro
das agências não deixa dúvidas de que o mercado
está em ascensão. Somente até junho, uma das
mais tradicionais agências do país, a Stella Barros
Turismo, levou mais passageiros dessa categoria (5.938) para passear
do que em todo o ano passado (5.350): "É o próprio
cenário econômico desfavorável que estimula
esse tipo de viagem", diz Luis Barros, vice-presidente comercial
da Stella Barros. Em uma das gigantes do setor, a Rosenbluth, do
grupo Flytour, as perspectivas não poderiam ser mais otimistas.
"Esperamos crescer pelo menos 20% a cada ano", diz o consultor
Sandro Cano.
Quando o assunto
é incentivar quem interessa, agências de turismo e
empresas entram num vale tudo para agradar o viajante. Uma empresa
holandesa do setor de eletroeletrônicos, por exemplo, premiou
seus melhores revendedores nos últimos anos com cerimônias
que imitaram a entrega do Oscar e do Prêmio Nobel. Detalhe:
os eventos foram realizados, respectivamente, no Chandler Pavillion
de Los Angeles, e nos célebres The Blue Hall e The Golden
Hall, em Estocolmo. Em L.A., a superprodução contou
até mesmo com uma trupe de fotógrafos, contratados
para fazer os premiados se sentirem astros. Realmente inesquecível.
"É o tipo de viagem que ele jamais poderia comprar,
simplesmente porque não existe para vender", conta Ruth
Santelmo, supervisora de operações da Stella Barros.
A maioria das
empresas trata da viagem com a mesma cautela usada no lançamento
de um novo produto: "Todos temem ser copiados e querem que
a sua seja melhor que a do outro", justifica Luiz Henrique
Valente, gerente de grupos e eventos da Carlson Wagonlit, que mantém
148 postos de atendimento em empresas de todo o Brasil. Entre os
pacotes desenhados pela Carlson, feitos sob medida para "chorar
de emoção a ponto de a viagem virar tema de conversa
para o resto da vida" está uma clínica de hóquei
numa fazenda canadense.
Cheio de dedos,
o responsável pela publicidade e promoção da
Fiat, Luis Fernando Biagiotti, assegura que o tour que está
preparando para um seleto grupo de 25 donos de concessionárias
da marca, no fim de setembro, tendo por destinos Itália e
França, vai fazer história. Os felizardos, que saberão
da premiação hoje, vão ficar hospedados no
Plaza Athénée, um dos mais tradicionais palácios
parisienses, além de participar de um baile de máscaras
em Veneza. Ah, sim, eles partem e voltam em classe executiva e não
precisarão pôr a mão no bolso nem para as gorjetas:
"A mensagem subliminar é a excelência da qualidade
dos serviços dos lugares por onde irão passar",
conta ele, assumindo que a generosidade da Fiat rima com a competividade
que espera em troca dos favorecidos num futuro bem próximo
e, de preferência, para sempre.
Responsável
pela organização da viagem da Fiat, e de outras grandes
empresas como Pirelli e Toyota, a empresária Renata Carmagnani
Franco, da G-I, conta que para atingir os tais objetivos subliminares,
é preciso trabalhar como artesão. "O viajante
tem a sensação de viver um conto de fadas", diz
ela, que ratifica a visão desse mercado como "à
prova de crise". O gerente de marketing do Banco GM, Alexandre
Dupont, concorda. Ele vai viajar em agosto para Natal com 100 premiados:
"Esse tipo de viagem é uma despesa saudável porque
está ligada à obtenção de resultados".
O que nem todos
os funcionários sabem é que as viagens de incentivo
nem sempre são pagas pelas empresas, mas se autofinanciam,
como explica o consultor sênior da Incentive House, Felipe
de Oliveira Pereira: "O alcance das metas já inclui
o valor da viagem". Pereira explica que cada passageiro custa
em média de R$ 2,5 mil a R$ 10 mil para a empresa se o destino
for nacional e de US$ 3,5 mil a US$ 5,5 mil, se internacional.
O investimento
vale a pena? Para responder, o consultor cita que o recall de uma
viagem - tempo de permanência na memória do gratificado
- varia de oito a 12 anos, enquanto a média para carros e
outros bem duráveis é de quatro anos. Prêmios
em dinheiro não duram mais de um ano, e ainda há um
sério risco: "As pessoas vêem a gratificação
como algo agregado ao salário e se desmotivam". Viagem
nelas.
(Valor -
29/07/02)
|
|