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Lazer
e trabalho podem andar juntos
Ter prazer no
que se faz, mesmo que ocupe muitas horas do dia, exige uma dedicação
intensa e uma atenção absoluta. Para alguns, o escritório,
o laboratório, a empresa, a rua, a escola, enfim, todos os
locais de trabalho e as atividades neles realizadas podem ser fonte
de satisfação e realização pessoal,
sem ter nada de errado nisso: são os worklovers, expressão
em inglês que quer dizer algo como “apaixonados pelo
trabalho”.
A denominação
saiu do Laboratório de Psicologia do Trabalho da Universidade
de Brasília (Unb), que reúne sociólogos, psicólogos
e médicos dedicados à pesquisa das relações
entre indivíduo e trabalho. “Todo mundo que trabalha
bastante é tido como workaholic, termo criado nos anos 90
para designar o viciado em trabalho, que usa a profissão
para fugir dos outros aspectos da vida. Os worklovers são
apaixonados pelo que fazem, trabalham muito, mas têm sua vida
pessoal e cumprem seus outros papéis na sociedade”,
explica o psicólogo Wanderley Codo, coordenador do laboratório.
Por trás
do conceito, segundo ele, está a experiência com profissionais
de várias áreas que se mostraram bastante felizes
com suas escolhas, e também capazes de manter a vida pessoal
em dia. Trabalham muito, mas conseguem tempo para os laços
afetivos, familiares e para o lazer. “O trabalho é
extremamente importante para a construção da identidade
da pessoa. É nele que o homem exerce sua capacidade de modificar
a realidade, de se ver e de se identificar com o que faz. E existem
muitos profissionais que conseguem manter essa capacidade no trabalho”,
diz.
Sem rotina predeterminada,
nem horários certos para cumprir, o publicitário Fábio
Gracciotti Deri, de 29 anos, é um exemplo da combinação
de realização pessoal e muitas horas de trabalho.
Sócio da agência de publicidade Expanding, ele define
sua semana como “uma loucura todos os dias”. Sem arrependimentos
por ter dado uma guinada na vida profissional, trocando um emprego
com maior remuneração pela agência, o publicitário
investe e acredita no que faz.
“Na véspera
de apresentarmos uma campanha, ficamos aqui até tarde, a
gente chama de o ‘dia da pizza’, porque é o que
dá para pedir. Mas, no dia seguinte, quando o cliente elogia
ou ganhamos uma nova conta, é uma festa. É sempre
gratificante. Por mais que em alguns dias eu fique cansado ou estressado,
eu adoro o que faço”, diz. Mesmo assim, há espaço
para a namorada, para o futebol, que joga às segundas-feiras,
e para os amigos, que o acompanham em festas e shows.
Nas palavras
dos psicólogos, o publicitário consegue enxergar no
seu trabalho a realização de suas capacidades e de
sua força de criação. “É possível,
sim, ter prazer e trabalhar bastante. Como disse Freud, o ser humano
se torna adulto por meio do amor e do trabalho”, diz o psicólogo
Sigmar Malvezzi, professor da Universidade de São Paulo (USP)
e da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Na
medida em que realiza e mostra para si e para o mundo sua criação,
o trabalho é uma fonte de realização.”
Marise Barroso,
de 41 anos, conta que é dessa maneira que sempre viu sua
profissão. Diretora comercial e de marketing da AOL, ela
trabalha de 10 a 12 horas por dia e diz que faz do trabalho um local
de prazer. “Como a minha casa.” E na sua rotina há
tempo para tomar café com a filha, levá-la na escola
e acompanhar as lições de casa. “É uma
questão de estar fazendo o que a gente gosta, no lugar correto,
com relações de amizade. Trabalho muito e gosto, mas
nunca levo trabalho para casa, por exemplo.”
Essas condições,
segundo a psicóloga Maria da Graça Jacques, da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), são extremamente importantes.
“Trabalho é prazer e sofrimento. Pode ser monótono,
desgastante, cansativo, mas também forma de construção
e reconhecimento. Depende da organização e do grau
de alienação da função. Quem passa o
dia apertando um botão dificilmente se enxerga naquilo, sofre,
se sente tolhido nas suas capacidades. É preciso um ambiente
propício também.” Assim, segundo ela, o prazer
depende, acima de tudo, das condições de cada um de
criar, mostrar e se encontrar em seu trabalho.
(O Estado
de S. Paulo – 29/10/04)
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