Os limites entre trabalho e lazer

Nos computadores das empresas, funcionários misturam trabalho com atividades de caráter pessoal. Isso atrapalha a produtividade? Um estudo norte-americano revelou que 50% dos funcionários que possuem acesso à internet no trabalho dão as suas “escapadinhas” em sites que não têm nada a ver com as suas funções profissionais.

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Os limites entre trabalho e lazer

Por acaso, você é daqueles que, durante o expediente, não resistem à tentação de verificar a sua conta pessoal de e-mail no computador da empresa? Se você respondeu que sim, saiba de uma coisa: você não está sozinho. Um estudo norte-americano revelou que 50% dos funcionários que possuem acesso à internet no trabalho dão as suas escapadinhas em sites que não têm nada a ver com as suas funções profissionais.

A sexta edição da pesquisa Web@Work, realizada pela Websense, entrevistou 500 funcionários nos EUA que possuem acesso à internet no trabalho. Entre as descobertas, um fato inusitado: a internet vicia mais que café. Pode parecer estranho, mas entre os empregados ouvidos 52% abririam mão do café da manhã para acessar a internet no trabalho, ao passo que apenas 44% deles trocaria a internet pelo café.

Os entrevistados admitiram que, em média, passam 3,4 horas por semana surfando em sites pessoais durante o expediente. Os campeões de popularidade são os sites de notícias, 81% dos funcionários que acessam a internet por motivos pessoais dão uma espiadinha neles. Depois, vêm o e-mail pessoal (61%), o Internet Banking (58%), as páginas sobre viagens (56%) e os endereços de comércio eletrônico (52%).

No Brasil, a coisa não é diferente. Pelo menos não para o eletrotécnico Tarcísio Pereira dos Santos, 21 anos. Ele usa e abusa do PC da empresa durante o expediente. Das dez horas diárias que fica no escritório, duas são gastas com conversas via MSN e consultas aos seus dois e-mails pessoais.

Se essas atividades extras atrapalham o rendimento de Santos no trabalho? “Nada disso. Meu tipo de serviço me permite isso. Trabalho com suporte técnico pelo telefone. Enquanto não recebo nenhuma ligação, vou navegando na web.”

Nas empresas, entretanto, não há unanimidade quanto a permitir o acesso à internet por parte de seus empregados. Existem algumas companhias que bloqueiam qualquer acesso que não seja pertinente ao serviço. Já outras acreditam que a liberdade pode ser um instrumento de incentivo aos funcionários.

É o caso da empresa Fulano.com.br, que reúne, além do site Fulano, a comunidade Beltrano e a agência digital de marketing F.biz. Lá, só não é permitido acessar conteúdo pornográfico e baixar músicas pelo computador. “Mas não barramos nada no servidor. Confiamos no bom senso dos nossos funcionários para que respeitem essas regras”, explica o diretor Paulo Loeb.

“Não acredito que repressão resolva. As pessoas poderiam ficar insatisfeitas com isso. Aliás, como o pessoal daqui é jovem, metade não trabalharia aqui se não pudesse acessar a internet. O nosso termômetro é a produtividade do funcionário. Se ele estiver produzindo, não tem nenhum problema em usar a web.”

Para incentivar os empregados, o Fulano também disponibilizou outra fonte de diversão: uma mesa de pebolim. “Mas eles só podem usá-la das 12h às 14h e depois do expediente”, diz Loeb, que, inclusive, já foi vice-campeão em um dos torneios disputados no local.

Mas não são todas as empresas que dão aos empregados a mesma liberdade que o Fulano. Na Telefutura, que presta serviços de telemarketing, dos 7.160 funcionários, apenas 360 têm acesso à internet. Mesmo assim, com restrições.

“Aqui, só quem é coordenador, gerente ou trabalha no departamento administrativo pode usar a internet. Ainda assim, não pode usar MSN, acessar o Orkut e sites pornográficos ou fazer download de fotos, músicas e programas”, diz João de Faria Daniel, diretor comercial da empresa.

Já os operadores de telemarketing, que são a maioria na empresa, não contam com acesso algum à web. “Barramos o uso no servidor. Os funcionários trabalham diretamente com o cliente e não têm tempo para navegar na internet. A web poderia diminuir a produtividade deles. Além disso, o trabalho não é um local de lazer”, completa Daniel.

Entretanto, proibir um funcionário de usar o computador para fins pessoais nem sempre é eficaz. A ex-operadora de telemarketing, Larissa Dias Andrade, 19 anos, mesmo com o acesso à web proibido, sempre arrumava um jeitinho para checar seu e-mail pessoal.

“No local em que o meu supervisor ficava, não dava para enxergar a tela do meu micro. Então, eu ficava de olho para ver se ele não estava vindo”, diz ela, que afirma não ser a única que fazia isso. “Todo mundo usava a mesma tática.”

E os especialistas, o que eles acham do uso do PC no ambiente de trabalho? Será que acessar um e-mail pessoal influencia na produtividade do funcionário?

Para o psicólogo Erick Itakura, do Núcleo de Pesquisa de Psicologia em Informática (NPPI) da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica), os funcionários precisam saber diferenciar o micro do trabalho do PC de casa.

Ele não acha necessariamente errado que o funcionário navegue em sites de seu interesse ou verifique seu webmail de vez em quando. “Mas a pessoa deve analisar se está abusando ou não. E isso, muitas vezes, não é notado pelo empregado, que acaba misturando o trabalho com assuntos pessoais, o que gera perda na produtividade.”

Para quem está em dúvida se anda se excedendo no uso do micro da empresa, o psicólogo dá uma dica: “Avalie se você está conseguindo alcançar as suas metas. Se estiver, isso significa que pode continuar usando o computador para finalidades alheias ao trabalho. Agora, se você estiver atolado de serviço, significa que é hora de dar um tempo na internet e passar a se concentrar mais nos seus afazeres profissionais.”

Já Goiamy Povoa Filho, gerente de produtos da consultoria CTT Telecom, diz que é melhor que o funcionário use o Orkut e o MSN somente fora do horário de trabalho. “Já o e-mail pode ser usado, contanto que não atrapalhe o serviço, é claro.”

(O Estado de S. Paulo – 30/05/05)

   
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