Desempregados criam redes de ajuda mútua

A dificuldade em arrumar uma vaga - reflexo do índice recorde de 13% de desemprego apurado pelo IBGE nas maiores regiões do país - começa a criar um fenômeno entre profissionais sem ocupação: cansados de brigar sozinhos, eles se unem em redes de solidariedade que têm por fim facilitar o retorno ao mercado de trabalho.

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Desempregados criam redes de ajuda mútua

A dificuldade crescente em arrumar uma vaga -reflexo do índice recorde de 13% de desemprego apurado pelo IBGE nas maiores regiões do país em agosto- começa a criar um novo fenômeno entre profissionais sem ocupação: cansados de brigar sozinhos, eles se unem em redes de solidariedade que têm por fim facilitar o retorno ao mercado de trabalho.

Esse "auxílio mútuo" entre desempregados geralmente funciona de maneira rudimentar, mas efetiva. Um exemplo: quem busca uma vaga para gerente comercial, mas encontra uma oportunidade para garçom, pode, em vez de simplesmente descartar a proposta, indicar um conhecido, também desempregado, para a oportunidade. Em contrapartida, o indicado pode vir a premiá-lo no futuro. Assim nasce a rede solidária.

"Essas iniciativas têm aumentado, e esse é o caminho. Quando a sociedade forma essas redes de cooperação, sai fortalecida", diz Míriam Duailibi, coordenadora do Instituto Ecoar para a Cidadania, ONG (Organização Não-Governamentais) ambiental que oferece capacitação profissional.

Lanna Maria Silva de Oliveira, 30, ex-gerente de marketing, está desempregada há quatro meses. Desde então , especializou-se em passar adiante vagas de trabalho.

"Como procuro de várias formas e participo de grupos de discussão sobre emprego, recebo e-mails de sites com oportunidades. Se souber de uma vaga que sirva para mim e para um amigo, passo para ele também. Se um dos dois conseguir, ótimo", conta.

Ela ainda não teve notícias de que algum conhecido tenha sido contratado assim, mas a corrente cresceu. A publicitária Ivete Pereira da Silva, 28, conheceu Oliveira numa dinâmica de grupo e se juntou ao time. "Trocamos vagas e conversamos. Sempre ajuda."

Compartilha dessa visão Humberto Nery, 48, desempregado há três meses. Para se ocupar, passou a separar as vagas que usaria e encaminhá-las por e-mail para conhecidos e amigos de conhecidos.

O estudante Rogério Silva Souza, 19, foi um dos destinatários. "Não o conheço pessoalmente, então fiquei desconfiado. Quando as empresas começaram a me procurar, vi que as vagas existiam e até passei para meus amigos." Enquanto o emprego não vem, Nery decidiu cobrar pelo serviço. "Cerca de R$ 9, mas, se alguém me pedir a lista, eu mando."

Thiago Rodrigues da Silva tem 17 anos, cursa o ensino médio e conseguiu estágio na Fundação para o Desenvolvimento da Educação com uma indicação. O "empurrãozinho" veio do tio Arcênio Rodrigues da Silva, 39, advogado que orienta grupos sobre o funcionamento de ONGs.

"Todos os dias recebo currículos e sempre tento passar para as empresas que conheço. Isso dá resultados concretos", afirma. A questão, para Oliveira, não é parecer "bonzinho". "Assim me sinto útil e ainda ajudo alguém."

(Folha de S. Paulo – 28/09/03)

   

Site de agrônomo oferece vagas e vira referência

"Consigo emprego para várias pessoas, até desconhecidas, mas ainda não consegui para mim." Esse é o dilema vivido pelo engenheiro agrônomo Eduardo Gonçalves Pires, 36, desempregado há seis meses.

Sua atividade começou como um passatempo. Há dois anos, quando também estava procurando trabalho, ele começou a separar as vagas que encontrava e não tinham seu perfil profissional.

Resolveu, então, fazer um site publicando essas oportunidades gratuitamente. Hoje a página Agronomianet tem conteúdo sobre a área, cursos e vagas.

Ele ainda caça oportunidades de trabalho para incluir no site, mas empresas do setor -como a Monsanto- e consultorias de RH (recursos humanos) passaram a colaborar. O banco de currículos do site tem 2.000 profissionais cadastrados.

"Atuei muito tempo fora da área e hoje meu sonho é voltar para a agronomia, porém não é fácil", diz. "Tenho orgulho do que faço. Meu nome virou referência para profissionais da área. Em uma dinâmica de grupo da qual participei, quase todos os concorrentes eram usuários do meu site."

Algumas de suas indicações renderam trabalho concreto. "Já recebi cerca de 30 e-mails de pessoas que foram contratadas. É como se eles fossem meus filhos: sinto-me na obrigação de garimpar emprego e enviar para quem precisa. Ao menos faço alguma coisa."

(Folha de S. Paulo – 28/09/03)

   

Empresa dá curso de recolocação

Quando ainda estava sem trabalho, a hoje funcionária dos laboratórios Fleury Marli Bahia, 32, usou o que pode ser chamado de "rede de Marlis". Isso porque seguiu o conselho da colega Marly Lima, 40, e fez um curso de recolocação e posicionamento de carreira no ano passado. Após três meses, estava empregada.

Lima trabalha na área de importação do hospital Samaritano, que oferece esses cursos, e indicou a amiga. "Sempre dou essa sugestão para quem está sem emprego. Cursos como esses renovam a esperança, você se sente capaz de conseguir trabalhar de novo."

No Samaritano, a idéia de promover esse tipo de treinamento veio em 2001, depois de um processo de reestruturação. Em princípio, o público-alvo eram os demitidos, mas o projeto se expandiu e passou a atender também parentes e amigos de funcionários do hospital.

"Alguns colaboradores pediram para inscrever pessoas que conheciam e que estavam sem emprego. Hoje recebemos até profissionais que não têm relação nenhuma com o hospital", afirma Patrícia Lopes Rodrigues, coordenadora de desenvolvimento organizacional do Samaritano.

Quem faz as aulas (700 pessoas já foram atendidas, segundo o hospital) recebe um manual com dicas de como fazer um currículo e de como se comportar em entrevistas, além de listas de sites gratuitos de emprego e de locais que oferecem acesso grátis à internet.

"Estar desempregada era uma experiência pela qual não passava havia muitos anos, já não sabia mais como agir", lembra Bahia

(Folha de S. Paulo – 28/09/03)

   

Voluntária cria capacitação em telemarketing

O projeto ainda é informal, mas os primeiros passos já foram dados. Giselli Gouveia da Silva, 21, trabalha com comércio exterior. Foi na experiência que teve com telemarketing, porém, que enxergou uma trilha para ajudar seus amigos e conhecidos que estavam procurando uma oportunidade.

"Decidi fazer isso depois de uma conversa que tivemos sobre desemprego", conta. "Percebi que eu teria de ajudar de alguma forma, e a opção pelo curso de telemarketing foi natural, por ser a área em que tenho experiência e também por contratar bastante", afirma.

Ela desenvolveu, então, o projeto com o amigo Eliel Souza, que também tem experiência em telemarketing. O curso, aberto ao público, é básico e dura 16 horas. Para participar, os primeiros alunos (que começaram as aulas na última terça-feira) colaboraram com 2 kg de alimento não-perecível e pagaram R$ 5 pelo material didático. O espaço foi cedido pela igreja Assembléia de Deus, e os alimentos serão doados.

"Eles querem trabalhar, precisam de capacitação, mas não têm dinheiro para se profissionalizar", explica Silva. "Montamos as aulas, o material didático e, depois do curso, os alunos vão ser encaminhados para cooperativas que conheço e que viraram nossas parceiras."

(Folha de S. Paulo – 28/09/03)

   
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