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Renda
do trabalho caiu em 2003 e foi a pior em 10 anos
Pnad mostra que 2003 foi marcado pelo aumento do
desemprego e pelo menor rendimento médio do trabalhador em
dez anos.
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mais:
Projeto
prevê flexibilizar direito trabalhista
Pacote enviado
ao Congresso visa estimular contratações e regularização
de trabalhadores informais. Uma das medidas é a redução
de FGTS em microempresa.
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Renda cai 7,4% no primeiro ano de Lula
No primeiro
ano do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, marcado
pelo arrocho da política econômica que culminou em
queda de 0,2% do PIB (Produto Interno Bruto), a renda do trabalhador
caiu 7,4% em relação a 2002. O rendimento médio
real do trabalho em 2003 foi de R$ 692, o menor em dez anos.
Os dados são
da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de
2003, feita pelo IBGE, a primeira pesquisa de âmbito nacional
que analisa a situação do país no governo Lula.
O levantamento
mostra que o aumento de 1,4% do número de pessoas empregadas
ficou abaixo do crescimento da população de dez anos
ou mais de idade, a chamada população ativa, que foi
de 1,9% -uma prova de que o país não conseguiu gerar
o mínimo aceitável de empregos no ano passado. Por
outro lado, houve incremento no número de trabalhadores com
carteira assinada.
Já a
taxa de desemprego passou de 9,2% em 2002, último ano do
governo de Fernando Henrique Cardoso, para 9,7% em 2003, primeiro
ano de Lula. Em números absolutos, havia 7,876 milhões
de pessoas desempregadas em 2002 e 8,537 milhões em 2003.
"Foi o preço pago para equilibrar as finanças
públicas, reduzir o perigo inflacionário e equacionar
o problema da dívida externa", disse o presidente do
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), Eduardo
Nunes.
"O dados
comprovam mais uma vez que 2003 foi muito, muito ruim", afirmou
o diretor do Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal
do Rio de Janeiro), João Sabóia. "Lula assumiu
a Presidência com inflação crescendo, taxa de
juros elevada, câmbio explodindo e com o mercado apostando
contra. Com isso, passou a aplicar uma política mais conservadora
do que a do próprio Fernando Henrique, jogando a economia
para baixo."
Para Lauro Ramos,
coordenador de Estudos de Mercado de Trabalho do Ipea (Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada), não houve surpresa.
"Pelo desempenho do PIB, temiam-se resultados piores. Tentando
extrair pérola de rochedo, a boa notícia é
que isso já ficou para trás. A Pnad de 2004, que já
está em campo, vai trazer aumento da renda média."
Os dados econômicos da Pnad são recolhidos em setembro.
De 2002 para
2003, o rendimento médio real de trabalho no Brasil passou
de R$ 747 para R$ 692, descontada a inflação. Vale
ressaltar que os rendimentos apresentam queda desde 1997. Mas a
variação de um ano para outro não havia alcançado
o patamar de 7,4%. A perda acumulada de 1996 a 2003 já bate
em 18,8%.
Com relação
à taxa de desemprego, que ficou em 9,7% pela Pnad, ela foi
menor do que a apurada pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do
IBGE, cujo índice médio de 2003 ficou em 12,3%. "A
PME mede o emprego das seis principais regiões metropolitanas,
e a Pnad mede o emprego em todas as unidades da federação,
com uma amostra muito mais extensa", explicou Eduardo Nunes.
Feita a ressalva,
Lauro Ramos, do Ipea, destaca que os analistas estavam esperando
que a taxa nacional de desemprego subisse um ponto percentual de
2002 para 2003. "Só cresceu meio ponto percentual, o
que mostra que o desemprego fora das seis principais regiões
metropolitanas cresceu menos do que as previsões."
Apesar da deterioração
da renda e do mercado de trabalho, o percentual de empregados com
carteira assinada no ano passado -32%- foi o maior da série
da pesquisa, iniciada em 1992. Em 2002, 31,3% tinham carteira assinada.
Houve crescimento de 4% no número de empregados em atividades
agrícolas com carteira assinada de 2002 para 2003, alta maior
do que a dos sem-carteira assinada (1,7%). Entre os empregados em
atividades não-agrícolas com carteira assinada, o
aumento foi de 3,3%.
"No interior,
houve uma tendência maior da formalização, porque
lá estão concentradas as atividades cuja exportação
cresceu", disse Lauro Ramos. "Para exportar, você
precisa legalizar."
O resultado,
no entanto, não animou muito Sabóia, da UFRJ. "Se
você pensar que, de que cada três pessoas que trabalham
no Brasil, apenas uma tem carteira assinada, é um horror."
(Folha
de S. Paulo – 30/09/04)
Projeto prevê flexibilizar direito trabalhista
O governo Luiz
Inácio Lula da Silva lançou ontem (29/09), por meio
de um projeto de lei complementar, um embrião da reforma
trabalhista de orientação liberal ensaiada desde o
início do mandato.
Pelo
texto a ser enviado ao Congresso, funcionários de pequenas
empresas com faturamento até R$ 3.000 mensais poderão
abrir mão do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço)
de 8% do salário válido para os demais trabalhadores
do setor formal -em vez disso, terão um FGTS de apenas 0,5%
do salário.
O projeto precisa
de maioria absoluta na Câmara e no Senado para ser aprovado.
Com a medida, acompanhada de simplificação tributária
para as pessoas jurídicas de pequeno porte, pretende-se estimular
a regularização dos, segundo estimativas, 11 milhões
de empresários e 43 milhões de trabalhadores que hoje
estão na informalidade.
Trata-se exatamente
do que pregam os liberais para a reforma trabalhista: reduzir -ou,
eufemisticamente, flexibilizar- os direitos trabalhistas hoje existentes
para estimular a geração de empregos com carteira
assinada, partindo do diagnóstico de que a legislação
atual, na tentativa de proteger os trabalhadores, acabou por levar
à informalidade mais da metade da população
ocupada no país, estimada em 80 milhões de pessoas.
Embora o PT
tenha se batido contra esse pensamento nos tempos de oposição,
o governo Lula fala, desde a posse, em propor uma reforma trabalhista.
O constrangimento político tem levado o governo a adiar sucessivamente
a definição da proposta.
No anúncio
de ontem, no Palácio do Planalto, a mudança no FGTS
foi pouco mencionada. Preferiu-se destacar a redução
de impostos para as empresas com faturamento anual até R$
36 mil -elas pagarão, pelo texto, um único tributo
federal, uma contribuição previdenciária equivalente
a 1,5% do seu faturamento.
Ao discursar,
o ministro Antonio Palocci Filho (Fazenda) ofereceu uma breve explicação
para o FGTS menor: em empresas tão pequenas, seria tênue
a diferença entre empregado e empregador. "A relação
de trabalho justifica a redução do Fundo de Garantia."
Segundo o governo, a redução do FGTS depende de "concordância
expressa do empregado". O texto do projeto não foi divulgado.
Em versão obtida pela Folha, a regra não está
explicitada.
As empresas
beneficiadas, de acordo com o projeto, pagarão no máximo
1,5% do faturamento em ICMS (Imposto sobre Circulação
de Mercadorias e Serviços, estadual) e 2% em ISS (Imposto
sobre Serviços, municipal). O texto prevê ainda medidas
para reduzir a burocracia hoje enfrentada pelas empresas de pequeno
porte.
Ao discursar,
Lula disse que a busca pela legalidade trabalhista muitas vezes
é mais difícil do que o trabalhador "correr da
polícia".
"Estamos
procurando dar cidadania a um conjunto de seres humanos que, por
tentarem sobreviver, já que não tem tantos empregos
oferecidos no mercado de trabalho, muitas vezes são tratados
como se fossem marginais."
Em seguida,
ele completou: "E, muitas vezes, quando tentam se legalizar
para trabalhar, as exigências para que eles possam exercer
uma profissão formal são tão difíceis
que fica mais barato de vez em quando ele até correr da polícia
do que cumprir todas as exigências que muitas vezes se faz
com essa gente."
(Folha
de S. Paulo – 30/09/04)
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