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Aumentam
denúncias de preconceito contra soropositivos no trabalho
Denúncias
de discriminação aos portadores do vírus HIV
nas empresas cresceu 45% entre 2003 e 2004. Há dois anos,
foram feitas 35 denúncias, contra 51 em 2004.
Leia
mais:
- No trabalho, luta contra
a Aids avança pouco
- ONGs rejeitam a atuação
de conselho de prevenção à doença
- Ação
exige prova material ou testemunha
No trabalho, luta contra a Aids avança pouco
O Brasil é
um país de contrastes: referência internacional no
tratamento da Aids, tem ainda arraigados preconceitos, especialmente
no ambiente de trabalho. É o que atestam especialistas ouvidos
pela Folha e o que demonstra um relatório do Ministério
do Trabalho, elaborado com base nos registros dos núcleos
de promoção da igualdade de oportunidades e combate
à discriminação no emprego e na ocupação,
das DRTs (Delegacias Regionais do Trabalho). Segundo o levantamento,
o número de denúncias de discriminação
nas empresas cresceu 45% entre 2003 e 2004. Há dois anos,
foram feitas 35 denúncias, contra 51 em 2004.
No ano passado,
o total de notificações de discriminação
às DRTs foi de 15.364 e incluiu, além dos casos de
portadores de HIV (0,3%), preconceito com relação
a portadores de necessidades especiais (89,9%), assédio moral
(3%) e estado de saúde (1,6%).Para a pesquisadora do Ministério
do Trabalho Liza Uema, os números absolutos ainda são
inexpressivos e expõem a falta de informação
dos brasileiros.
"A sociedade,
em geral, desconhece a existência de meios para denunciar
casos de discriminação e preconceito", informa
Uema.
A estimativa
do Ministério da Saúde é que haja 600 mil pessoas
infectadas pela doença. Cerca de 550 mil, segundo a OIT (Organização
Internacional do Trabalho), estão empregadas. Muitas desconhecem
ter a doença e poucas contam ao empregador que são
portadoras do vírus da Aids.
Para o presidente
do Gapa-SP (Grupo de Apoio e Prevenção à Aids),
José Carlos Veloso, o país pode ter evoluído
no combate à Aids, mas ainda não avançou na
luta contra a discriminação.
A entidade mantém
uma assessoria jurídica gratuita para portadores de HIV.
Segundo Veloso, o Gapa-SP "recebe de cinco a oito denúncias
por dia. Dessas, 50% estão relacionadas a discriminação
no local de trabalho".
"O índice
de reclamações é o mesmo há anos",
esclarece. Entre os casos atendidos pelo departamento jurídico
da ONG está o de Rivelino do Carmo, 35. Em 2003, aconselhado
por médicos a fazer o teste anti-HIV, foi estimulado pelo
zelador do prédio onde trabalhava como faxineiro a levar
uma fotocópia do resultado. "Ele me disse que o condomínio
ofereceria auxílio caso estivesse com Aids e precisasse ausentar-me
para fazer tratamento médico", lembra Carmo.
"Como não
sabia que não era obrigado a revelar o diagnóstico
ao empregador e por ter acreditado nas promessas que fizeram, contei
que estava com o HIV." Dois meses depois, foi demitido. Carmo
diz ter chegado ao condomínio para trabalhar e não
ter encontrado o cartão de ponto. "Pediram que eu fosse
até a gerência. Lá, fui informado de que havia
sido afastado", recorda.
Segundo o profissional,
não houve justificativa para a dispensa. "Só
disseram que o síndico não me queria mais lá",
conta. "Não fiquei triste nem abalado por causa da demissão.
Depois que contei ser soropositivo, começaram a impedir-me
de ficar na entrada. Tinha de me afastar dos locais de mais movimento."
Carmo entrou
com ação de danos morais na Justiça do Trabalho.
"O síndico ofereceu o emprego de volta. Mas agora sou
eu que não quero mais trabalhar lá."
(Folha de
S.Paulo- 28/11/05)
ONGs rejeitam a atuação de conselho de prevenção
à doença
No próximo
dia 29, São Paulo ganhará um núcleo estadual
do CEN Aids (Conselho Empresarial Nacional de Prevenção
ao HIV/ Aids). Outros Estados, como Amazonas, Bahia, Mato Grosso
e Pernambuco, também estão se mobilizando para criar
entidades regionais de prevenção à doença.
O objetivo do
conselho nacional, criado no ano de 1998 pelo Ministério
da Saúde, é estimular as companhias do setor privado
a realizar medidas de prevenção entre seus funcionários.
"Congregamos
22 grandes empresas e confederações patronais",
informa o presidente do CEN Aids, Murilo Alves Moreira. Fazem parte
do conselho companhias como Avon, Nestlé, Unibanco, Unilever
e Volkswagen.
Além
de elaborar material para a realização de programas
preventivos, o conselho disponibiliza cartilhas e manual de implantação
dessas iniciativas em empresas no site www.aids.gov.br/cen.
"Todas
as firmas têm como participar. Há um pequeno hotel
de Alagoas, em que o recepcionista e o porteiro adaptaram as iniciativas
à realidade local", exemplifica.
Mas destaca:
"Nossa atuação é muito mais reconhecida
no exterior do que no Brasil porque o país é um dos
pioneiros na criação de um conselho empresarial".
No entanto, a atuação do CEN Aids é duramente
criticada por ONGs e por entidades ligadas aos direitos dos portadores
do HIV.
"Não
adianta fazer programa de prevenção com as grandes
corporações. A maioria dos trabalhadores está
empregada em micro, pequenas e médias empresas", analisa
a presidente da Apta (Associação para Prevenção
e Tratamento da Aids), Terezinha Pinto. Para ela, faltam ao CEN
Aids visibilidade, ampliação da atuação
e formação de parcerias com ONGs para elaborar programas
em conjunto com essas empresas.
Autor do livro
"Aids e Relações de Trabalho", o procurador
regional do Trabalho João Hilário Valentim diz que
mesmo com iniciativas governamentais e com a atuação
do conselho empresarial, "quase nada mudou na política
para as relações de trabalho".
Segundo Valentim, ainda há empresas que pedem testes sangüíneos
e que fazem perguntas para saber se o candidato é soropositivo.
"É preciso mais que um programa preventivo.
Falta, sim,
uma iniciativa que dê conhecimento aos funcionários
que trabalham com portadores do HIV."
E finaliza:
"Só uma ação conjunta entre empresas,
ONGs, governo e população pode mudar esse panorama
de discriminação".
(Folha de
S.Paulo- 28/11/05)
Ação exige prova material ou testemunha
"Por que
você me demitiu?" A resposta ao questionamento veio em
forma de outra pergunta: "Por que você escondeu esse
"troço" durante tanto tempo?" Foi dessa maneira
que a gerente da área de teleatendimento referiu-se à
descoberta de que o supervisor Domingos Ferreira de Almeida, 41,
um dos funcionários da empresa, era soropositivo.
Reconhecido
como profissional exemplar, com prêmios e homenagens no currículo,
foi dispensado após solicitar antecipação de
férias para tratamento de saúde. "Precisava tratar-me
contra a lipodistrofia [perda de gordura causada por medicamentos
anti-retrovirais] e disse isso ao departamento de recursos humanos.
Em quatro anos na empresa, foi a primeira vez em que pedi algo."
Portador do vírus da Aids há 20 anos, Almeida desabafa:
"Vi muita gente ser discriminada por ser soropositiva. Tinha
muito medo que isso acontecesse comigo".
A dispensa sem
motivo não teve apenas conseqüência financeira.
Com o episódio, Almeida afirma que teve, além de depressão,
um aumento da carga viral do HIV que prejudicou sua saúde.
Mas ficou apenas
21 dias sem trabalho. Há um ano, atua em outra empresa de
teleatendimento.
Hoje, move uma
ação na Justiça do Trabalho contra o ex-empregador.
"Mas não desejo indenização. Quero apenas
ser reintegrado ao quadro funcional", conta. Segundo o professor
de direito do trabalho da Faculdade de Direito da USP (Universidade
de São Paulo) Estêvão Mallet, o profissional
que se sentir discriminado por ser portador do HIV pode entrar com
ação contra o ex-empregador, como fez Almeida, ou
fazer uma queixa na Delegacia Regional do Trabalho. Mas ressalta
que o processo é difícil. "Deve-se provar -por
meio de testemunhas ou de provas materiais, como e-mail- que foi
dispensado por ser portador do HIV."
A advogada trabalhista
Elídia Tridapalli, autora do livro "Aids e seus Impactos
nas Relações de Trabalho", no entanto, afirma
que os pareceres dos juízes, em geral, têm sido favoráveis
ao empregado. "Se for comprovado o ato discriminatório,
a decisão é pela reintegração do funcionário,
com um ano de estabilidade, e pagamento em dobro do salário
durante o período em que esteve afastado da empresa",
afirma.
Apesar do crescente
número de denúncias de discriminação,
o panorama do mercado de trabalho não é sempre tão
sombrio. É o que atesta o estudante M.D., 25. Há um
ano, quando descobriu ser portador do vírus da Aids, decidiu
pedir demissão do restaurante em que estava trabalhando.
Durante uma
reunião com o dono e a gerente do estabelecimento, o estudante
revelou aos chefes o diagnóstico do exame. "Disse que
me afastaria por estar triste e para cuidar da saúde."
Segundo ele,
sua justificativa gerou o resultado oposto ao esperado. "Eles
foram extremamente solidários. Pediram que eu ficasse até
me restabelecer", conta. Mesmo assim, saiu dois meses depois.
"Estava abalado e recorri a meus pais para me sustentar."
O estudante
pensa em começar a procurar um novo trabalho no começo
do ano que vem. "Mas não pretendo contar a meus futuros
empregadores que tenho HIV. Sei que o que me aconteceu foi um golpe
de sorte", diz.
(Folha de
S.Paulo- 28/11/05)
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