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De olho nos velhos classificados
Quem é
que resiste a dar uma olhadinha nos classificados de jornal quando
encontra um anúncio que descreve o cargo de seus sonhos,
naquela empresa que sempre cobiçou? Mesmo estando empregado,
a tentação é enorme. Imagine se, ao ler aquele
"tijolão", você percebesse que as semelhanças
da descrição do cargo almejado com o seu trabalho
atual fossem tantas, bem acima do normal. Pior, que isso o levasse
a pensar que o "seu" patrão estava buscando alguém
para o "seu" lugar.
Num primeiro
momento, essa situação pode parecer um tanto inverossímil,
mas acontece. O fato é verídico e ocorreu com o diretor
de uma empresa no interior de São Paulo. A companhia anunciou
uma vaga no jornal, sem se identificar, mas o executivo ao ler o
anúncio por pura curiosidade chegou à conclusão
que se tratava de uma seleção para o seu próprio
emprego. "Ele foi cobrar isso do presidente da empresa e acabou
sendo demitido antes do tempo", conta Ricardo de Almeida Prado
Xavier, presidente da consultoria Manager, que publica pelo menos
26 anúncios por semana em jornais para selecionar analistas,
gerentes e diretores.
Mas, nem todas
as histórias de classificados têm um final tão
frustrante. Existem profissionais que conseguem galgar postos e
fazer carreira simplesmente respondendo aos classificados. Destes,
60% estão empregados. No geral, escolhem os anúncios
fechados, onde a empresa não se identifica, com medo que
a companhia em que trabalham descubra. Em alguns casos, o candidato
pode ter o azar de dar de cara com um concorrente da sua empresa,
então o mercado todo ficará sabendo da sua insatisfação
com o trabalho. Isso é raro, dizem os especialistas, mas
não impossível.
Por se tratar
de um anúncio de retorno rápido, os classificados
de jornais e revistas ainda não caíram em desuso,
mesmo depois da proliferação dos sites de emprego
pela internet. "Em 99% dos casos, a internet é usada
como ferramenta para responder ao anúncio publicado em jornal",
diz Ricardo Bevilacqua, da Michael Page, que também recruta
analistas, técnicos, gerentes e diretores para empresas.
"No nosso caso, os anúncios este ano nos ajudaram a
preencher 92% das vagas disponíveis", diz. De 200 posições,
pelo menos 110 foram fechadas com candidatos que apareceram via
classificados .
Ania Hilouey,
atual diretora de recursos humanos da Getronics, multinacional holandesa
de tecnologia de comunicação, sempre apostou na eficiência
dos classificados. Foi recortando anúncios e enviando currículos
pelo correio que ela conseguiu mudar várias vezes de emprego.
"Sempre para melhor", ressalta. Começou como analista
de avaliação de desempenho no departamento de RH do
Banco Auxiliar, depois foi para a Itaú Seguradora, BCN e
Ticket, sempre através de anúncios de jornal.
Hoje, é
ela quem usa essa ferramenta para acompanhar o que o mercado anda
buscando e também para recrutar alguém com habilidades
específicas. "É certo que 70% das pessoas que
respondem são pára-quedistas", diz. "Mesmo
assim funciona".
(Valor -
31/07/02)
Quem não arrisca, não sabe o que pode estar perdendo
nos classificados
Ania Helouey,
diretora de recursos humanos da Getronics, desde o seu primeiro
emprego, sempre apostou na eficácia dos classificados
Quando se formou
em psicologia organizacional há 25 anos, Ania Helouey, não
sabia ao certo que rumo daria à sua carreira dali para a
frente. Resolveu começar respondendo vários anúncios
de emprego no jornal. Enviou mais de trinta currículos pelo
correio até que encontrou seu primeiro trabalho como analista
de avaliação de desempenho no Banco Auxiliar.
Depois de um
ano, inquieta e a fim de dar uma chacoalhada na vida profissional,
mesmo empregada, respondeu a outros anúncios de classificados.
Como tinha mais experiência, desta vez foi um pouco mais seletiva
na escolha do cargo. Recebeu um chamado da Itaú Seguradora.
Pediu demissão, mas esta não foi aceita. Desistiu
então de trocar de emprego. Uma semana depois se arrependeu
e voltou a procurar trabalho no jornal. Sem saber, pois se tratava
de um anúncio fechado onde a empresa não revela seu
nome, respondeu ao mesmo anúncio da Itaú Seguradora.
Na época, ouviu a resposta: "O emprego é seu,
mas você me deve um anúncio no jornal".
Depois de três
anos e meio na seguradora, acabou sendo demitida por conta de um
enxugamento nos quadros da empresa. Não se abateu, comprou
o jornal e enviou o currículo, como havia feito quando procurou
seu primeiro trabalho. "Deu certo de novo", lembra. Foi
para o BCN, como gerente. E, em 89, já uma "veterana
dos classificados", insatisfeita com a sua função
no momento, respondeu a um novo anúncio de vaga em uma multinacional
francesa. A companhia era a Ticket, onde acabou ficando por nove
anos. Depois disso, migrou para outras empresas por indicação
ou foi "caçada" por headhunters, até chegar
ao cargo atual de diretora de recursos humanos da Getronics, multinacional
da área de tecnologia.
O método
usado por Ania em quase toda a sua carreira é seguido por
milhares de pessoas todos os dias, sejam elas desempregadas ou insatisfeitas
com seus trabalhos. Apesar do número de anúncios em
jornal ter encolhido 40% em relação há doze
anos, os classificados ainda são uma ferramenta útil
para profissionais e empresas. Esta estimativa é do consultor
Laerte Cordeiro, que acompanha esse mercado há 19 anos. "Essa
queda aconteceu muito mais porque as organizações
hoje também estão mais enxutas".
Um dos segredos
para que o recrutamento pelo jornal funcione de fato é a
clareza e a descrição precisa de quem está
se buscando. Um anúncio mal feito pode ter um efeito devastador.
"Podem chover currículos que não vão servir
para absolutamente nada", diz Ricardo de Almeida Prado Xavier,
da Manager, consultoria de recursos humanos.
Regiane Maia,
coordenadora de RH da Cetelem, financeira francesa que trabalha
com crédito pessoal, diz que começou a anunciar em
jornais e revistas porque tinha dificuldade em encontrar profissionais
com um perfil mais técnico. Ela conta que demorou um pouco
para aprender a formular um anúncio realmente eficiente.
"Recebíamos muitos currículos de pessoas com
um perfil muito mais voltado para o mundo acadêmico do que
para o mercado financeiro", lembra.
Por estar na
época há apenas dois anos no país, outro problema
encontrado pela Cetelem foi fazer com que as pessoas respondessem
a seus anúncios abertos. "Ninguém conhecia a
empresa". A companhia acabou pedindo a ajuda de empresas especializadas
em recrutar através de classificados, para preencher algumas
posições. O lado positivo da experiência nos
jornais, segundo Regiane, foi que em pouco tempo a empresa havia
conseguido montar um banco de dados com 2 mil currículos
já pré-selecionados.
Em alguns casos,
as companhias preferem não se identificar em anúncios
fechados por terem medo de mostrar para o mercado sua fragilidade
em determinada área. "Principalmente quando estão
a procura de um gerente ou diretor de uma área estratégica",
diz o consultor Laerte Cordeiro.
Segundo ele,
não existe um setor que anuncie mais que outro ou um tipo
de profissional que seja mais procurado. "Isto é cíclico,
varia muito". O que se observa é que no caso dos executivos,
quem costuma usar com mais freqüência os classificados
são as próprias empresas, responsáveis no último
semestre por 56% dos anúncios publicados nos principais jornais
do Estado de São Paulo. Já as companhias de recrutamento
respondem pelo restante.
A resposta aos
anúncios, no geral, vem a jato. Uma publicação
ou no máximo duas, já são suficientes para
se obter um bom resultado. Edson Monteiro, consultor de RH para
a América do Sul da Du Pont, conta que para cada vaga anunciada
recebe em média 200 currículos no mesmo dia da publicação.
Na sua área, a maior do grupo em solo sul americano, que
engloba finanças, engenharia, serviços, logística
e sistemas, 60% das vagas são preenchidas por indicação
interna ou anúncios. Este ano, ele publicou 5.
No caso da Du
Pont, o anúncio aberto, com o logotipo da companhia, vale
a pena. "As pessoas apostam na marca sem medo", diz. Lá
os currículos aparecem constantemente via internet, nem é
preciso anunciar. E, no caso de executivos, a empresa prefere recorrer
aos headhunters ou a indicações. Raramente essas vagas
vão para os jornais.
A consultoria
e empresa de recrutamento e seleção, Michael Page,
por exemplo, só aciona os classificados para preencher posições
com salários até R$ 6 mil. "Isso não significa
que não existam vagas cujo pacote some até meio milhão",
explica o gerente Ricardo Bevilacqua.
O presidente
do grupo Catho, Thomas Case, um dos primeiros a investir no recrutamento
via internet, publica semanalmente 8 anúncios em jornais.
Na internet, ele anuncia 50 vagas ao mês. Case acredita na
eficiência dos classificados em jornais e revistas e diz que,
no geral, uma única publicação basta para se
obter respostas. Mas hoje ele prefere a agilidade da internet. "Acho
mais fácil", diz. Ele conta que via web já cadastrou
600 mil currículos. A tecnologia, para ele, também
ajuda a filtrar mais rápido os melhores candidatos.
(Valor -
31/07/02)
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