Empresas de recrutamento continuam anunciando em classificados de jornais

Mesmo com a expansão da Internet e dos sites especializados em recrutamento, os classificados de jornais continuam sendo uma alternativa bastante utilizada pelas empresas para buscar profissionais.

Leia mais:
- De olho nos velhos classificados
- Quem não arrisca, não sabe o que pode estar perdendo nos classificados

Empresas investem em viagens de incentivo
Ambev abre inscrições para o seu programa de trainee 2003
Feira de eventos contrata o ano todo
Headhunters dão dicas a alunos sobre entrevistas de emprego
Ministério do Trabalho e Emprego usa tecnologia para auxiliar desempregados
Julho aquece a contratação de temporários
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


De olho nos velhos classificados

Quem é que resiste a dar uma olhadinha nos classificados de jornal quando encontra um anúncio que descreve o cargo de seus sonhos, naquela empresa que sempre cobiçou? Mesmo estando empregado, a tentação é enorme. Imagine se, ao ler aquele "tijolão", você percebesse que as semelhanças da descrição do cargo almejado com o seu trabalho atual fossem tantas, bem acima do normal. Pior, que isso o levasse a pensar que o "seu" patrão estava buscando alguém para o "seu" lugar.

Num primeiro momento, essa situação pode parecer um tanto inverossímil, mas acontece. O fato é verídico e ocorreu com o diretor de uma empresa no interior de São Paulo. A companhia anunciou uma vaga no jornal, sem se identificar, mas o executivo ao ler o anúncio por pura curiosidade chegou à conclusão que se tratava de uma seleção para o seu próprio emprego. "Ele foi cobrar isso do presidente da empresa e acabou sendo demitido antes do tempo", conta Ricardo de Almeida Prado Xavier, presidente da consultoria Manager, que publica pelo menos 26 anúncios por semana em jornais para selecionar analistas, gerentes e diretores.

Mas, nem todas as histórias de classificados têm um final tão frustrante. Existem profissionais que conseguem galgar postos e fazer carreira simplesmente respondendo aos classificados. Destes, 60% estão empregados. No geral, escolhem os anúncios fechados, onde a empresa não se identifica, com medo que a companhia em que trabalham descubra. Em alguns casos, o candidato pode ter o azar de dar de cara com um concorrente da sua empresa, então o mercado todo ficará sabendo da sua insatisfação com o trabalho. Isso é raro, dizem os especialistas, mas não impossível.

Por se tratar de um anúncio de retorno rápido, os classificados de jornais e revistas ainda não caíram em desuso, mesmo depois da proliferação dos sites de emprego pela internet. "Em 99% dos casos, a internet é usada como ferramenta para responder ao anúncio publicado em jornal", diz Ricardo Bevilacqua, da Michael Page, que também recruta analistas, técnicos, gerentes e diretores para empresas. "No nosso caso, os anúncios este ano nos ajudaram a preencher 92% das vagas disponíveis", diz. De 200 posições, pelo menos 110 foram fechadas com candidatos que apareceram via classificados .

Ania Hilouey, atual diretora de recursos humanos da Getronics, multinacional holandesa de tecnologia de comunicação, sempre apostou na eficiência dos classificados. Foi recortando anúncios e enviando currículos pelo correio que ela conseguiu mudar várias vezes de emprego. "Sempre para melhor", ressalta. Começou como analista de avaliação de desempenho no departamento de RH do Banco Auxiliar, depois foi para a Itaú Seguradora, BCN e Ticket, sempre através de anúncios de jornal.

Hoje, é ela quem usa essa ferramenta para acompanhar o que o mercado anda buscando e também para recrutar alguém com habilidades específicas. "É certo que 70% das pessoas que respondem são pára-quedistas", diz. "Mesmo assim funciona".

(Valor - 31/07/02)

Quem não arrisca, não sabe o que pode estar perdendo nos classificados

Ania Helouey, diretora de recursos humanos da Getronics, desde o seu primeiro emprego, sempre apostou na eficácia dos classificados

Quando se formou em psicologia organizacional há 25 anos, Ania Helouey, não sabia ao certo que rumo daria à sua carreira dali para a frente. Resolveu começar respondendo vários anúncios de emprego no jornal. Enviou mais de trinta currículos pelo correio até que encontrou seu primeiro trabalho como analista de avaliação de desempenho no Banco Auxiliar.

Depois de um ano, inquieta e a fim de dar uma chacoalhada na vida profissional, mesmo empregada, respondeu a outros anúncios de classificados. Como tinha mais experiência, desta vez foi um pouco mais seletiva na escolha do cargo. Recebeu um chamado da Itaú Seguradora. Pediu demissão, mas esta não foi aceita. Desistiu então de trocar de emprego. Uma semana depois se arrependeu e voltou a procurar trabalho no jornal. Sem saber, pois se tratava de um anúncio fechado onde a empresa não revela seu nome, respondeu ao mesmo anúncio da Itaú Seguradora. Na época, ouviu a resposta: "O emprego é seu, mas você me deve um anúncio no jornal".

Depois de três anos e meio na seguradora, acabou sendo demitida por conta de um enxugamento nos quadros da empresa. Não se abateu, comprou o jornal e enviou o currículo, como havia feito quando procurou seu primeiro trabalho. "Deu certo de novo", lembra. Foi para o BCN, como gerente. E, em 89, já uma "veterana dos classificados", insatisfeita com a sua função no momento, respondeu a um novo anúncio de vaga em uma multinacional francesa. A companhia era a Ticket, onde acabou ficando por nove anos. Depois disso, migrou para outras empresas por indicação ou foi "caçada" por headhunters, até chegar ao cargo atual de diretora de recursos humanos da Getronics, multinacional da área de tecnologia.

O método usado por Ania em quase toda a sua carreira é seguido por milhares de pessoas todos os dias, sejam elas desempregadas ou insatisfeitas com seus trabalhos. Apesar do número de anúncios em jornal ter encolhido 40% em relação há doze anos, os classificados ainda são uma ferramenta útil para profissionais e empresas. Esta estimativa é do consultor Laerte Cordeiro, que acompanha esse mercado há 19 anos. "Essa queda aconteceu muito mais porque as organizações hoje também estão mais enxutas".

Um dos segredos para que o recrutamento pelo jornal funcione de fato é a clareza e a descrição precisa de quem está se buscando. Um anúncio mal feito pode ter um efeito devastador. "Podem chover currículos que não vão servir para absolutamente nada", diz Ricardo de Almeida Prado Xavier, da Manager, consultoria de recursos humanos.

Regiane Maia, coordenadora de RH da Cetelem, financeira francesa que trabalha com crédito pessoal, diz que começou a anunciar em jornais e revistas porque tinha dificuldade em encontrar profissionais com um perfil mais técnico. Ela conta que demorou um pouco para aprender a formular um anúncio realmente eficiente. "Recebíamos muitos currículos de pessoas com um perfil muito mais voltado para o mundo acadêmico do que para o mercado financeiro", lembra.

Por estar na época há apenas dois anos no país, outro problema encontrado pela Cetelem foi fazer com que as pessoas respondessem a seus anúncios abertos. "Ninguém conhecia a empresa". A companhia acabou pedindo a ajuda de empresas especializadas em recrutar através de classificados, para preencher algumas posições. O lado positivo da experiência nos jornais, segundo Regiane, foi que em pouco tempo a empresa havia conseguido montar um banco de dados com 2 mil currículos já pré-selecionados.

Em alguns casos, as companhias preferem não se identificar em anúncios fechados por terem medo de mostrar para o mercado sua fragilidade em determinada área. "Principalmente quando estão a procura de um gerente ou diretor de uma área estratégica", diz o consultor Laerte Cordeiro.

Segundo ele, não existe um setor que anuncie mais que outro ou um tipo de profissional que seja mais procurado. "Isto é cíclico, varia muito". O que se observa é que no caso dos executivos, quem costuma usar com mais freqüência os classificados são as próprias empresas, responsáveis no último semestre por 56% dos anúncios publicados nos principais jornais do Estado de São Paulo. Já as companhias de recrutamento respondem pelo restante.

A resposta aos anúncios, no geral, vem a jato. Uma publicação ou no máximo duas, já são suficientes para se obter um bom resultado. Edson Monteiro, consultor de RH para a América do Sul da Du Pont, conta que para cada vaga anunciada recebe em média 200 currículos no mesmo dia da publicação. Na sua área, a maior do grupo em solo sul americano, que engloba finanças, engenharia, serviços, logística e sistemas, 60% das vagas são preenchidas por indicação interna ou anúncios. Este ano, ele publicou 5.

No caso da Du Pont, o anúncio aberto, com o logotipo da companhia, vale a pena. "As pessoas apostam na marca sem medo", diz. Lá os currículos aparecem constantemente via internet, nem é preciso anunciar. E, no caso de executivos, a empresa prefere recorrer aos headhunters ou a indicações. Raramente essas vagas vão para os jornais.

A consultoria e empresa de recrutamento e seleção, Michael Page, por exemplo, só aciona os classificados para preencher posições com salários até R$ 6 mil. "Isso não significa que não existam vagas cujo pacote some até meio milhão", explica o gerente Ricardo Bevilacqua.

O presidente do grupo Catho, Thomas Case, um dos primeiros a investir no recrutamento via internet, publica semanalmente 8 anúncios em jornais. Na internet, ele anuncia 50 vagas ao mês. Case acredita na eficiência dos classificados em jornais e revistas e diz que, no geral, uma única publicação basta para se obter respostas. Mas hoje ele prefere a agilidade da internet. "Acho mais fácil", diz. Ele conta que via web já cadastrou 600 mil currículos. A tecnologia, para ele, também ajuda a filtrar mais rápido os melhores candidatos.

(Valor - 31/07/02)