Recursos
Humanos, um desafio para o terceiro setor
Mais do que
a sistematização dos serviços prestados à
comunidade, um dos grandes desafios enfrentados pelo terceiro setor
é a sua própria profissionalização.
Apesar de todas as peculiaridades do setor em relação
ao mercado formal de trabalho, um aspecto os aproxima: ambos necessitam,
para seu melhor funcionamento, de um departamento responsável
pelo processo de seleção e contratação
de profissionais: o de recursos humanos.
Leia
mais:
-
Recursos Humanos, um desafio para o terceiro setor
- Doutores da Alegria tem recursos
humanísticos
- Fundação Abrinq
é exceção entre as organizações
Recursos
Humanos, um desafio para o terceiro setor
Mais do que
a sistematização dos serviços prestados à
comunidade, um dos grandes desafios enfrentados pelo terceiro setor
é a sua própria profissionalização.
Apesar de todas as peculiaridades do setor em relação
ao mercado formal de trabalho, um aspecto os aproxima: ambos necessitam,
para seu melhor funcionamento, de um departamento responsável
pelo processo de seleção e contratação
de profissionais: o de recursos humanos.
A diferença
é que poucas Organizações Não-Governamentais
(ONGs) têm atualmente uma gestão organizacional que
dê conta dos processos que envolvem a área de recursos
humanos. O setor lida com uma diversidade maior de profissionais.
No entanto, a dificuldade não está em selecionar o
perfil adequado para a instituição mas, em garantir,
por exemplo, uma definição de cargos e salários,
direito às leis trabalhistas (CLT), oferecer planos de carreira,
principalmente para estagiários.
O que define
a maneira e como os conceitos de recursos humanos são aplicados
é a natureza da organização. De qualquer forma,
um consenso é geral entre as organizações:
é pré-requisito básico estar envolvido com
a causa para ser contratado.
Para Luiz Carlos
Merege, coordenador do Centro de Estudos do 3° Setor, da Fundação
Getúlio Vargas de São Paulo (CETS – FGVSP),
recursos humanos no terceiro setor ainda é uma questão
crítica, pois não existe plano de carreira, piso salarial
nem avaliação. “Tudo ainda é muito novo
no setor, portanto, caótico”, afirma Merege.
O CETS foi pioneiro
no país na criação de cursos que busquem orientar
a profissionalização das ONGs no país. Merege
afirma que a questão organizacional administrativa na formação
do terceiro setor foi muito negligenciada. “O foco principal
sempre esteve na missão da organização”,
disse.
A Fundação
Gol de Letra, na região norte de São Paulo, por exemplo,
atualmente está definindo uma política de RH em parceria
com uma empresa especializada. Segundo Sóstenes Vieira de
Oliveira, superintendente da organização, que atua
na área de educação para crianças de
baixa renda na cidade, todos os profissionais contratados, com carteira
assinada ou autônomos, recebem antes uma capacitação
para trabalhar com os jovens.
A Gol de Letra
tem em seu quadro principalmente educadores. “Temos poucos
estagiários na Gol de Letra. Mas estamos formando jovens
da própria comunidade para trabalhar nos programas que realizamos”,
explica Oliveira.
Dessa forma,
a mão-de-obra necessária para os trabalhos da organização
será suprida pelos próprios programas da ONG. Essa
é uma prática comum entre as organizações
do terceiro setor, que nem sempre encontram no mercado profissionais
com as habilidades que a área demanda.
Algumas vezes
o quadro organizacional muda quando a instituição
tem uma origem estrangeira, como é o caso do Greenpeace,
atuante na área ambiental. Por ser uma ONG internacional,
alguns padrões são seguidos pelas filiais.
Mas, segundo
Mario Kabilio, gerente de recursos humanos do Greenpeace em São
Paulo, a ONG procura espelhar-se nas experiências de empresas
da iniciativa privada e seguir a legislação brasileira.
“Não temos um plano de carreira, mas um organograma
fixo, baseado nas necessidades da organização e limitado
por orçamentos anuais”.
Estagiários,
de acordo com Kabilio, só são contratados quando surge
uma oportunidade, num cargo já existente. Em compensação,
90% dos funcionários são registrados em carteira.
“O restante é formado por autônomos, prestadores
de serviço”, explica. Quanto às definições
salariais, Kabilio afirma que o Greenpeace procura manter salários
na média do que é pago em outras organizações
que atuam na mesma área. “Mas nosso orçamento
é apertado, assim como em tantas outra ONGs”.
Estima-se que
hoje existam cerca de 250 mil organizações no país,
segundo dados da próprio CETS, uma mostra de que o terceiro
setor teve um crescimento impressionante na última década.
De acordo com Merege, isso prova que existe no setor atualmente
uma mão-de-obra intensiva. “O terceiro setor tem capacidade
para gerar empregabilidade. Por isso, quanto mais dinheiro for investido
no setor, mais emprego será gerado”.
Como definiu
Merege, o terceiro setor é composto por pessoas cuidando
de pessoas. No entanto, a gestão de pessoas é o maior
desafio das organizações. “As organizações
estão começando a se profissionalizar nessas áreas.
Mas somente agora é que estão começando a criar
uma consciência de que precisam cuidar das pessoas que a compõem,
que são sua maior riqueza”, afirma.
(Bianca Justiniano
– 01/10/03)
Doutores da Alegria tem recursos humanísticos
A missão
de uma organização do terceiro setor é o que
muitas vezes define a sua gestão organizacional. Logo, numa
instituição que tem como foco a arte e a alegria,
o departamento administrativo, mais precisamente o de recursos humanos,
ganha o nome de “recursos humorísticos”.
É dessa
forma que trabalha o Doutores da Alegria, organização
não-governamental (ONG) que busca, desde 1991, levar alegria
por meio da arte do palhaço para crianças internadas
em hospitais. “Criamos uma referência no trabalho que
realizamos: o Doutor em Besteireologia. Para nos organizarmos, olhamos
experiências no exterior de organizações parecidas
conosco”, disse Wellington Nogueira, presidente da organização.
O Doutores da
Alegria é basicamente formado por um quadro administrativo,
atores e palhaços contratados. Segundo Nogueira, por ter
essa formação diferenciada em relação
às outras instituições do terceiro setor, o
trabalho de construção de valores, que tem como pilares
o entendimento da alegria e o da sensibilidade com o outro, é
feito por todos que dela participam.
“Nosso
processo organizacional está em construção.
Mas temos preocupação de não deixar nossos
palhaços aprisionados em suas funções”,
explica Nogueira.
Para ser contratado,
o palhaço passa por uma série de avaliações
e recebe capacitação para então ir ao hospital.
“Quem decide se o ator será ou não contratado
é a criança. Mesmo sem saber, é ela quem o
contrata”, conta.
Apesar do foco
artístico do trabalho, Nogueira afirma que uma definição
de cargos e salários faz falta na organização.
“Não há uma pessoa que não precise ter
alguém em algum lugar, ter uma referência. Criamos
uma estrutura de recursos humanos, mas a organização
desse departamento está sendo construída de acordo
com nossas necessidades”, explica Nogueira.
Segundo ele,
não há como seguir regras no Doutores da Alegria.
“Somos um grupo de palhaços, que por excelência
quebram regras, desafiam autoridades”, brinca. Para facilitar
o lado organizacional da ONG, Nogueira conta que optou por contratar
administradores com experiência no mundo artístico.
(Bianca Justiniano
– 01/10/03)
Fundação Abrinq é exceção entre
as organizações
Enquanto o maior
desafio para a maioria das organizações do terceiro
setor é instaurar um programa de gestão de pessoas,
para outras está mais do que claro como e deve ser feito
o departamento de recursos humanos. É o caso da Fundação
Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente. “A
política de RH deve ser coerente com a estrutura da organização
e tem que ser facilitadora da missão”, afirma a coordenadora
geral da instituição, Ely Harasawa.
A Abrinq é
uma fundação privada sem fins lucrativos cuja missão
é promover a defesa dos direitos e o exercício da
cidadania de crianças e adolescentes. Desde que nasceu, em
1996, conta com a assessoria de uma consultoria para os processos
de recrutamento e seleção e de política de
cargos e salários, baseada em pesquisas sobre responsabilidade
e atribuições.
Os processos
são semelhantes ao de uma empresa tradicional. “O terceiro
setor já é caótico. Contratar pessoas especializadas
para cuidar de certos aspectos ajuda na profissionalização
da instituição”, afirma Harasawa.
Segundo ela,
o planejamento organizacional tem como espelho o mercado formal
de trabalho. “Não há motivo para começarmos
do zero se temos uma estrutura organizada no mercado tradicional”,
argumenta. Em um aspecto a fundação faz a diferença,
se comparada a outras instituições: todos os funcionários
são contratados seguindo as leis trabalhistas (CLT).
No entanto,
de acordo com a coordenadora da instituição, a Abrinq
tem uma característica comum à de outras organizações:
a maioria dos especialistas têm um salário defasado
em relação ao mercado tradicional, exceto os profissionais
da área administrativa, que têm salários equivalentes.
Voluntários,
a organização não tem. Estagiários,
também não. O motivo, de acordo com ela, é
simples: “O estudante deve se preocupar com sua formação
acadêmica e não em ser mão-de-obra barata para
a instituição”. Quanto aos voluntários,
a coordenadora explica que não tem pessoas trabalhando voluntariamente
no operacional do dia-a-dia da fundação. “Um
programa de voluntariado requer uma estrutura que não temos.
Ele precisa estar envolvido com a causa e sentir prazer em ajudar.
Por isso, somente em alguns programas que realizamos que contamos
com o trabalho deles”, explica.
Por seguir uma
estrutura bastante empresarial, a Fundação Abrinq
tem implantado um programa de avaliação, prática
não muito comum – e muito discutida - mesmo nas empresas
tradicionais. “Há três anos realizamos com os
profissionais uma auto-avaliação e uma avaliação
de superiores. Agora a avaliação está sendo
feita em 360°, ou seja, todos são analisados por todos
os envolvidos na atividade desenvolvida”, explica.
Segundo ela,
um programa de avaliação como esse só pode
ser aplicado em uma organização madura, que tenha
sofrido mudanças culturais profundas em sua estrutura. “A
avaliação só vale a pena e oferece resultados
se for feita para melhorar o diálogo e detectar as necessidades
de desenvolvimento das pessoas”, alerta.
Apesar de estar
um degrau a frente de outras organizações, um dos
grandes desafios da fundação hoje é oferecer
um plano de carreira para seus profissionais. “É um
grande desafio planejar a progressão das pessoas dentro da
ONG. O ideal é que as competências sejam aproveitadas
em outras áreas e projetos também”, afirma ela,
que detecta na curta duração de alguns projetos um
empecilho para garantir a empregabilidade dos envolvidos quando
o programa acaba.
(Bianca Justiniano
– 01/10/03)