Parceria entre prefeitura e empresas oferece oportunidade para jovens de baixa renda

Uma parceria entre a prefeitura de Diadema e empresas privadas da cidade criou o "Projeto Adolescente Aprendiz". Jovens entre14 e 15 anos, que vivem em áreas violentas, participam de atividades proporcionadas pelas companhias e ainda ganham uma ajuda de custo pelo trabalho realizado.

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Projeto municipal leva empresas de Diadema a adotar adolescentes

A parceria entre a prefeitura de Diadema e a iniciativa privada está levando jovens de 14 e 15 anos que residem em áreas violentas da cidade, a conhecer um mundo diferente - fora da droga e da marginalidade. É o Projeto Adolescente Aprendiz, que há um ano vem revelando que a "dobradinha" pode contribuir para um futuro mais promissor ao adolescente e uma melhor imagem da empresa.

Segundo Fábio Rodrigues, assistente pedagógico do projeto, as empresas "adotam" um adolescente custeando uma bolsa-aprendizado no valor de R$ 130, além de proporcionar-lhes contato com as atividades desenvolvidas na companhia. "O objetivo maior é que os jovens vivenciem as regras de uma empresa; mais que profissionalizar, a idéia é que eles vislumbrem um futuro", declara Rodrigues.

Atualmente são 25 empresas da cidade que contribuem com o projeto, mas apenas 14 adotaram os jovens, sendo que 65 bolsas são custeadas pela iniciativa privada. Este "salário" é disponibilizado pelo Banco do Brasil, por um cartão-bancário.

A SMS, empresa de tecnologia - fabricante de nobreaks e estabilizadores - tem há um ano dez adolescentes atuando em cinco áreas, como almoxarifado e administração da qualidade, entre outros. Isaias Zanelato, diretor administrativo-financeiro da SMS, explica que no início houve alguma resistência. "Não queríamos um grande envolvimento, mas depois adotamos os jovens."

São duas meninas e oito meninos que "estagiam" às terças e sextas- feiras, quatro horas por dia. "A atuação deles foi uma surpresa para nós", disse Zanelato. O executivo comenta que funcionários de cada departamento da empresa dizem "eu também quero um". Os jovens já estão familiarizados com o funcionamento dos departamentos. "Estamos apostando que este projeto é bom para as crianças porque elas conseguem ter contato com uma vida melhor; geralmente, são os traficantes que adotam os meninos", afirma Zanelato.

A parceria está firmada até 2003, com possibilidade de renovação. A SMS contribui mensalmente com R$ 1,3 mil com a bolsa-aprendiz. "Não é um grande valor; é uma contribuição social que está dando certo", acrescenta Zanelato. A SMS tem 420 funcionários e o faturamento da empresa no ano passado foi de R$ 75 milhões. A previsão para este ano é atingir R$ 80 milhões.

A falta de adesão das empresas fez reduzir o número de beneficiados. A meta do Adolescente Aprendiz era cadastrar este ano dois mil jovens, mas o número foi reduzido para 1,2 mil, explica Rodrigues. Atualmente, estão efetivamente no projeto 650 adolescentes - 580 custeados pela prefeitura. "O ritmo de expansão do projeto não acompanhou a adesão das empresas", desabafa Rodrigues.

Para o assistente pedagógico, o desconhecimento do projeto, a questão econômica, o receio de que o adolescente possa vir a ter acesso ao funcionamento da empresa são alguns dos motivos que levam a iniciativa privada a hesitar. Ele comenta que embora as empresas tenham demonstrado sensibilidade ao problema da comunidade, não há comprometimento efetivo porque a maioria dos donos e gerentes não reside em Diadema. Hoje são 1,2 mil empresas localizadas na cidade, segundo a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados -Seade.

(Gazeta Mercantil - 04/07/02)

Fundação estuda formas de atrair novos parceiros

De acordo com Fábio Rodrigues, assistente pedagógico do Projeto Adolescente Aprendiz, a Fundação Florestan Fernandes, que é subsidiada pela prefeitura, está reformulando a maneira de captação de recursos para a iniciativa. As prioridades são constituir uma equipe mais especializada, montar estratégias de sensibilização para custear bolsas-aprendizado e criar um selo de responsabilidade social. "É notória a ausência de política pública na questão da violência", disse. O Brasil ocupa o terceiro lugar como mais violento entre 60 pesquisados pela Unesco.

O projeto Adolescente Aprendiz surgiu após o assassinato de uma adolescente devido a seu envolvimento com drogas. Hoje, está presente nos cinco bairros mais violentos da cidade: Núcleo Habitacional da Naval, na Vila São José (50 jovens); Núcleo Habitacional Morro do Samba, no Serraria (60); Núcleo Habitacional Nova Conquista, no Piraporinha (232); Núcleo Eldorado (128); Núcleo 18 de agosto. No fim de julho, as atividades serão iniciadas nos bairros de Canhema e Inamar.

Rodrigues explica que todos os adolescentes que freqüentam o projeto têm de estar na escola. "É a regra número um." Após o período da aula, os jovens têm diariamente uma atividade intensa - vão às empresas duas vezes por semana e nos outros dias têm aulas de trabalho e cidadania, habilidades específicas e atividades de cultura e lazer.

Os professores contratados pela Fundação Florestan Fernandes discutem com os jovens assuntos relacionados à realidade deles, como drogas e violência. "Já temos jovens que estavam a caminho da droga e estão fazendo tratamento", diz Rodrigues. "Depois do ingresso no projeto, os adolescentes passaram a adotar novas formas de conduta, como higiene e postura, entre outros."

Segundo ele, nesta fase, dos 14 e 15 anos, os adolescentes estão acordando para o mundo e o contato com as empresas mostra que "eles podem dar certo". A ajuda financeira que recebem, muitas vezes, é aplicada no orçamento familiar. "Reforçamos em sala de aula que a função do dinheiro não pode ser só essa", afirma Rodrigues.

(Gazeta Mercantil - 04/07/02)