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Empresas incentivam combate à escravidão
A pressão
das grandes companhias em suas cadeias produtivas, especialmente
com fornecedores, começa a surtir efeitos no combate ao trabalho
forçado no Brasil. Às vésperas do aniversário
de dois anos do Pacto Nacional pela Erradicação do
Trabalho Escravo, três dos maiores frigoríferos do
país se comprometeram a cortar relações comerciais
com empresas presentes na "lista suja" do Ministério
do Trabalho.
Instituída
em fins de 2003, a "lista suja", atualmente com 162 nomes
(todos de propriedades rurais), relaciona empresas flagradas com
trabalho escravo. A inclusão só acontece após
o fim do processo aberto pelo auto da fiscalização,
ou seja, após o direito de defesa ser exercido pelos acusados.
As empresas
permanecem na lista por dois anos e saem se pagarem as multas resultantes
da fiscalização, quitarem todos os débitos
trabalhistas e previdenciários e não reincidirem no
crime. Bancos federais podem barrar empréstimos de recursos
públicos, e a Febraban (Federação Brasileira
de Bancos) está aconselhando seus associados a fazerem o
mesmo.
E os signatários
-ABN Amro, Carrefour, grupo Rosset, Belgo-Mineira e Suzano, entre
outros- do Pacto se comprometem a erradicar o crime em suas cadeias
produtivas.
A pecuária
bovina é o setor econômico com maior presença
na "lista suja" e, até este mês, dos 19 frigoríferos
identificados como compradores de produtos oriundos de trabalho
escravo, nenhum havia se comprometido a cortar relações
com as fazendas acusadas.
A situação mudou depois que o Wal-Mart cortou contrato
com o abatedouro Frinorte, do Tocantins, porque a empresa, mesmo
depois de alertada, continuou comprando carne de uma fazenda reincidente
em trabalho escravo, e convocou seus outros fornecedores para pedir
adesão ao esforço.
O Friboi, maior
frigorífico do Brasil, e o Redenção, maior
do sudeste do Pará, que compravam mercadorias de fazendas
flagradas detendo trabalhadores, assinaram. "A cadeia [produtiva]
começa a agir assim, quando alguém cobra em uma ponta,
como fez o Wal-Mart", diz Roberto Fontana, diretor de vendas
de carne "in natura" do Friboi.
Já o
Frigorífico Bertin, o segundo maior abatedouro e o primeiro
em exportação de carne do Brasil, cedeu à pressão
do Banco Mundial, seu financiador (a empresa recebeu, em março,
empréstimo de US$ 90 milhões), e também assinou.
O cientista
político Leonardo Sakamoto, coordenador da ONG Repórter
Brasil e autor de tese de doutorado sobre a "reinvenção"
da escravidão pelo capitalismo, diz que a presença
de escravidão e servidão por dívidas no Brasil
deixa os exportadores brasileiros vulneráveis a sanções
internacionais por alegadas razões humanitárias. A
ONG foi responsável pelo mapeamento da escravidão
nas cadeias produtivas do país.
O Projeto de
Combate ao Trabalho Escravo da OIT (Organização Internacional
do Trabalho), catalisadora dos esforços do governo e de organizações
não-governamentais, acaba neste ano. Para que tenha continuidade,
é preciso que o governo brasileiro faça uma solicitação
à entidade, o que ainda não aconteceu, conforme Patrícia
Audi, coordenadora nacional para o tema.
Segundo ela,
cabe ao Ministério das Relações Exteriores
o envio de ofício à OIT. Contudo representantes da
organização não conseguiram ser atendidos no
Ministério do Trabalho nem obtiveram respostas do MRE.
Procurado pela
reportagem, o ministério não informou sua posição
sobre o tema. A reportagem também tentou contato com os frigoríficos
Bertin, Friboi, Redenção e Frinorte, mas nenhum quis
se manifestar.
(Folha de
S. Paulo)
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