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Parceria abre portas para "trainee social"
Lançado
pelo governo federal na última semana, o programa Primeiro
Emprego colocou na ativa empresas e entidades do terceiro setor
que já estão em ação com projetos sociais
semelhantes. Esta articulação ajudará a gerar
mais chances de estágio, contratos de aprendizagem e emprego
formal para jovens sem experiência.
Leia
mais:
- Parceria abre portas para "trainee social"
- Mercado para aprendiz ainda vive "menoridade"
Parceria abre portas para "trainee social"
Lançado
pelo governo federal na última semana, o programa Primeiro
Emprego ainda deverá levar pelo menos 60 dias para começar
na prática. Enquanto isso, empresas e entidades do terceiro
setor já estão em ação em projetos sociais
semelhantes, que geram chances de estágio, contratos de aprendizagem
e emprego formal para jovens sem experiência.
As iniciativas
não atendem nem de longe a demanda de cerca de 3,4 milhões
de jovens com idade entre 16 e 24 anos que procuram emprego hoje,
segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. Porém,
mostram um interesse crescente das empresas em participar de programas
em parceria com organizações não-governamentais
ou com o poder público.
"As políticas
públicas são importantes, mas é essencial que
os empresários se conscientizem da necessidade de oferecer
uma porta de entrada para os jovens no mercado de trabalho",
diz Oris de Oliveira, professor de direito do trabalho da Faculdade
de Direito da Universidade de São Paulo.
Oportunidades
como as de operador de telemarketing, auxiliar de escritório
e atendente nas áreas de alimentação e limpeza
são os exemplos mais comuns de vagas abertas pelas empresas.
Mas também há postos de trabalho que exigem maior
qualificação, em empresas farmacêuticas e de
tecnologia.
Um exemplo de
atuação social da iniciativa privada para a geração
do primeiro emprego é a parceria das ONGs Meninos do Morumbi
e Projeto Fênix com a empresa de tecnologia Teletech, que
emprega 40 jovens de 16 a 23 anos em São Paulo. A companhia
diz que pretende abrir outras 60 vagas para o segundo semestre.
"Mesmo
sem esperar a ajuda do governo, descobrimos que era viável
oferecer oportunidades de emprego formal para jovens", diz
Marcelo França, diretor-geral da Teletech para a América
Latina.
Tiago da Silva
Fonseca, 18, conseguiu uma vaga na empresa depois de passar por
um curso na associação Meninos do Morumbi. Contratado
como atendente, recebe salário de R$ 500 mais benefícios.
Além disso, existe a possibilidade de fazer um curso superior
com metade da mensalidade custeada pelo patrão. "Quando
apareceu a chance, tive de agarrá-la, porque estava muito
difícil conseguir uma oportunidade."
Outro projeto
que ilustra a participação de uma empresa em um programa
de primeiro emprego é a parceria do McDonald's com a Fundação
Estadual do Bem-Estar do Menor de São Paulo (Febem).
O convênio,
assinado no mês passado, prevê inicialmente a abertura
de 30 vagas em lojas da rede no interior de São Paulo. O
programa pode ser ampliado para atender até mil menores egressos
da Febem. "Eles não são diferentes de outros
jovens. Apenas precisam de oportunidades de desenvolvimento profissional",
avalia Alcides Terra, vice-presidente da Área de Gente da
rede.
Os candidatos
serão selecionados pela Febem e passarão pelo processo
normal de seleção da empresa. Terão expediente
de quatro a seis horas e receberão R$ 250. A remuneração
inicial dos jovens, que gira em torno de um a dois salários
mínimos, não é o maior atrativo. Mas, sim,
a oportunidade de entrar no mercado e de crescer dentro das empresas.
Alexandre Salum,
21, participou do programa do Instituto Habilitare, com atuação
em Jundiaí (SP). Atualmente é assistente da gerência
de contas na Softway Contact Center (telemarketing).
A empresa desenvolve
o projeto Horizontes, em parceria com a ONG, desde setembro de 2002.
Até agora já capacitou mais de 2.500 pessoas e contratou
900. "Antes do curso, estava desanimado, pois não conseguia
emprego." Ao final do treinamento, Salum foi selecionado para
ser operador de telemarketing e, após três meses, teve
promoção. Hoje ganha R$ 700 e quer começar
um curso superior no segundo semestre com a ajuda da empresa.
O setor da construção
civil também começa a dar seus passos em programas
sociais de primeiro emprego. A construtora e incorporadora Tecnisa
fechou uma parceria com o projeto Faz Tudo, da BM&F (Bolsa de
Mercadorias e Futuros de São Paulo) para oferecer vagas a
menores em situação de "exclusão social".
A construtora
está contratando inicialmente dois jovens, mas diz ter previsão
de ampliar para 50 o número de vagas até o final do
ano. "A construção civil tem potencial para oferecer
alternativas de capacitação e emprego a jovens inexperientes",
afirma Denise Pereira Bueno, 32, gerente de recursos humanos da
Tecnisa.
O escritório
Veirano Advogados abriu espaço para jovens da ONG Camp-Mangueira,
que trabalha com adolescentes de diversos bairros do Rio de Janeiro,
como os do morro da Mangueira.
Somando as vagas
oferecidas pelos escritórios do Rio e de São Paulo
(onde é parceira da ONG Reciclar), a empresa mantém
oito jovens contratados e cinco estagiários. "Além
do aspecto social do programa, o trabalho com os jovens é
bastante produtivo devido à flexibilidade que eles possuem
para enfrentar as mudanças", explica Kristie Vasconcelos,
40, gerente de recursos humanos.
Após
concluir o curso pela ONG do Rio no ano passado, Rosângela
de Faria Bezerra, 16, foi selecionada para um estágio com
a função de tirar fotocópias. Quando surgiu
vaga na área administrativa, Bezerra se candidatou e foi
contratada, com um salário de R$ 600. "Nunca imaginei
que teria essa oportunidade", afirma.
(Folha de
S. Paulo – 06/07/03)
Mercado para aprendiz ainda vive "menoridade"
Meta do programa
Primeiro Emprego do governo federal, o incentivo à criação
de vagas de aprendizagem para jovens de 14 a 18 anos de idade é
uma prática que já vem aumentando gradativamente nos
últimos dois anos.
O crescimento
se intensificou após a aprovação da lei federal
nº 10.097, de 2000, que obriga as empresas a destinarem entre
5% e 15% de suas vagas a aprendizes.
Baseados em
um contrato formal de trabalho que prioriza a capacitação
(diferentemente do estágio), os programas para aprendizes
foram responsáveis por 5.600 vagas de janeiro a abril, contra
apenas 2.900 no mesmo período do ano passado -em boa parte
devido às ações de fiscalização.
A participação
de entidades certificadoras, que oferecem cursos de capacitação
e realizam o acompanhamento do aprendiz, também está
crescendo. O Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial),
um dos mais atuantes, planeja dobrar (para 9.000) o número
de jovens que passam por seus cursos em relação a
2002.
Apesar dos avanços,
especialistas apontam resistência das empresas. Se a legislação
fosse cumprida com rigor, seriam criadas cerca de 650 mil novas
vagas para aprendizes no país, estima o Ministério
Público do Trabalho.
"Não
existem cursos suficientes para atender a demanda", analisa
Eliane Araque dos Santos, 53, coordenadora responsável pelo
combate à exploração do trabalho da criança
e do adolescente.
Os programas
de aprendizagem não são novidade para entidades do
terceiro setor e para algumas empresas. Antes mesmo da lei nº
10.097, já havia diversos projetos sociais em ação.
A diferença é que agora eles estão se enquadrando
às regras da nova legislação.
O Nurap (Núcleo
Rotary de Aprendizagem Profissional), por exemplo, cuida da formação
e do encaminhamento de jovens para o mercado desde a década
de 90.
Atualmente é
responsável por treinar cerca de 450 jovens, que trabalham
em 130 empresas. "Procuramos novas conveniadas porque a procura
por parte dos jovens é praticamente o dobro do que atendemos",
diz Mariângela Vieira, 38, uma das responsáveis. Após
o período de aprendizagem, em média 30% são
contratados.
A indústria
farmacêutica Merck Sharp & Dohme começou a participar
desses projetos em 1993, quando abriu vagas para três jovens.
Atualmente 23 estão lá.
"Foi assim que consegui iniciar a carreira", diz Rosana
de Almeida Salcedo, 24, hoje assistente da gerência nacional
de vendas.
Outro exemplo
de geração de vagas para jovens é a parceria
da empresa de tecnologia Pulsar com o projeto Garagem Digital (organizado
pela fundação Abrinq e patrocinado pela HP).
Após
participar do curso de informática do projeto, Aldeíde
Ferreira de Souza, 18, foi selecionada para uma vaga na Pulsar.
"As empresas me barravam por causa da dificuldade de conciliar
o trabalho com o estudo", conta.
(Folha de
S. Paulo – 06/07/03)
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