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“Precisamos criar uma cultura de accountability”
Julia
Dietrich
“Precisamos
criar uma cultura de accountability”. O alerta sobre as parcerias
público-privadas e o envolvimento empresarial no terceiro
setor é do diretor regional para América Latina e
Caribe da Fundação W.K. Kellogg, Francisco Tancredi.
O termo, sem tradução em português, diz respeito
à cultura de prestação de contas, comprometimento
ético e transparência em todos os sentidos que um governo,
empresa, organização não-governamental (ONG)
e mesmo o cidadão devem ter.
Para ele, as
seguidas denúncias contra ONGs, que até geraram uma
Comissão de Inquérito Parlamentar (CPI), são
fruto da falta de controle social sobre o dinheiro público.
“É mais um espaço de corrupção
que os políticos desonestos encontraram”, brinca, sem
eximir o cidadão da responsabilidade. “Porém,
assim como existem governos e instituições corruptas,
existem as idôneas e por isso é preciso legitimar e
garantir que os organismos honestos sejam reproduzidos socialmente
e recebam mais recursos”, complementa a coordenadora da Comissão
Econômica Para a América Latina (Cepal) Maria Elisa
Barral.
Barral e Tancredi,
ambos envolvidos no concurso de Experiências em Inovação
Social, que aconteceu em Porto Alegre (RS), dizem que existem organizações
desonestas em grande quantidade. Mas, como trabalham diretamente
com a questão, garantem que existem formas de aferir a qualidade
e pertinência das ações do terceiro setor. “Para
escolher os 12 finalistas que participaram do evento, uma equipe
especializada visitou o local onde se localiza a instituição
e buscou conhecer como o projeto era avaliado e percebido pela própria
comunidade”, explica Berral.
Ela, que lida
diretamente com o prêmio, conta que em mais de um caso, projetos
que diziam ter o apoio do entorno ou que realizavam determinadas
ações, tiveram suas meias-verdades expostas na visita.
“Nesse caso não dá para mentir, pois temos um
método capaz de realmente observar as ações.
O problema é pedir que os governos façam isso. Embora
seja uma necessidade fundamental, os governos têm que encontrar
mecanismos de reproduzir esse tipo de fiscalização
em larga escala”, pondera. Só no Brasil, segundo o
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2006,
existiam mais de 45 mil organizações que trabalham
no campo dos direitos humanos.
Tancredi complementa
a fala da coordenadora, ao dizer que é fundamental que a
comunidade, na qual a ONG está inserida, seja ouvida. “Acredito
que o cidadão deva denunciar a má administração”,
observa, reiterando a premissa de accountability. “Infelizmente,
no Brasil, essa noção é sempre deixada de lado
e os mais diversos abusos acontecem tanto do lado do consumidor,
quanto da empresa, do atendido e do governo”, reitera.
Além
da transparência e da manutenção de valores
éticos, ambos insistem nas questões da inovação
e pertinência ao avaliar as atuações do terceiro
setor. “É fundamental que os projetos dialoguem com
seu entorno e, se possível, que sejam replicados”,
pontua Tancredi.
Como exemplo
de replicabilidade, ele cita um projeto vencedor da edição
anterior do prêmio. Em uma comunidade rural do Peru foi criada
uma espécie de defensoria pública contra a violência
doméstica e familiar. “Em pouco tempo foi visível
como eles conseguiram diminuir os altos índices da região.
Com custos suportáveis pela sociedade, a ação,
guardando as modificações necessárias, poderia
ser replicada em outras comunidades com problemas similares”,
observa.
Em contrapartida,
Tancredi cita exemplos de projetos que dialogam com as variadas
questões indígenas da América Latina. “Cada
país e região tem vários projetos muito bons,
mas que dificilmente seriam replicáveis, pois dialogam com
necessidades muito específicas, com populações
muito diferentes”, observa. Porém, para Tancredi, tal
realidade não desmerece os projetos, embora dificulte sua
reprodução.
Barral insiste
também no que significa inovação e criatividade.
“Quando falamos e defendemos a inovação, nós
buscamos dar visibilidade àqueles que estão solucionando
problemas do entorno com novos métodos, por novos processos
e atentos aos recursos e possibilidades das próprias comunidades”,
diz. Para ela, o grande trunfo está nas ações
que conseguem fortalecer a participação comunitária.
“E é justamente essa participação que
vai cobrar e garantir a idoneidade dos governos, empresas e terceiro
setor”, conclui.
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