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Cresce a discussão do comércio justo no Brasil
Objetivo do "fair trade" é atender
as necessidades do produtor, fornecedor e consumidor. Guarde bem
o nome "fair trade", pois ainda se ouvirá falar
muito dele nos próximos anos. Seguindo uma tendência
já observada em outros países, o Brasil começa
a dar os primeiros passos na discussão do chamado comércio
justo. Antes um assunto discutido em fóruns restritos, o
tema tem feito parte dos debates de governos, organizações
de terceiro setor e também empresas socialmente responsáveis
preocupadas em assegurar maior justiça nas relações
comerciais com benefícios não apenas para quem vende
os produtos, mas também para as comunidades de baixa renda
que os produzem.
Comércio justo virou um conceito importante
no mundo globalizado. Nascido timidamente nos Estados Unidos na
década de 1940, e na Europa cerca de dez anos mais tarde,
o fair trade sempre foi conhecido como a chamada "relação
Norte-Sul", segundo a qual os países ricos abrem seu
mercado para a venda de produtos de pequenos produtores de países
em desenvolvimento. A idéia, porém, é mais
ampla, e ainda incipiente no Brasil, embora o país já
tenha até exportação baseada na relação
de comércio justo. "Um produto de comércio justo
é aquele em que o processo produtivo, da produção
à distribuição, atende de forma transparente
às necessidades de quem produz, de quem fornece e de quem
consome, garantindo cálculo justo de preços e respeito
à seguridade social e aos direitos do trabalho, entre outros
pontos", afirma a socióloga Rosemary Gomes, assessora
da Federação de Órgãos para Assistência
Social e Educacional (Fase) e animadora da Rede Brasileira de Socioeconomia
Solidária.
Segundo ela, o fair trade busca, basicamente, a
inclusão econômica e o aumento de renda de pequenos
produtores, como forma de contornar o habitual desequilíbrio
nas relações comerciais com incentivos. Mas não
se restringe a este ponto. A equidade e o respeito na troca de serviços
- enfatiza - devem estar presentes em todas as etapas da cadeia
produtiva.
Não se trata apenas de transparência,
boas condições de trabalho e proteção
contra as flutuações e taxas de mercado. O resultado
esperado do comércio justo é assegurar um patamar
de renda que proporcione melhor qualidade de vida ao produtor e
ative a economia local, estimulando o desenvolvimento sustentável
da comunidade. Mas, na outra ponta - lembra Rosemary - o comprador
deve estar disposto a pagar uma quantia em dinheiro geralmente maior
por um produto comercialmente justo, conceito que abrange também
a preservação da cultura local e do meio ambiente
das comunidades produtoras.
Dizer que determinado comércio é justo,
porém, não significa, por exclusão, apontar
como injustas as demais formas. Segundo a especialista, o conceito
de fair trade nunca pretendeu mudar as relações de
comercialização mundiais, muito menos ser a única
forma de troca. O seu objetivo é, considerando a lógica
de mercado, inserir atores que antes eram deixados à margem
do processo pelos mais diversos motivos, principalmente em razão
da falta de competitividade de seus produtos, seja por causa de
impostos, barreiras geográficas, falta de capacitação,
baixa escala de produção ou falta de conhecimento
de mercado. Para Amy Barry, porta-voz da Oxfam International, entidade
pioneira em fair trade na Europa, não é possível
afirmar que empresas, governos ou organizações da
sociedade civil constituem ou praticam o comércio injusto,
porque cada um pode atuar em defesa ou contra os princípios
do fair trade. "É importante perceber que a estrutura
do sistema de comércio mundial é intrinsecamente injusta",
afirma.
A força-tarefa brasileira pela promoção
do comércio justo iniciou com as organizações
da sociedade civil, a quem vem cabendo o papel de mobilizar os produtores,
prestando apoio e oferecendo infra-estrutura. Para Rosemary Gomes,
envolvida diretamente no grupo de trabalho para a padronização
do conceito no Brasil, as ONGs são responsáveis até
hoje pela assessoria, capacitação, formação
e encadeamento produtivo de quem trabalha no início da cadeia.
Apesar do papel fundamental, porém, o protagonista é
o produtor.
Aos governos, que têm pouca experiência
no assunto, caberá regulamentar o comércio justo e
oferecer incentivos públicos para favorecer produtores. "Vamos
estabelecer um conjunto de regras do jogo para estimular a adesão
com benefícios. Essa é a função do Estado",
explica Jean Pierre Medaets, assessor técnico da Secretaria
de Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento
Agrário. Segundo ele, o governo pretende ampliar gradativamente
o investimento no comércio justo. Além de trocar a
atitude comercialmente justa por políticas públicas,
o Estado vai financiar campanhas para a divulgação
do conceito, processos de capacitação, pesquisa e
desenvolvimento e infra-estrutura. O Selo Combustível Social,
que garante renúncia fiscal para processadores de matéria-prima
do Biodiesel, adquiridas de agricultores familiares, é uma
primeira e recente ação nesse campo.
Empresas socialmente responsáveis também
estão aderindo à prática do financiamento de
programas de comércio justo. A Natura, por exemplo, apóia
a Associação Ver-as-ervas, de Belém do Pará,
especializada na extração de materiais usados para
a produção de cosméticos. Com a ajuda financeira,
o grupo consegue aprimorar suas técnicas e promover o desenvolvimento
socioeconômico da comunidade.
Outra experiência semelhante, porém
em maior escala, é a do DIS Baixo Sul, financiado pela Fundação
Odebrecht e pelo Banco Mundial. Antes da iniciativa, um pescador
do município de Cairu, na região sul do estado da
Bahia, tinha uma renda irregular de R$ 70. Com a sua integração
a uma cooperativa, a melhoria do processo produtivo e a eliminação
de intermediários nocivos, a renda do pescador cresceu dez
vezes, gerando desenvolvimento sustentável para a região.
Segundo Marcelo Walter, diretor executivo do Instituto
de Desenvolvimento Sustentável do Baixo Sul (IDES), que coordena
a iniciativa, os produtores envolvidos no programa estão
desenvolvendo uma importante consciência coletiva. "Identifico
nos depoimentos uma noção mais clara de futuro, uma
mudança de atitude. Já não é o imediatismo
do aumento de renda que conta. Eles passam a querer mais",
diz. Em sua opinião, o benefício da maior remuneração
é uma forma de estimular os produtores a seguirem em seu
processo de crescimento, considerando também outros fatores,
como preservação do meio ambiente e o desenvolvimento
de sua comunidade.
Para o executivo do IDES, a dificuldade está
em encontrar parceiros sociais da iniciativa privada dispostos a
distribuir os produtos para consumidores conscientes. "A baixa
renda do consumidor médio brasileiro pode ser um obstáculo
para a implantação do comércio justo no Brasil.
Os consumidores conscientes, que têm mais dinheiro e valorizam
mais o conceito, estão no hemisfério norte. É
preciso fazer os produtos chegar até eles", avalia.
Preocupado com a responsabilidade do consumidor no processo produtivo,
Marcelo acha fundamental realizar um esforço pela valorização
dos produtos de comunidades nos grandes centros de consumo do país.
"Queremos que o consumidor pegue o produto com a mão,
com a cabeça e com o coração. Leve para casa
e saiba que está contribuindo para o trabalho de uma comunidade",
diz.
Carlos Coscarelli, assessor chefe da Fundação
Procon (Proteção e Defesa do Consumidor) do estado
de São Paulo, é mais enfático. Baseado em pesquisas
de mercado, ele afirma que o consumidor brasileiro ainda não
está preparado para comprar produtos de comércio justo.
"A grande maioria não presta atenção à
questão da qualidade social dos produtos, mas basicamente
ao preço", esclarece. Embora o Procon não tenha
muita experiência em comércio justo, Coscarelli admite
grande interesse da organização pelo assunto e um
movimento interno que resultará na criação
de um programa de educação para o consumo incluindo
o fair trade.
Para Glayson dos Santos, presidente da ONG Visão
Mundial, a expansão do conceito no Brasil supõe fazer
o conceito de comércio justo chegar à sociedade e
tornar-se comum, por meio de esforços de mídia e de
programas de educação. "É fundamental
ocupar espaços, conectar esse novo processo a quem dá
visibilidade à causa. O assunto precisa estar mais presente
no cotidiano das pessoas para que elas comecem a falar mais sobre
isso", entusiasma-se. Na avaliação do executivo,
as relações comerciais como hoje ocorrem já
se mostraram insustentáveis do ponto de vista socioeconômico.
"O consumidor precisa pagar uma parte dessa conta", enfatiza.
Jean-Pierre, do MDA, tem opinião semelhante. Para ele, os
compradores exercerão um papel importante se começarem
a considerar o impacto que as suas escolhas têm na base da
cadeia produtiva.
(Gazeta
Mercantil)
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