Cresce o mercado do politicamente correto

Os que acreditam ser improvável a união entre aplicações financeiras e ações sociais precisam rever seus conceitos. Aos poucos, começa a surgir no mercado uma nova geração de fundos, que privilegia o investimento em projetos éticos e socialmente responsáveis, sem abrir mão da rentabilidade.

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Cresce o mercado do politicamente correto

Os que acreditam ser improvável a união entre aplicações financeiras e ações sociais precisam rever seus conceitos. Aos poucos, começa a surgir no mercado uma nova geração de fundos, que privilegia o investimento em projetos éticos e socialmente responsáveis - sem abrir mão da rentabilidade, claro.

O HSBC, por exemplo, lançou há pouco mais de um ano o fundo HSBC DI Ação Social. Com mínimo de aplicação de R$ 300 mil e taxa de administração de 1% ao ano, o produto destina 50% da taxa de administração a uma das cerca de 30 entidades carentes apoiadas pelo programa social do banco, como creches, asilos e escolas de todo o Brasil.

A idéia tem se provado lucrativa. No ano, o fundo ganhou 15,91%, enquanto, no período, a média dos fundos DI rendeu 15,61%. Em novembro, a aplicação valorizou-se em 1,88%, contra 1,53% do CDI.

"Os números comprovam que essa é uma aplicação como qualquer outra e que investimento social não significa deixar de lado o retorno financeiro", pondera Jorge Misumi, diretor de Produtos do HSBC Brain Asset Management.

Seguindo outra vertente politicamente correta, o ABN Amro Real criou o ABN Ethical, que completou um ano em novembro. O produto de renda variável tem como política o investimento em empresas que possuam não apenas bons fundamentos financeiros, mas também privilegiem as ações sociais e a proteção ambiental.

No seleto grupo estão empresas como a Siderúrgica de Tubarão, Pão de Açúcar, Marcopolo e Bradesco. Desde o lançamento, o fundo rendeu 16,02%, enquanto, no período, o Ibovespa perdeu 6,4%.

"Não é difícil entender o sucesso da aplicação. Empresas éticas possuem marcas fortes. Além disso, por preservarem o meio ambiente, estão livres de multas ambientais que, em algumas empresas, acabam corroendo parte dos lucros. Pelo respeito ao minoritário, atraem novos investidores, o que gera valorização dos papéis e um maior retorno para o acionista", diz Luís Ribeiro, gestor de renda variável para a América Latina do ABN Amro Asset Management.

O Bank Boston, por sua vez, lançou este mês o fundo Boston Educação DI, em parceria com a organização não-governamental (ONG) Missão Criança, de Brasília. É um fundo DI como qualquer outro, ou seja, uma aplicação indicada para investidores de perfil mais conservador. A diferença está no regulamento do produto, que estipula que parte da taxa de administração cobrada dos cotistas seja repassada para a ONG, ajudando a custear os estudos de 300 crianças.

"A idéia surgiu quando percebemos que a ajuda mensal do Bolsa-Escola, de R$ 15, não era suficiente para que crianças a partir de 10 anos continuassem os estudos. Nessa idade, elas começam a trabalhar para engordar a renda familiar e a escola fica em segundo plano", conta Maurício D'Amico, diretor de Produtos do Bank Boston.

Para cumprir o objetivo, o banco precisa atrair 200 clientes que apliquem, cada um, R$ 20 mil no fundo e paguem 2% ao ano de taxa de administração. Desse percentual, 75% serão repassados à ONG.

"Assim, cada criança receberá uma ajuda de R$ 200 por ano para estimular sua permanência na escola. Isso significa que quem conseguir concluir o ensino médio, ao se formar, terá um pé-de-meia de R$ 2.200", calcula.

Esses valores serão corrigidos pela inflação. O fundo porém, tem uma particularidade: é destinado a investidores de Goiás.

"Assim, há um incentivo maior para aplicar no produto. Vamos criar um fundo para cada região. Assim, o aplicador contribui para crianças de sua região e investe no desenvolvimento do seu estado. Os próximos fundos devem ser voltados para as regiões Sul e Sudeste", adianta.

E foi justamente a possibilidade de ajudar seu estado que motivou o advogado Osmar Cortês a investir no fundo. "É um produto em que todo mundo ganha: eu, o banco e as crianças. Meu dinheiro rende, ajudo o banco a investir no social e a manter um aluno na escola. Poderia ganhar dinheiro em qualquer outro fundo, mas assim também estou fazendo a minha parte", diz.

E novos fundos devem chegar ao mercado em breve. O Bank Boston pretende doar os modelos de prospecto e regulamento do fundo bem como auxiliar gratuitamente nas técnicas de vendas os bancos que desejaram investir no produto.

"O que queremos é criar não um, mas 300 fundos similares, que possam mudar a realidade social do país e o destino de milhares de crianças", sonha D'Amico.

(O Globo - 09/12/02)

   
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