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Cooperativas e designers inovam na criação de objetos
Mais do que
apenas recuperar materiais para a indústria, cooperativas
de catadores e ONGs decidiram fabricar objetos com o material reciclado.
O resultado é o mais variado possível: papel, vassoura,
material de escritório, sofá, cama, luminária,
telha e até roupa com design exclusivo.
Leia
mais:
- Cooperativas e designers inovam na criação
de objetos
- Fim do lixão muda vida de quem vivia de recolher
restos
Cooperativas e designers inovam na criação de objetos
A reciclagem
não se limita apenas a recuperar materiais para a indústria.
Muitas cooperativas de catadores e ONGs já desenvolveram
uma vertente alternativa, que é a fabricação
de objetos com o material reciclado. O resultado é o mais
variado possível: papel, vassouras, material de escritório,
sofás, camas, luminárias, telhas, compensado para
rechear placas de madeiras e até roupas com design exclusivo.
A ONG carioca
Ecocidade é uma das mais desenvolvidas no assunto. Seu barracão
fica em um bairro pobre de Duque de Caxias (RJ), onde cinco adultos
e 12 jovens entre 14 e 18 anos se revezam entre a escola e o trabalho.
Eles reciclam 10 toneladas de garrafas pet por mês e até
20 toneladas de papelão. Parte do material é vendida
para indústrias. O plástico das garrafas pet é
usado para fazer vassouras, pufs, sofá e camas. Cada jovem
recebe R$ 80 para ajudar no orçamento familiar. Os maiores
de idade, que trabalho o dia todo, recebem mais.
O trabalho da
Ecocidade é acompanhado pela Recicloteca, que forneceu os
cursos para os garotos aprenderem a reciclar e a fabricar os produtos,
e também serve como vitrine de venda dos produtos. Hoje,
a ONG tem uma pequena biblioteca formada por livros doados e vai
ter uma professora para dar aulas de reforço aos garotos
que estão na escola. "Eles ganham para estudar e trabalhar.
Quem falta na escola tem que trabalhar no fim de semana para compensar",
explica o eletricista Valmir Santana, morador do bairro e um dos
criadores do projeto.
A produção
de artigos utilitários com material reciclável é
o tipo mais comum de aproveitamento do material. Em Belo Horizonte,
a empresa Reciclar T3 vai mais longe. Criada há 11 anos pela
designer Águida Zanol, a empresa produz não só
a partir de materiais recicláveis, mas também com
o reaproveitamento de artigos comuns, que nem precisam ser reciclados.
Entre os objetos produzidos estão bolsas feitas com latas
de óleo, uma gravata criada a partir de latas de azeite,
um sofá feito com placas de trânsito e um blazer de
papelão.
Designer reconhecida
por seu estilo inovador, os trabalhos de Águida são
vendidos em lojas em São Paulo, Rio de Janeiro, Amsterdã
e Berlim. "A idéia não é fazer artigos
de moda, mas fabricar algo permanente."
Águida
notou uma tendência nos últimos anos: está cada
vez mais difícil obter materiais, já que as empresas
estão mais conscientes e tentam aproveitar tudo. O restaurante
japonês Nakombi, de São Paulo, encaixa-se nesta história.
Preocupado com os gastos e os transtornos que o lixo causava, o
proprietário buscou alternativas para reduzir o volume de
lixo. Um dos problemas mais difíceis foi encontrar um destino
para os 30 mil hashis (palitinhos de madeira que servem como talheres)
mensais usados pelos clientes.
A solução
foi doar tudo para o projeto Tabor, uma ONG que ensina crianças
carentes a fazer peças de artesanato com madeira. Já
estão sendo feitos testes e os produtos devem estar no restaurante
nos próximos meses. Além de ajudar o projeto, a implantação
da reciclagem aliviou o caixa. Antes, a matriz do restaurante produzia
2 mil litros de lixo por dia e gastava R$ 2 mil por mês com
a coleta. Com a reciclagem, o volume caiu para 600 litros e o gasto
para R$ 450.
(Valor Econômico
- 11/04/03)
Fim do lixão muda vida de quem vivia de recolher restos
Desativar um
dos mais de três mil lixões que existem no Brasil não
é tarefa fácil. Do ponto de vista técnico,
é preciso fazer obras e monitorar o terreno para evitar contaminação
da área. Do ponto de vista social, no entanto, é bem
mais difícil, pois muita gente vive de garimpar os restos
de comida e de resíduos sólidos. Mas algumas tentativas
têm dado bons resultados.
O essencial
é o aproveitamento das pessoas que viviam do lixão
em cooperativas de reciclagem no próprio local. Os antigos
catadores se transformam em profissionais e aprendem a governar-se
como uma empresa, voltados para a produção, a sobrevivência
e o lucro.
A catadora Elizabeth
Oliveira, 26 anos, cresceu disputando restos num lixão no
município de Embu, na grande São Paulo. "No tempo
do lixão, a gente apanhava dos maiores, só pegava
o que sobrava deles." O lixão foi desativado em 1994
pela prefeitura, que criou uma cooperativa para os catadores trabalharem
com na separação do material para reciclagem. Elizabeth
é uma das 30 pessoas que trabalham no lugar. O salário
é de R$ 400 por mês, mais a contribuição
previdenciária de R$ 40. "Minha vida melhorou muito:
agora eu tenho móveis e a casa tem cinco cômodos."
Para quem está
de fora não parece muito, mas a mudança é gigantesca.
Quem vivia no lixão garimpando restos está praticamente
fora da sociedade. A nova ocupação é um fator
de transformação. A partir do momento que têm
uma carteira da cooperativa e um salário, estes trabalhadores
podem fazer compras a crédito, coisa que antes estava fora
do seu alcance. "Eles percebem que têm importância,
são reconhecidos como profissionais", diz Vera Chevalier,
coordenadora do projeto de cooperativas da Recicloteca. "É
um grande passo para se sentirem cidadãos de novo."
As cooperativas
criadas com os trabalhadores dos lixões servem também
para ensinar aos catadores a importância do trabalho em equipe
e da negociação, além de afastá-los
das violência. "Muitos não tinham vínculos
sociais, mas com o tempo eles passam a confiar nos parceiros e aprendem
a negociar", explica Christine Fontelles, gerente de projetos
sociais da ONG Ecofuturo.
Há dois
anos a Prefeitura de São Bernardo do Campo desativou o lixão
do Alvarenga, que recebeu resíduos durante 30 anos, e implantou
uma cooperativa para que as famílias que moravam no local
se transformassem em catadores. Hoje existem duas cooperativas.
Uma é formada pelas 88 famílias de lá e que
cuida da separação e compactação do
material para a reciclagem. A outra reúne cerca de 150 catadores
associados, que recolhem material nas ruas.
"A maioria
ainda mora perto do que era o lixão, mas em casas próprias",
conta Sônia Lima, coordenadora do departamento de meio ambiente
da prefeitura. Os salários estão em torno dos R$ 750.
Um reflexo do aumento da renda é que as 176 crianças
que viviam no lixo agora freqüentam escolas.
(Valor Econômico
- 11/04/03)
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