| |
'Dólares sociais' para ONGs brasileiras
A entrada de
dólares no Brasil não tem se dado apenas via mercado
financeiro ou investimentos. Ocorre também em forma de ajuda.
Empresas brasileiras com operações nos Estados Unidos,
como a Companhia Vale do Rio Doce, a TAM e a Embraer, têm
utilizado uma lei americana para financiar projetos sociais em solo
nacional. A chamada lei da caridade, 501 C3, prevê isenção
total do valor doado até o limite de 50% do Imposto de Renda
(IR) devido ao Tesouro americano, mesmo que o dinheiro seja destinado
a ações fora do país.
“Ao invés
de deixar os dólares para os cofres americanos, melhor canalizá-los
para onde há carência de recursos e predomina a minha
atividade”, diz Tito Martins, diretor de Assuntos Corporativos
da Companhia Vale do Rio Doce, que em 2006 e 2007 doou US$ 2 milhões
a cinco projetos em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
O valor foi debitado em impostos da California Steel Industries
(CSI), de Los Angeles, com ações controladas pela
Vale.
De olho nesse
canal de captação de recursos, organizações
brasileiras sem fins lucrativos, como o Projeto Renascer, o Comitê
para Democratização da Internet (CDI) e a Legião
da Boa Vontade (LBV) estão abrindo escritórios em
Nova York. Pretendem abocanhar parte das doações feitas
via lei 501 C3. Atualmente, apenas 2% do montante é destinado
a projetos sociais fora dos Estados Unidos.
“É
isso o que pretendemos mudar”, diz Leona Forman, presidente
e CEO da BrazilFoundation, ONG de captação de recursos
para projetos sociais no Brasil, com sede em Nova York. “Muitas
vezes, a empresa não doa porque não sabe identificar
um projeto confiável. Nós fazemos essa ponte.”
Fundada há seis anos, a BrazilFoundation já levantou
mais de US$ 4 milhões e beneficiou 170 projetos. Mas 70%
dos doadores são brasileiros, pessoas físicas, vivendo
nos EUA. A idéia agora é intensificar a ação
com empresas nacionais com participação na economia
americana.
Em 2007, a Brazil
Foundation recebeu 957 projetos e selecionou 54 finalistas. Os selecionados
são acompanhados por, no mínimo, um ano, para garantir
a aplicação correta dos recursos, capacitação
dos profissionais e sustentabilidade. A entidade atua de duas formas:
reúne os recursos em um fundo, distribuído posteriormente
a projetos selecionados, R$ 25 mil para cada um, ou investe em um
projeto específico determinado pelo doador.
Organizações
como a BrazilFoundation, o Projeto Renascer, o CDI ou a LBV precisam
ter o 'charity certificate' (certificado de caridade), que comprova
o caráter sem fins lucrativos, políticos ou religiosos
da entidade. A sabatina do governo americano pode levar entre seis
meses e um ano. “Depois dos ataques de 11 de setembro, tornou-se
mais difícil obter o certificado. As autoridades fiscais
americanas querem ter certeza de que o dinheiro doado não
está sendo usado para financiar organizações
terroristas”, diz o advogado do escritório Thompson
& Knight, de Nova York, Marcello Hallake, especializado em representação
de empresas americanas e européias que investem no Brasil.
“O Brasil
possui incentivos em alguns setores, como cultura ou infância,
mas não existe uma lei generalizada como a 501 C3, em que
qualquer cidadão pode ter isenção de impostos
e decidir para que projeto doar, ainda que seja fora do território
americano”, diz. É um incentivo para a tão difícil
tarefa de levantar recursos. “O terceiro setor no Brasil se
desenvolveu muito, mas as dificuldades de captar recursos ainda
são grandes”, diz Hallake.
No Brasil, há
quase uma dezena de mecanismos de incentivo fiscal associados ao
Imposto de Renda, como a Lei Rouanet. “Mas a malha de incentivos
é confusa, uma torre de babel”, diz Marcos Martins,
diretor da Patrolink, empresa de planejamento e gestão de
patrocínios. “Se a lei não for clara, a tendência
é que seja subutilizada.”
No exterior,
os projetos brasileiros disputam recursos com o de regiões
mais pobres, como a África. Por isso, o foco de organizações
como a LBV tem sido empresas brasileiras com interesse em doar para
o Brasil.
Doações
que estão mudando a vida de jovens como André Luiz
Nogueira, de 23 anos. Com recursos da TAM, doados via BraziFoundation,
ele passou por um treinamento que o permitiu tornar-se mais competitivo
num mercado de trabalho especialmente fechado para um portador de
paralisia infantil como ele. “A deficiência me colocava
em desvantagem”, diz. Sexta-feira foi seu primeiro dia de
trabalho como assistente administrativo da italiana Sacmi, fabricante
de maquinário para a indústria de cerâmica,
em Mogi Mirim. Receberá R$ 580 por mês, terá
plano de saúde e auxílio para transporte. Além
de Nogueira, 35 portadores de deficiência foram beneficiados
- doze estão empregados.
Com a ajuda
do exterior, o maestro Márcio Selles, que desenvolve um trabalho
social na Favela da Grota, em Niterói (RJ), está levando
garotos pobres para a universidade. “Muitos queriam se tornar
músicos. Mas, ao prestar vestibular, passavam no instrumental
e ficavam para trás em matemática ou português,
por não ter educação básica de qualidade.”
Com apoio da Embraer, via operação nos EUA, foi criado
um cursinho pré-vestibular para 50 jovens. O primeiro a ter
a boa notícia foi o violinista Tiago Cosmo da Silva, de 22
anos, que hoje cursa música, com especialização
em violino, na UFRJ. “Vou viver da minha música”,
diz.
(Valor Econômico
– 06/06/07)
|
|
Empresas incentivam combate
à escravidão |
|
|
Sem métodos de avaliação,
programas perdem foco |
|
|
Novatos procuram ONGs para
se firmar como profissionais |
|
|
Cresce a discussão do comércio
justo no Brasil |
|
|
Moda sustentável abre perspectivas
de mercado |
|
|
Empresas brasileiras criam
pacto contra corrupção |
|
|
Governo precisa incentivar
práticas sociais |
|
|
Empresas conhecem a teoria
da atuação social. Falta a prática |
|
|
BID vai treinar 120 empresas
em responsabilidade social |
|
|
Doação não chega, mas ninguém
acompanha processo |
|
|
Terceiro setor cresce e emprega
cada vez mais |
|
|
Gestão é maior desafio do
terceiro setor |
|
|
Terceiro setor é segmento
que mais cresce no Brasil |
|
|
Fórum discute ações
de empresas para cumprimento das Oito Metas do Milênio |
|
|
Unicsul oferece consultoria
gratuita para organizações sociais |
|
|
Vendas pela Internet ajudam
a alavancar ações de comércio justo
no Brasil |
|
|
Projeto leva jovens de baixa
renda para a cozinha |
|
|
Papel de voluntários
é fundamental em grupos de apoio |
|
|
Análise pode indicar
retorno financeiro de ações sociais |
|
|
Terceiro setor é disputado
por executivos de empresas |
|
|
Inovar
é a chave para empreendimento social |
|
|
Portal
RISolidaria tem balcão de empregos e estágios
no Terceiro Setor |
|
|
Maior
parte das ONGs vive à custa de dinheiro público |
|
|
Gerar
renda pela reciclagem não é suficiente
como ação social |
|
|
Estágio
social ganha espaço no mercado |
|
|
Líderes
do futuro devem criar ambientes horizontais de gestão |
|
|
Empresas
devem se unir para desenvolvimento local |
|
|