ONGs tentam definir papel no novo governo

As Organizações Não-Governamentais (ONGs) estão na expectativa de que agora as milhares de experiências e projetos - já testados e considerados bem-sucedidos - possam ser adotados como políticas do governo petista. Mas ainda assim existe o temor de que o governo, por pressa ou desinformação, tome decisões consideradas equivocadas, levando os movimentos a adotar uma postura mais crítica.

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ONGs tentam definir papel no novo governo

As Organizações Não-Governamentais (ONGs) estão mais ativas do que nunca. O excesso de expectativa de que agora as milhares de experiências e projetos - já testados e considerados bem-sucedidos - possam ser adotados como políticas do governo petista deixou de prontidão esses movimentos, que estão pedindo audiências com novos ministros e secretários, reativando conselhos e enchendo as autoridades de informações. O temor é de que o governo, por pressa ou desinformação, tome decisões consideradas equivocadas, levando os movimentos a adotar uma postura mais crítica.

"Se houver importação de milho transgênico, entramos na Justiça", diz Jean Marc Von Der Weid, coordenador da Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA) e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar. Ele faz parte de um grupo de 40 ONGs que se juntaram para pedir uma audiência com Lula. Weid diz que o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, é pró-transgênicos e está preocupado com as pressões que existem hoje para a importação de milho.

Manter a postura "vigilante" é hoje uma preocupação das ONGs, que reconhecem o risco de haver uma complacência com o governo. "É difícil para muitos de nós fazer uma crítica ao PT, mas esse é nosso papel", diz Candido Grybowsky, coordenador do Ibase, que criticou a provável ida do presidente Lula ao Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça). Grybowsky está entre os que temem uma "cooptação" das ONGs pelo governo, mas há quem acredite que os movimentos da sociedade civil estarão mais alertas agora do que no governo FHC.

"O nível de exigência vai ser maior porque a confiança também é maior", diz Maria Betânia Ávila, socióloga e coordenadora do SOS Corpo. O alto grau de expectativa deve-se também ao espaço que vem sendo dado às ONGs desde a fase de transição do governo. A SOS Corpo, organização feminista, é uma das que aguardam a manutenção do canal conquistado durante a transição: um representante no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Jorge Saavedra Durão, secretário da Associação Brasileira das Organizações Não Governamentais (Abong), acredita que, além do ministro Tarso Genro, da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Social, Luiz Dulci, secretário geral da Presidência, também vai promover o diálogo entre as organizações e o governo. "Mas haverá relacionamentos em vários planos", diz, lembrando que conselhos e fóruns estão sendo criados ou retomados no âmbito dos ministérios.

Segundo Durão, no governo anterior as parcerias com a sociedade civil ficavam só no discurso e, pelos canais ativados agora, há indicações de uma postura diferente. "Nosso maior temor são as restrições que possam ser impostas pela política econômica", diz o secretário da Abong. Ele lembra que no governo FHC os movimentos cansaram de ouvir a frase "temos de ser realistas", sinônimo de falta de recursos para projetos.

A escolha de nomes com trânsito entre as ONGs para o governo aumenta as expectativas. "Temos um excelente relacionamento com o ministro Humberto Costa", diz Betania, da SOS Corpo.

Mas algumas rotas de colisão começam a ser notadas, como a definição da política para transgênicos. Grybowsky, porém, diz que as práticas democráticas do PT foram suficientes para que muitas sugestões das ONGs fossem adotas para a política de combate à fome.

(Valor - 16/01/03)

   
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