Crescem os investimentos privados no Social

Os investimentos que as empresas vêm fazendo em projetos sociais tem crescido de forma acelerada no Brasil nos últimos anos. Estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - Ipea -, no Sul, Sudeste e Nordeste mostra que 59% das empresas pesquisadas nessas regiões fazem algum tipo de investimento social junto a comunidade.

Leia mais:
- Crescem os investimentos privados no Social
- Empresas ajudam a formar empreendedores
- Para empresários, a educação é prioridade

 Crescimento do Terceiro Setor é maior do que esperado
 Programa forma nova geração de líderes para o terceiro setor
 Terceiro setor quer lei de incentivo fiscal
 Alstom cria "cyber café" para incluir funcionários no mundo digital
 Um protesto contra as ONGs que se transformam em negócio
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Crescem os investimentos privados no Social

Os investimentos que as empresas vêm fazendo em projetos sociais tem crescido de forma acelerada no Brasil nos últimos anos. Estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - Ipea -, no Sul, Sudeste e Nordeste mostra que 59% das empresas pesquisadas nessas regiões fazem algum tipo de investimento social junto a comunidade. O que representa quase R$ 5 bilhões em projetos destinados a Educação, Saúde, Alimentação, Esportes e Cidadania, entre outros, tomando-se como base o Produto Interno Bruto (PIB) do País do ano passado. Os dados das regiões Norte e Centro-Oeste ainda estão sendo tabulados, mas a mesma tendência de crescimento vem sendo observada ao longo desses anos.

Na região mais desenvolvida do País, a Sudeste, dois terços das empresas têm, de alguma forma, destinado dinheiro a projetos sociais, o que representa cerca de 0,6% do PIB de 2001 da região, algo ao redor dos R$ 4,15 bilhões. Segundo o Ipea, esses desembolsos representam cerca de 30% dos gastos feitos pelo Governo Federal no campo social, na região Sudeste, excluindo-se os gastos com a Previdência Social.

Números do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas - Gife -, de São Paulo, que reúne grandes fundações e institutos do País, confirmam a expansão dos investimentos sociais. Neste ano, seus 67 associados vão aplicar R$ 600 milhões em programas sociais, um terço a mais do que foi investido em 2001.

Por ser uma ação relativamente nova no País, os dados sobre os investimentos sociais das empresas ainda são muito dispersos. Conforme o Ipea, 44% das empresas não fazem previsão orçamentária de seus gastos no social. Em geral, os recursos são definidos a partir das demandas sociais, do dinheiro em caixa ou dos gastos históricos que vinham sendo realizados. Estudo feito pela Johns Hopkins University mostrou que o os investimentos do Terceiro Setor (inclui Governo, setor privado e ONGs) no Brasil, representaram 1,5% do PIB, em 1995. Nos EUA esses investimentos chegaram a 6,9% e, na Bélgica, a 9,5%.

O que tem levado os empresários a investirem cada vez mais no campo social? Um ato humanitário ou só de interesse? As explicações não são simples. Parte delas podem ser encontradas nas mudanças ocorridas na sociedade brasileira nos anos 90 que contribuíram para mudar a visão dos empresários sobre o seu envolvimento nas questões sociais.

"Com a globalização, preço e qualidade passaram a não ser tão significativos para garantir a venda de produtos como antes. A marca passou a ser um diferencial. As empresas passaram a usar suas ações sociais como alavancas institucionais para seus produtos", diz Anna Maria Medeiros Peliano, coordenadora da Pesquisa Ação Social das Empresas, do Ipea.

Investir no social também pode ajudar na hora de conseguir créditos. No Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES -, um dos fatores que ajudam na análise para liberação de financiamentos é o impacto ambiental do projeto e o balanço social da empresa. O Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, segundo sua assessoria de imprensa, "foi o primeiro fundo de pensão brasileiro a avaliar informações sobre a contribuição social das empresas com os parâmetros de fundos de Investimentos Socialmente Responsáveis (ISR) que incorporam critérios sociais, ambientais e de governança corporativa no processo de seleção dos melhores papéis.

O progressivo aumento dos investimentos em ações sociais do setor privado reflete, em grande parte, a certeza de que o Estado tornou-se incapaz de resolver sozinho as cruciais questões sociais do País. Com isso, cresceram as parcerias entre o poder público e a iniciativa privada. Um exemplo é o Programa Capacitação Solidária, iniciado em 1996, onde já foram investidos R$ 150 milhões, 51% desembolsados pelo setor privado, e que já capacitou profissionalmente 115 mil jovens no País. "Embora isso ainda seja pouco, dadas as desigualdades e dimensões do País, é um grande avanço nas parcerias com o setor privado", diz Célia de Avila, coordenadora nacional do Programa Capacitação Solidária do Governo Federal.

"Se a sociedade continuar se degradando, o mercado diminui. Não vamos ter mais para quem vender", diz Wilberto Luiz Lima Júnior, diretor de Assuntos Corporativos da White Martins, do Rio, maior fabricante de gases industriais do País, e subsidiária da norte-americana Praxair Inc. A White também está engajada em projetos sociais. Entre 2002 e 2003 vai investir R$ 1,5 milhão no programa Agente Jovem na Saúde que atende 1.500 jovens entre 15 a 17 anos em 60 municípios brasileiros. O programa, de âmbito Federal que dá ajuda a 70 mil jovens, iniciado em 2000, quando também foi investido R$ 1,5 milhão, treina esses jovens na área de Saúde, através dos agentes comunitários, capacitando-os para atendimento em comunidades carentes.

Embora o retorno dessas ações sociais seja de difícil mensuração sobre o resultado final das empresas, "fazer o bem também compensa economicamente, pois melhora a relação da empresa com os seus parceiros e a imagem junto aos consumidores", diz Anna Peliano.

É no que aposta a Natura, de São Paulo, que desde 1995 investiu R$ 10,7 milhões em 144 projetos que envolveram 3,6 mil escolas, beneficiando mais de 768 mil crianças.

"Através do Programa Crer para Ver, em parceria com a Abrinq, procuramos contribuir para a melhoria do ensino público do Brasil, sem, no entanto, mudar o foco de que a Educação é um dever do Estado. Nossa atuação é de apoio a projetos que sejam positivos para a criação de políticas educacionais de boa qualidade", ressalta Angela Serino, gerente de Ação Social da Natura. Além desse projeto, a empresa participa de outros cinco financiados, todos os anos, por 10% dos dividendos distribuídos aos acionistas. Hoje a Natura financia 54 projetos sociais.

A Xerox do Brasil é outro exemplo. A empresa renovou no começo do ano o contrato de patrocínio com a Vila Olímpica da Mangueira, no Rio, onde são atendidos 1.500 jovens na área de Esportes. Vai ser investido R$ 1,5 milhão por ano, nos próximos cinco anos - o dobro do que vinha sendo desembolsado - na Vila Olímpica e em novos projetos para a comunidade local.

"Não dá para quantificar em números o retorno desses investimentos. Mas, sem dúvida, eles são enormes para a corporação. Prova disso é que mesmo durante a reestruturação que a Xerox sofre no mundo, estamos dobrando nossos gastos na área social", ressalta José Pinto Monteiro, diretor para assuntos corporativos da Xerox do Brasil.

Segundo Valdemar de Oliveira Neto, do Instituto Ethos, de São Paulo, as ações sociais das empresas vem se profissionalizando, diminuindo as práticas paternalistas. "Só com responsabilidade social vamos conseguir enfrentar os desafios da pobreza, da empregabilidade e da educação", diz Oliveira.

(Gazeta Mercantil - 15/04/02)

   

Empresas ajudam a formar empreendedores

Embraer, Johnson & Johnson, Petrobras e General Motors vão ajudar a prefeitura de São José dos Campos no programa de incentivo à cultura empreendedora nos jovens de baixa renda da cidade. O objetivo é viabilizar novas formas de atividades empresariais, criando postos de trabalho e gerando renda.

O projeto está sendo desenvolvido em conjunto com a ONG norte-americana Junior Achievement, que dá suporte a programas semelhantes em 112 países no mundo. Pioneira no Vale do Paraíba, a General Motors já formou 1500 jovens empreendedores em São José dos Campos e São Caetano do Sul em parceria com a Junior Achievement. A empresa desenvolve o modelo de uma miniempresa, que produz cabides de alumínio dentro do seu complexo industrial sob a administração de 71 jovens estudantes de escolas da rede pública municipal.

"Neste projeto a GM oferece suas instalações, transporte, refeições e toda a orientação técnica necessária para a operação da fábrica de cabides", explica Alcione Viana, coordenadora do projeto na fábrica de São José dos Campos. Além de administrarem a fábrica e a produção dos cabides, os alunos da 8ª série também comercializam o volume produzido e fazem a aplicação dos lucros. "Os cabides têm uma qualidade tão boa que são disputados a dedo pelos funcionários da GM".

A Embraer começou a ministrar esta semana aulas sobre empreendedorismo para 50 alunos de uma escola de São José dos Campos. O curso da Embraer, que será dado para duas turmas de 25 alunos cada, prevê 15 jornadas semanais de 3 horas e meia. A empresa vai disponibilizar 16 executivos voluntários, entre gerentes e diretores nas áreas de finanças, produção, marketing, e recursos humanos. A Embraer elegeu a educação como foco para seus investimentos em projetos sociais.

Criou o Instituto Embraer de Educação e Pesquisa, que também coordena outros três projetos já em andamento: o programa de especialização em engenharia aeronáutica, um curso de mestrado voltado para as áreas de marketing e comércio exterior e o Colégio Eng. Juarez Wanderley, que abriga hoje 200 estudantes de baixa renda.

A empresa investiu R$ 10 milhões na construção do colégio, uma escola de ensino médio, que dá aos alunos, além do ensino gratuito, transporte, alimentação, material didático e uniforme. A jornada diária da escola é de nove horas divididas entre estudo dirigido, projetos especiais e horário de almoço. Segundo o diretor do Instituto Embraer de Educação e Pesquisa, Luís Sérgio Cardoso, até 2004 o Colégio da empresa terá um total de 600 alunos.

Na parceria com a Junior Achievement as empresas entram com os consultores voluntários, o local, transporte e alimentação dos alunos e a prefeitura indica as escolas. O programa São José Empreendedor, idealizado pela prefeitura local quer atingir 10 mil alunos de escolas da rede pública municipal e estadual em três anos. A prefeitura também vai definir um local para centralizar as atividades do programa, que será batizado de Centro do Empreendedor, e realizar uma feira de exposição sobre o assunto em novembro deste ano.

"Não se trata apenas de um projeto de governo. A prefeitura quer instituir a cultura empreendedora nos jovens e prepará-los de forma mais adequada para o mercado de trabalho", afirma o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Ramón Castro Tourón. A idéia, segundo o secretário, é que o programa São José Empreendedor seja, principalmente, uma marca da comunidade.

A Johnson & Johnson decidiu patrocinar quatro turmas de 5ª a 8ª série com 30 alunos cada. Além da formação teórica dos jovens na escola, a empresa vai iniciar no segundo semestre o modelo de miniempresa, em que os alunos aprendem noções teóricas e práticas para se montar e administrar uma empresa e definir um produto. O custo da Johnson & Johnson por aluno, segundo o Gerente de Administração e Assuntos Públicos da empresa, José Cividanes, é de R$ 60.

A Petrobras também encampou a idéia de ensinar jovens a serem empreendedores. A partir do segundo semestre, segundo o gerente de comunicação da Revap, Paul Edman, a refinaria de São José dos Campos pretende iniciar duas turmas de alunos moradores da zona leste da cidade.

A unidade do Ciesp em São José dos Campos também patrocinará uma turma de 30 alunos do Sesi a partir de maio deste ano. "Vamos abrir a oportunidade para as pequenas empresas financiarem, pelo menos, um aluno desta turma", disse José Cividanes, que também é diretor do Ciesp.

A Junior Achievement é uma fundação educativa sem fins lucrativos, criada nos Estados Unidos em 1919. No Brasil, a Junior Achievement está desde 1983. Desde então já beneficiou com seus programas cerca de 258 mil alunos e envolveu 7.217 voluntários e 1.843 escolas. Somente no Estado de São Paulo a fundação trabalha em parceria hoje com 25 empresas, a maioria delas de grande porte. O objetivo da filial de São Paulo para este ano é atingir um total de 5 mil alunos, o dobro do ano passado.

(Gazeta Mercantil - 15/04/02)

   

Para empresários, a educação é prioridade

Embora hoje existam corporações investindo até R$ 10 milhões em educação no País, cerca de 90% dos empresários consideram que o Estado deveria destinar mais recursos para este fim. Entre os grandes grupos empresariais, 53% crêem que eles têm parcela significativa na responsabilidade pela carência educacional no Brasil.

Dos que elegeram o tema como prioridade, 70% investem em educação com o objetivo de adquirir mão-de-obra qualificada. Entre os 30% restantes, 10% agem por responsabilidade social, 8% desejam aumentar a motivação dos funcionários e 2% apostam na melhoria da imagem da corporação. Os demais têm foco na obtenção de incentivos fiscais e cumprimento de obrigações legais.

Este é o principal resultado da primeira etapa da pesquisa acadêmica "Empresários e Educação no Brasil", encomendada pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas/RJ.

Sob o comando da pesquisadora Helena Bomeny, o trabalho inédito propõe o mapeamento do investimento empresarial em educação nos últimos anos. A segunda etapa - segundo Bomeny, prevista para ser divulgada até novembro - relacionará, de forma analítica, o resultado quantitativo dos investimentos em educação e a concentração do mesmo na formação de mão-de-obra qualificada.

Por meio de questionário aplicado em 300 empresas instaladas em oito regiões metropolitanas do País (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Salvador, Recife e Fortaleza), a pesquisa utilizou a metodologia aplicada em survey (mostra aleatória), cujo resultado revela a crescente preocupação do empresário com o capital humano.

Ele está atento ao avanço das novas tecnologias e o descompasso com a educação. De acordo com a Bomeny, os empresários acreditam que a expansão do setor de serviços - um dos principais incorporadores das novas tecnologias - comparado com o nível de conhecimento da mão-de-obra brasileira é exemplo da falência do sistema educacional no País.

Para os empresários, a escola não prepara o cidadão para atividades do setor produtivo. "As empresas estão assustadas com esse descompasso", afirma a pesquisadora. Embora dispostos a investir em educação, os empresários ainda demonstram ter medo de que esta ação possa ser confundida com filantropia. "Ninguém deseja ser identificado com o chamado fordismo. Em contrapartida, todos querem abraçar o conceito de empresa cidadã".

Outro item que chama atenção na pesquisa é a concentração de investimentos na qualificação de mão-de-obra da própria empresa, fenômeno identificado como educação corporativa. Do universo pesquisado, 72,5% investem no público interno. Outros 83% têm projetos de caráter permanente - 67% duram período superior a um ano, 15%, de seis meses a um ano e 17%, inferior a seis meses.

A pesquisa identifica que empresas de pequeno, médio e grande porte fazem investimentos anuais em educação, mas não apresenta o percentual de participação que cada grupo. Diz apenas que são investimentos regulares, ou seja, 56% aplicam até R$ 100 mil da receita, 18% de R$ 100 mil a R$ 500 mil e 26% até R$ 10 milhões.

A década de 90 obteve crescimento significativo dos investimentos empresariais em educação. Do total, 18% começaram a investir entre 1990 e 1994 e outras 46% entre 1995 e 2000. Uma das razões seria o processo de globalização, que foi acentuado ao longo da década passada. "Aumentou a conscientização do empresário motivada, principalmente, por debates de nível internacional realizados no País", conclui Bomeny.

(Gazeta Mercantil - 15/04/02)