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Crescem os investimentos privados no Social
Os
investimentos que as empresas vêm fazendo em projetos sociais
tem crescido de forma acelerada no Brasil nos últimos anos.
Estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
- Ipea -, no Sul, Sudeste e Nordeste mostra que 59% das empresas
pesquisadas nessas regiões fazem algum tipo de investimento
social junto a comunidade. O que representa quase R$ 5 bilhões
em projetos destinados a Educação, Saúde, Alimentação,
Esportes e Cidadania, entre outros, tomando-se como base o Produto
Interno Bruto (PIB) do País do ano passado. Os dados das
regiões Norte e Centro-Oeste ainda estão sendo tabulados,
mas a mesma tendência de crescimento vem sendo observada ao
longo desses anos.
Na região
mais desenvolvida do País, a Sudeste, dois terços
das empresas têm, de alguma forma, destinado dinheiro a projetos
sociais, o que representa cerca de 0,6% do PIB de 2001 da região,
algo ao redor dos R$ 4,15 bilhões. Segundo o Ipea, esses
desembolsos representam cerca de 30% dos gastos feitos pelo Governo
Federal no campo social, na região Sudeste, excluindo-se
os gastos com a Previdência Social.
Números
do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas - Gife
-, de São Paulo, que reúne grandes fundações
e institutos do País, confirmam a expansão dos investimentos
sociais. Neste ano, seus 67 associados vão aplicar R$ 600
milhões em programas sociais, um terço a mais do que
foi investido em 2001.
Por ser uma
ação relativamente nova no País, os dados sobre
os investimentos sociais das empresas ainda são muito dispersos.
Conforme o Ipea, 44% das empresas não fazem previsão
orçamentária de seus gastos no social. Em geral, os
recursos são definidos a partir das demandas sociais, do
dinheiro em caixa ou dos gastos históricos que vinham sendo
realizados. Estudo feito pela Johns Hopkins University mostrou que
o os investimentos do Terceiro Setor (inclui Governo, setor privado
e ONGs) no Brasil, representaram 1,5% do PIB, em 1995. Nos EUA esses
investimentos chegaram a 6,9% e, na Bélgica, a 9,5%.
O que tem levado
os empresários a investirem cada vez mais no campo social?
Um ato humanitário ou só de interesse? As explicações
não são simples. Parte delas podem ser encontradas
nas mudanças ocorridas na sociedade brasileira nos anos 90
que contribuíram para mudar a visão dos empresários
sobre o seu envolvimento nas questões sociais.
"Com a
globalização, preço e qualidade passaram a
não ser tão significativos para garantir a venda de
produtos como antes. A marca passou a ser um diferencial. As empresas
passaram a usar suas ações sociais como alavancas
institucionais para seus produtos", diz Anna Maria Medeiros
Peliano, coordenadora da Pesquisa Ação Social das
Empresas, do Ipea.
Investir no
social também pode ajudar na hora de conseguir créditos.
No Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social -
BNDES -, um dos fatores que ajudam na análise para liberação
de financiamentos é o impacto ambiental do projeto e o balanço
social da empresa. O Petros, fundo de pensão dos funcionários
da Petrobras, segundo sua assessoria de imprensa, "foi o primeiro
fundo de pensão brasileiro a avaliar informações
sobre a contribuição social das empresas com os parâmetros
de fundos de Investimentos Socialmente Responsáveis (ISR)
que incorporam critérios sociais, ambientais e de governança
corporativa no processo de seleção dos melhores papéis.
O progressivo
aumento dos investimentos em ações sociais do setor
privado reflete, em grande parte, a certeza de que o Estado tornou-se
incapaz de resolver sozinho as cruciais questões sociais
do País. Com isso, cresceram as parcerias entre o poder público
e a iniciativa privada. Um exemplo é o Programa Capacitação
Solidária, iniciado em 1996, onde já foram investidos
R$ 150 milhões, 51% desembolsados pelo setor privado, e que
já capacitou profissionalmente 115 mil jovens no País.
"Embora isso ainda seja pouco, dadas as desigualdades e dimensões
do País, é um grande avanço nas parcerias com
o setor privado", diz Célia de Avila, coordenadora nacional
do Programa Capacitação Solidária do Governo
Federal.
"Se a sociedade
continuar se degradando, o mercado diminui. Não vamos ter
mais para quem vender", diz Wilberto Luiz Lima Júnior,
diretor de Assuntos Corporativos da White Martins, do Rio, maior
fabricante de gases industriais do País, e subsidiária
da norte-americana Praxair Inc. A White também está
engajada em projetos sociais. Entre 2002 e 2003 vai investir R$
1,5 milhão no programa Agente Jovem na Saúde que atende
1.500 jovens entre 15 a 17 anos em 60 municípios brasileiros.
O programa, de âmbito Federal que dá ajuda a 70 mil
jovens, iniciado em 2000, quando também foi investido R$
1,5 milhão, treina esses jovens na área de Saúde,
através dos agentes comunitários, capacitando-os para
atendimento em comunidades carentes.
Embora o retorno
dessas ações sociais seja de difícil mensuração
sobre o resultado final das empresas, "fazer o bem também
compensa economicamente, pois melhora a relação da
empresa com os seus parceiros e a imagem junto aos consumidores",
diz Anna Peliano.
É no
que aposta a Natura, de São Paulo, que desde 1995 investiu
R$ 10,7 milhões em 144 projetos que envolveram 3,6 mil escolas,
beneficiando mais de 768 mil crianças.
"Através
do Programa Crer para Ver, em parceria com a Abrinq, procuramos
contribuir para a melhoria do ensino público do Brasil, sem,
no entanto, mudar o foco de que a Educação é
um dever do Estado. Nossa atuação é de apoio
a projetos que sejam positivos para a criação de políticas
educacionais de boa qualidade", ressalta Angela Serino, gerente
de Ação Social da Natura. Além desse projeto,
a empresa participa de outros cinco financiados, todos os anos,
por 10% dos dividendos distribuídos aos acionistas. Hoje
a Natura financia 54 projetos sociais.
A Xerox do Brasil
é outro exemplo. A empresa renovou no começo do ano
o contrato de patrocínio com a Vila Olímpica da Mangueira,
no Rio, onde são atendidos 1.500 jovens na área de
Esportes. Vai ser investido R$ 1,5 milhão por ano, nos próximos
cinco anos - o dobro do que vinha sendo desembolsado - na Vila Olímpica
e em novos projetos para a comunidade local.
"Não
dá para quantificar em números o retorno desses investimentos.
Mas, sem dúvida, eles são enormes para a corporação.
Prova disso é que mesmo durante a reestruturação
que a Xerox sofre no mundo, estamos dobrando nossos gastos na área
social", ressalta José Pinto Monteiro, diretor para
assuntos corporativos da Xerox do Brasil.
Segundo Valdemar
de Oliveira Neto, do Instituto Ethos, de São Paulo, as ações
sociais das empresas vem se profissionalizando, diminuindo as práticas
paternalistas. "Só com responsabilidade social vamos
conseguir enfrentar os desafios da pobreza, da empregabilidade e
da educação", diz Oliveira.
(Gazeta Mercantil
- 15/04/02)
Empresas ajudam a formar empreendedores
Embraer, Johnson
& Johnson, Petrobras e General Motors vão ajudar a prefeitura
de São José dos Campos no programa de incentivo à
cultura empreendedora nos jovens de baixa renda da cidade. O objetivo
é viabilizar novas formas de atividades empresariais, criando
postos de trabalho e gerando renda.
O projeto está
sendo desenvolvido em conjunto com a ONG norte-americana Junior
Achievement, que dá suporte a programas semelhantes em 112
países no mundo. Pioneira no Vale do Paraíba, a General
Motors já formou 1500 jovens empreendedores em São
José dos Campos e São Caetano do Sul em parceria com
a Junior Achievement. A empresa desenvolve o modelo de uma miniempresa,
que produz cabides de alumínio dentro do seu complexo industrial
sob a administração de 71 jovens estudantes de escolas
da rede pública municipal.
"Neste
projeto a GM oferece suas instalações, transporte,
refeições e toda a orientação técnica
necessária para a operação da fábrica
de cabides", explica Alcione Viana, coordenadora do projeto
na fábrica de São José dos Campos. Além
de administrarem a fábrica e a produção dos
cabides, os alunos da 8ª série também comercializam
o volume produzido e fazem a aplicação dos lucros.
"Os cabides têm uma qualidade tão boa que são
disputados a dedo pelos funcionários da GM".
A Embraer começou
a ministrar esta semana aulas sobre empreendedorismo para 50 alunos
de uma escola de São José dos Campos. O curso da Embraer,
que será dado para duas turmas de 25 alunos cada, prevê
15 jornadas semanais de 3 horas e meia. A empresa vai disponibilizar
16 executivos voluntários, entre gerentes e diretores nas
áreas de finanças, produção, marketing,
e recursos humanos. A Embraer elegeu a educação como
foco para seus investimentos em projetos sociais.
Criou o Instituto
Embraer de Educação e Pesquisa, que também
coordena outros três projetos já em andamento: o programa
de especialização em engenharia aeronáutica,
um curso de mestrado voltado para as áreas de marketing e
comércio exterior e o Colégio Eng. Juarez Wanderley,
que abriga hoje 200 estudantes de baixa renda.
A empresa investiu
R$ 10 milhões na construção do colégio,
uma escola de ensino médio, que dá aos alunos, além
do ensino gratuito, transporte, alimentação, material
didático e uniforme. A jornada diária da escola é
de nove horas divididas entre estudo dirigido, projetos especiais
e horário de almoço. Segundo o diretor do Instituto
Embraer de Educação e Pesquisa, Luís Sérgio
Cardoso, até 2004 o Colégio da empresa terá
um total de 600 alunos.
Na parceria
com a Junior Achievement as empresas entram com os consultores voluntários,
o local, transporte e alimentação dos alunos e a prefeitura
indica as escolas. O programa São José Empreendedor,
idealizado pela prefeitura local quer atingir 10 mil alunos de escolas
da rede pública municipal e estadual em três anos.
A prefeitura também vai definir um local para centralizar
as atividades do programa, que será batizado de Centro do
Empreendedor, e realizar uma feira de exposição sobre
o assunto em novembro deste ano.
"Não
se trata apenas de um projeto de governo. A prefeitura quer instituir
a cultura empreendedora nos jovens e prepará-los de forma
mais adequada para o mercado de trabalho", afirma o secretário
municipal de Desenvolvimento Econômico, Ramón Castro
Tourón. A idéia, segundo o secretário, é
que o programa São José Empreendedor seja, principalmente,
uma marca da comunidade.
A Johnson &
Johnson decidiu patrocinar quatro turmas de 5ª a 8ª série
com 30 alunos cada. Além da formação teórica
dos jovens na escola, a empresa vai iniciar no segundo semestre
o modelo de miniempresa, em que os alunos aprendem noções
teóricas e práticas para se montar e administrar uma
empresa e definir um produto. O custo da Johnson & Johnson por
aluno, segundo o Gerente de Administração e Assuntos
Públicos da empresa, José Cividanes, é de R$
60.
A Petrobras
também encampou a idéia de ensinar jovens a serem
empreendedores. A partir do segundo semestre, segundo o gerente
de comunicação da Revap, Paul Edman, a refinaria de
São José dos Campos pretende iniciar duas turmas de
alunos moradores da zona leste da cidade.
A unidade do
Ciesp em São José dos Campos também patrocinará
uma turma de 30 alunos do Sesi a partir de maio deste ano. "Vamos
abrir a oportunidade para as pequenas empresas financiarem, pelo
menos, um aluno desta turma", disse José Cividanes,
que também é diretor do Ciesp.
A Junior Achievement
é uma fundação educativa sem fins lucrativos,
criada nos Estados Unidos em 1919. No Brasil, a Junior Achievement
está desde 1983. Desde então já beneficiou
com seus programas cerca de 258 mil alunos e envolveu 7.217 voluntários
e 1.843 escolas. Somente no Estado de São Paulo a fundação
trabalha em parceria hoje com 25 empresas, a maioria delas de grande
porte. O objetivo da filial de São Paulo para este ano é
atingir um total de 5 mil alunos, o dobro do ano passado.
(Gazeta Mercantil
- 15/04/02)
Para empresários, a educação é prioridade
Embora hoje
existam corporações investindo até R$ 10 milhões
em educação no País, cerca de 90% dos empresários
consideram que o Estado deveria destinar mais recursos para este
fim. Entre os grandes grupos empresariais, 53% crêem que eles
têm parcela significativa na responsabilidade pela carência
educacional no Brasil.
Dos que elegeram
o tema como prioridade, 70% investem em educação com
o objetivo de adquirir mão-de-obra qualificada. Entre os
30% restantes, 10% agem por responsabilidade social, 8% desejam
aumentar a motivação dos funcionários e 2%
apostam na melhoria da imagem da corporação. Os demais
têm foco na obtenção de incentivos fiscais e
cumprimento de obrigações legais.
Este é
o principal resultado da primeira etapa da pesquisa acadêmica
"Empresários e Educação no Brasil",
encomendada pelo Centro de Pesquisa e Documentação
de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação
Getúlio Vargas/RJ.
Sob o comando
da pesquisadora Helena Bomeny, o trabalho inédito propõe
o mapeamento do investimento empresarial em educação
nos últimos anos. A segunda etapa - segundo Bomeny, prevista
para ser divulgada até novembro - relacionará, de
forma analítica, o resultado quantitativo dos investimentos
em educação e a concentração do mesmo
na formação de mão-de-obra qualificada.
Por meio de
questionário aplicado em 300 empresas instaladas em oito
regiões metropolitanas do País (São Paulo,
Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Salvador,
Recife e Fortaleza), a pesquisa utilizou a metodologia aplicada
em survey (mostra aleatória), cujo resultado revela a crescente
preocupação do empresário com o capital humano.
Ele está
atento ao avanço das novas tecnologias e o descompasso com
a educação. De acordo com a Bomeny, os empresários
acreditam que a expansão do setor de serviços - um
dos principais incorporadores das novas tecnologias - comparado
com o nível de conhecimento da mão-de-obra brasileira
é exemplo da falência do sistema educacional no País.
Para os empresários,
a escola não prepara o cidadão para atividades do
setor produtivo. "As empresas estão assustadas com esse
descompasso", afirma a pesquisadora. Embora dispostos a investir
em educação, os empresários ainda demonstram
ter medo de que esta ação possa ser confundida com
filantropia. "Ninguém deseja ser identificado com o
chamado fordismo. Em contrapartida, todos querem abraçar
o conceito de empresa cidadã".
Outro item que
chama atenção na pesquisa é a concentração
de investimentos na qualificação de mão-de-obra
da própria empresa, fenômeno identificado como educação
corporativa. Do universo pesquisado, 72,5% investem no público
interno. Outros 83% têm projetos de caráter permanente
- 67% duram período superior a um ano, 15%, de seis meses
a um ano e 17%, inferior a seis meses.
A pesquisa identifica
que empresas de pequeno, médio e grande porte fazem investimentos
anuais em educação, mas não apresenta o percentual
de participação que cada grupo. Diz apenas que são
investimentos regulares, ou seja, 56% aplicam até R$ 100
mil da receita, 18% de R$ 100 mil a R$ 500 mil e 26% até
R$ 10 milhões.
A década
de 90 obteve crescimento significativo dos investimentos empresariais
em educação. Do total, 18% começaram a investir
entre 1990 e 1994 e outras 46% entre 1995 e 2000. Uma das razões
seria o processo de globalização, que foi acentuado
ao longo da década passada. "Aumentou a conscientização
do empresário motivada, principalmente, por debates de nível
internacional realizados no País", conclui Bomeny.
(Gazeta Mercantil
- 15/04/02)
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