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Sem métodos de avaliação, programas perdem
foco
As empresas
que investem em projetos sociais pela melhoria da qualidade do ensino
nem sempre conduzem o planejamento e monitoram os resultados com
o mesmo cuidado e profissionalismo que são utilizados quando
lançam um serviço ou produto no mercado. "Qualquer
investimento social deve ter um papel transformador na comunidade;
e isso a gente não pode perder de vista", recomenda
José Paulo Martins, diretor do Instituto Gerdau, que mantém
cerca de 500 programas nas áreas de educação
e situações emergenciais.
É raro, porém, ver investidor social
monitorando o investimento. Em geral a avaliação não
é feita por auditores externos que possam trazer uma visão
mais independente, conforme revela a última pesquisa do Grupo
de Empresas e Fundações (Gife).
Embora não seja o caso de mensurar o lucro
financeiro de um projeto, é sempre possível avaliar
o impacto que o projeto provocou ou não. "É uma
pena ver tantas empresas com tanta competência nos negócios
não terem a mesma preocupação com o retorno
de seus investimentos sociais", diz Martins.
A observação de Martins talvez explique
por que os resultados dos programas sociais com a finalidade de
melhorar a qualidade do ensino são em muitos casos tímidos.
Embora 85% das fundações e institutos ligados a empresas
de notória competência invistam milhões de reais
em recursos na educação, os resultados são
decepcionantes, conforme constata Cenise Vicente, coordenadora do
escritório do Unicef em São Paulo. "As avaliações
da Prova Brasil, do Saeb, do Enem, só comprovam cientificamente
aquilo que se vê a olho nu - a dificuldade que as crianças
têm de aprender".
Esses resultados refletem também no Pisa,
o programa de avaliação internacional da escola, um
dos dados que compõem o Índice de Desenvolvimento
Humano (IDH). Segundo Cenise esses indicadores apontam algumas fraquezas:
pequena duração da jornada escolar; falta de estímulo
à leitura; formação sofrível dos educadores;
falta de educação na primeira infância; baixa
escolaridade dos pais; baixo padrão de exigência. Ela
acredita que as empresas têm hoje uma grande oportunidade
de se envolver com investimentos públicos. A primeira delas
é o Fundo da Infância e Adolescência (FIA), caso
haja interesse pelo destino dos impostos aplicados na educação.
"Acompanhando a qualidade da execução e a qualidade
do investimento, cria-se uma massa crítica dentro do mundo
empresarial, que pode começar a mudar esse quadro",
diz.
"É incrível que tanto dinheiro
descarregado em tantos projetos das fundações não
mexam nos resultados", diz o vice-presidente da Fundação
Itaú Social, Antonio Matias. Por questionar o fato de cada
fundação de empresa escolher seu próprio projeto
sem formar uma massa crítica e sem buscar um entrosamento
entre o poder público e o conjunto dos protagonistas, muitos
empresários aderiram ao Compromisso Todos pela Educação,
que traça metas a serem alcançadas gradativamente
até 2022.
Estabelecer parcerias e identificar as melhores
práticas e experiências bem sucedidas são medidas
que podem representar a arrancada para congregar todos os investimentos
sociais na direção da educação de melhor
qualidade. "O empresário precisa entender que onde investe
dinheiro deve obter resultados, ainda que o projeto seja da área
social", diz Matias.
Se houvesse essa preocupação, Matias
acredita que a educação no Brasil estaria em outro
patamar. Por falta de metodologias de mensuração do
retorno das ações sociais, a Fundação
Itaú acionou os engenheiros da instituição
para avaliar um programa desenvolvido desde 1995 em 48 estabelecimentos
de ensino. Com uma permanência maior na escola, as crianças
beneficiadas pelo programa entraram mais tarde no mercado de trabalho.
Em compensação, ganharam mais no futuro. A metodologia
está à disposição de interessados em
mensurar seus investimentos até a fase final, incluindo a
perspectiva de entrada no mercado dos jovens que permaneceram na
escola por mais tempo. "O acompanhamento dos processos e a
certificação dos gastos são uma forma de iniciar
uma cultura de avaliação", diz Matias.
A preocupação com a qualidade vem
ganhando importância rapidamente, na opinião de Carminha
Brant, coordenadora geral do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação,
Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). "A
temática ganhou importância e os empresários
perceberam que as ações devem ter maior efetividade,
garantir mudanças e influir nas políticas públicas."
Atualmente, cerca de 50 milhões de crianças
e jovens estão no ensino básico, fundamental e médio
- "e não estamos conseguindo fazer com que eles aprendam;
não estamos dando conta", lamenta Maju Azevedo, coordenadora
de área de educação e comunidade do Cenpec.
Desse contingente, 97% estão distribuídos
por 180 mil escolas públicas no país inteiro, onde
são atendidos por 2,5 milhões de professores. De todo
orçamento da União 25% são destinados à
educação, além dos investimentos da área
privada, que chegam a cerca de R$ 124 milhões em 2005, segundo
informação de 68 dos 101 associados do Gife. No entanto,
o Gife acredita que os recursos que vêm da iniciativa privada
devam chegar a, pelo menos, o dobro.
Muito esforço para tão pouco resultado
faz parte do processo, na interpretação de Luís
Norberto Pascoal, presidente da DPaschoal e da Fundação
Educar DPaschoal. "Responsabilidade social não nasceu
de nenhuma estratégia, por isso ainda estamos no campo da
tentativa e erro", diz ele. Há empresas que entraram
na RSE pela porta da filantropia, fazem um trabalho pequeno, pontual
e geralmente sem resultados, segundo Pascoal. "Quando crescem,
cometem outro erro: filantropia em escala industrial, um expediente
que cria dependência".
Há outras portas de entrada no investimento
social, segundo Pascoal - é quando a RSE se transforma em
marketing. "A empresa costuma gastar uma fortuna em relatórios
sociais que nem o diretor lê", diz ele ainda. Numa terceira
versão, o investimento social é feito numa situação
sem saída: a empresa se vê pressionada pelo cliente,
pela imprensa, pelos fornecedores, e acaba fazendo qualquer coisa.
(Valor Econômico)
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