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Prefeitura pagou cursos para "fantasmas"
A Prefeitura
de São Paulo pagou em 2006 R$ 6,4 milhões a ONGs contratadas
para oferecer capacitação profissional a 6.600 jovens
carentes, mas os cursos atenderam apenas 4.654 alunos. O valor pago
a mais pelos ""fantasmas" chega a R$ 2 milhões,
ou 29,5% do contrato.
O desperdício
de verba pública ocorreu no maior projeto de treinamento
lançado pelo ex-prefeito e hoje governador, José Serra
(PSDB), em 2005, o Capacita Sampa, criado para treinar e inserir
jovens no mercado de trabalho. Parte do programa ocorreu na gestão
Gilberto Kassab (DEM, ex-PFL).
A Secretaria
do Trabalho, responsável pelo programa, só reconheceu
que o número de alunos foi menor do que o estabelecido nos
contratos depois que a Folha a questionou sobre a discrepância
na quantidade de alunos -a reportagem visitou sete endereços
que constavam nos contratos como locais de cursos e analisou as
16.647 páginas do processo.
Antes desse
questionamento a secretaria havia informado que o número
de jovens atendidos pelas ONGs havia sido praticamente o mesmo do
previsto no contrato: 6.096 -diferença de apenas 7,6%. Depois
a pasta reconheceu que, na verdade, foram só 4.654 alunos.
"Foi a equipe técnica [que passou o número errado].
Considere esta última [4.654 como o número correto].
Aí, eu precisaria averiguar [o que ocorreu]", disse
o ex-coordenador do Capacita Sampa e atual secretário-adjunto
da Secretaria do Trabalho, Carlos Alexandre Leite Nascimento.
O prejuízo
para os cofres públicos ocorreu porque os contratos firmados
com as ONGs previam o pagamento do valor integral independentemente
do número de alunos que realmente fossem aos cursos.
Isso aconteceu
apesar de a licitação aberta ter especificado o número
de alunos por lote. Os alunos eram indicados pela própria
prefeitura. A administração alega que não conseguiu
mandar o número de alunos previstos para as ONGs, e que elas
não poderiam ser responsabilizadas por isso.
Pelo contrato,
cabia às ONGs obter salas para as aulas, fornecer apostilas,
professores e lanches aos jovens. Como o número de alunos
foi bem menor, as ONGs acabaram gastando menos e lucrando mais.
O prejuízo ficou todo com a prefeitura.
Uma das ONGs,
a Sehal (Sindicato das Empresas de Hospedagem e Alimentação
do Grande ABC), que recebeu R$ 858 mil para treinar 880 alunos,
só teve 420 alunos inscritos em seus cursos, menos da metade.
Até hoje
a prefeitura não fez uma avaliação dos resultados
do programa. Pelos contratos, além de capacitar os jovens
carentes, as ONGs teriam a obrigação de conseguir
emprego para no mínimo 40% deles. Caso o percentual fosse
menor, poderiam sofrer uma multa de 10% sobre o valor do contrato.
Ou seja, além
de gastar com cursos com um número de alunos bem abaixo do
previsto, a prefeitura nem sabe qual foi o resultado do investimento
de R$ 6,4 milhões no programa.
Em avaliações parciais, feitas com alunos de quatro
ONGs, o menor número de inserção foi de 11%
e o maior, 23,4%, todos fora da exigência contratual.
O número
verdadeiro de jovens que freqüentaram as aulas pode ser ainda
menor do que os 4.665 oficiais da prefeitura.
O Instituto
Santa Mônica, contratado para dar aulas de assistência
de viagem e administração, enviou à secretaria
relatórios de presença e de entrega de certificados
sobre 47 jovens em curso na zona leste.
Em entrevista
gravada à Folha, entretanto, a coordenadora do curso Nádia
Germana dos Santos e a professora Líbia Pinheiro Cardoso
disseram que freqüentaram e concluíram o estágio
somente 28 jovens.
Em 2006, relatórios
internos da Secretaria do Trabalho já apontavam que parte
dos contratos com as ONGs vinha sendo descumprida.
Após
vistorias nos locais dos cursos, em 5 de junho, o coordenador-adjunto
da secretaria Tito Valencia Monardez, alertava, em ofício
interno, que havia ""alguns problemas sérios"
, como ""turmas não instaladas" por uma das
ONGs.
Os relatórios
dizem que os alunos não recebiam apostilas nem material e
que, em um dos locais, as aulas eram dadas em uma garagem desativada.
Em visita em
ONG instalada na rua Manoel Rodrigues Santiago, 1.525, Itajuíbe
(zona leste), local de um curso para 28 alunos, a reportagem presenciou
carteiras quase sucateadas. Na sala não havia janelas.
Apesar dos problemas,
nenhum valor foi estornado do pagamento às ONGs, de acordo
com a própria secretaria.
(Folha de
S. Paulo)
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