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Negócios se multiplicam no terceiro setor
Mais que desafio,
trabalhar para o terceiro setor tem sido um grande filão
para a iniciativa privada. Na área acadêmica, os cursos
se multiplicam na mesma medida das demandas das organizações
sociais. São cerca de 250 mil entidades formalmente registradas
- 100 mil só na Grande São Paulo, conforme dados do
Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis).
Leia
mais:
- Negócios se multiplicam no terceiro setor
- Vaga quase garantida compensa salário baixo
- Captador precisa angariar recursos e gerar confiança
Negócios se multiplicam no terceiro setor
As cinco mil
bonecas, quatro mil cartões e mil calendários que
o Grupo Primavera, de Campinas (SP), confecciona por ano já
saem da oficina com a logomarca das empresas que os oferecem como
brindes a clientes e fornecedores. A atividade rende cerca de R$
100 mil para o Primavera e a empresa associa seu nome a uma causa
socialmente relevante. Mas a movimentação que o negócio
provoca na economia vai muito além.
Para confeccionar
as bonecas e os produtos que geram renda para tocar seu projeto
de inserção social e profissional, a entidade mobiliza
indústrias de acessórios, têxteis, de malharia,
embalagem, papel, lanifícios. Além disso, a atividade
complementa a renda de 70 famílias que costuram os vestidos
e os sapatinhos das bonecas. "A cadeia não pára
por aí", vai enumerando Jane Sieh, que idealizou e fundou
o Primavera em 1981 dirigido para meninas entre 11 e 16 anos com
propósito sócio-educativo.
A atividade
envolve ainda setores como comunicação, publicidade,
administração, contabilidade, auditoria, manutenção.
Para tratar do projeto social propriamente dito, o Primavera movimenta
um outro contingente de cerca de 50 profissionais que trabalham
em sistema de terceirização: psicólogos, assistentes
sociais, pedagogos, orientadores, professores. "O terceiro
setor é desafiante", entusiasma-se Jane. "Gera
emprego e sustentabilidade sem perder de vista o aspecto humano."
Mais que desafio,
trabalhar para o terceiro setor tem sido um grande filão
para a iniciativa privada. Na área acadêmica, os cursos
se multiplicam na mesma medida das demandas das organizações
sociais. E estas também não param de se multiplicar.
São cerca de 250 mil entidades formalmente registradas -
100 mil só na Grande São Paulo, conforme dados do
Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis).
O setor movimenta
cerca de R$ 12 bilhões por ano e emprega perto de 1,2 milhão
de pessoas, além de atrair 1,5 milhão de voluntários.
O universo de doadores no Brasil é de quase 15 milhões,
responsáveis por um volume que bate no R$ 1,1 bilhão,
segundo dados do Conselho da Comunidade Solidária.
"Esses
números tendem a crescer", preconiza Marcos Kisil, presidente
do Idis. "Na medida em que as instituições se
profissionalizam, aumentam também as doações
e o contingente de interessados em se capacitar para trabalhar no
setor." Ainda segundo Kisil, há também muito
espaço para expandir negócios e postos de trabalho.
"No mundo do terceiro setor, o espaço do voluntariado
transforma-se em espaço profissional", diz. "Quem
entra como voluntário muitas vezes acaba contratado."
Trabalho não
falta. Ao final de uma campanha para a loja de brinquedos Ri Happy
em colaboração com a Fundação Dorina
Nowill, a agência de publicidade Lage Magy descobriu que o
filão da parceria é muito mais atrativo do que imaginava.
Para cada brinquedo vendido, em dezembro de 2001, a loja doaria
uma porcentagem para a Fundação.
O valor arrecadado
chegou a R$ 200 mil e foi entregue à Fundação.
Mas o que se comemorou mesmo foi o que veio na esteira da campanha.
"A Ri Happy vendeu mais brinquedos e a Lage Magy conquistou
onze clientes que vieram via Dorina Nowill", conta Joice Malavolta,
diretora de atendimento da agência.
Todos saem ganhando.
A campanha McDia Feliz, da rede McDonald's, cujos franqueadores
doam um dia por ano do resultado da venda do sanduíche Big
Mac em benefício de entidades que tratam crianças
e adolescentes com câncer, rendeu R$ 7,4 milhões em
2002 com a venda de 1,6 milhão de unidades.
Nesse dia, todos
trabalham de graça para o Big Mac: franqueados, fornecedores,
estudantes que vendem tíquetes antecipadamente e até
acabam fazendo competição entre as escolas. Em função
da causa, o Big Mac, que já é o carro-chefe da rede,
vende muito mais em dia de campanha. Mas a ação é
residual e os outros produtos da lanchonete também registram
grandes vendas. A campanha bate recordes a cada ano e o McDonald's
Brasil é considerado o que mais cresce em arrecadação.
Crescimento,
na AACD, segundo o presidente Márcio Goldfarb, pode ser medido
pela abertura de novos postos de trabalho na entidade nos últimos
cinco anos. "Eram 680 em 1997. Hoje são 1.300",
diz ele. Mas crescimento, na AACD, é calculado também
pelo espaço físico. "Há cinco anos, a
entidade tinha 14 mil m2 de área construída. Hoje
estamos atingindo 35 mil m2", continua Goldfarb. "Mas
o maior crescimento mesmo foi ter passado de 340 mil atendimentos
em 1997 para 850 mil em 2002."
Os projetos
das instituições não-lucrativas são
sempre atraentes e o estilo de gestão, um desafio para profissionais
em busca de oportunidades. A migração para o terceiro
setor não é rara e vem sendo feita pelas portas dos
cursos de especialização e capacitação.
Para quem já trabalha nas não-lucrativas e quer se
aperfeiçoar na área administrativa, considerada como
uma das maiores carências do setor, o curso da Associação
de Ex-Alunos de MBA da Fundação Instituto de Administração
da USP é classificado pela comunidade como um dos mais conceituados.
O Gesc (Gestão
para Entidades da Sociedade Civil), como é conhecido o curso,
conta com dez professores, três palestrantes e 15 consultores.
São 120 horas de aula e as inscrições só
podem ser feitas por duplas de participantes da mesma instituição.
"Duas pessoas sempre têm mais condições
de levar mudanças para a instituição",
explica Agnes Ezabella, presidente da Associação dos
MBAs da USP.
Essa guinada
em direção à profissionalização,
que já caracteriza uma parte expressiva do terceiro setor,
tem atraído empresas privadas com um olho na responsabilidade
social e outro em oportunidades de negócios. A Full Jazz
Comunidade, um braço da agência de publicidade com
sede em São Paulo, foi criada para fazer a ligação
entre a iniciativa privada que quer investir numa boa causa e a
instituição que tem uma boa causa à espera
de um investimento.
Clientes que
querem associar seus nomes ao terceiro setor são divididos
em três tipos dentro da Full Jazz Comunidade: empresas que
já praticam a responsabilidade social, mas querem estruturar
e direcionar melhor o investimento; aquelas que já fazem
bem, mas querem comunicar melhor para o consumidor o que estão
fazendo; e aquelas que buscam investir em não-lucrativas
que tenham identificação com seus produtos.
"O que
fazemos é criar valor para a marca", explica José
Antônio Merchert, coordenador da Full Jazz Comunidade. "Utilizamos
os incentivos fiscais existentes para incrementar projetos sócio-culturais",
diz ele. "Nosso trabalho é de prospecção.
Quando promovemos o encontro entre a empresa e a entidade, fazemos
com que um alavanque o outro." Merchert revela ainda que a
Full Jazz Comunidade acaba sempre gerando bons negócios para
a Full Jazz.
Além
de abrir espaço para oportunidades de negócios, o
terceiro setor é uma grande alternativa de trabalho, diz
de Sérgio de Oliveira e Silva, coordenador da Universidade
Aberta do Terceiro Setor, do Senac. "Quanto mais parcerias,
mais trabalho e mais negócios."
Para a iniciativa
privada que se associa às organizações sociais,
o lucro dessa união é mais palpável. Segundo
Maurício Machado, que prepara uma empresa de consultoria
para atender empresas que querem fazer o bem com interesses mercadológicos
e fiscais, os resultados são medidos na forma de maior visibilidade,
mais vendas, mídia espontânea, bom trânsito na
comunidade. "É assim que o negócio fica bom para
todos."
(Valor -
21/11/02)
Vaga quase garantida compensa salário baixo
Os salários
nem sempre são atraentes - cerca de 30% mais baixos em relação
ao mercado. Mas as vagas quase sempre são garantidas. Tanto
que as instituições de ensino superior, e até
as técnicas, vêm multiplicando cursos para profissionais
da iniciativa privada interessados em migrar para o terceiro setor.
Na prestigiada
Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo,
o primeiro curso dirigido ao setor, ainda em 1995, oferecia 40 vagas
e obteve 35 inscrições. Em 2002, já com três
cursos, 130 candidatos ficaram em fila de espera na GV.
No Senac, o
primeiro curso de gestores reuniu 80 interessados em 1996, quando
a Universidade Aberta do Terceiro Setor iniciou as atividades. Em
2002, até agosto, 2.633 pessoas já haviam passado
pelos 20 cursos oferecidos pela entidade. Esse volume deve subir
para 4 mil até o final do ano, segundo a direção
do Senac.
A FGV oferece
os cursos Administração para Organização
do Terceiro Setor (R$ 1.820), Princípios e Práticas
da Responsabilidade Social nas Empresas (R$ 3.040) e Captação
de Recursos (R$ 1.050). Informações pelo telefone
(11) 3258-4720.
A Universidade
de São Paulo criou o MBA: Gestão e Empreendedorismo
Social, curso de um ano voltado para gestores que atuam na área
social ou empresas com atuação social. Preço:
R$ 22.900 à vista. Informações: (11) 3815-7376.
A Associação
dos Ex-Alunos dos MBAs da USP oferece curso de Gestão para
Entidades da Sociedade Civil (Gesc), que custa R$ 500. Exige a participação
de duas pessoas por entidade. Informações: (11) 3733-2125.
A Universidade
Aberta do terceiro Setor, do Senac, tem 20 cursos de gestão,
gerenciamento de projetos, aspectos jurídicos, formação
de formadores, captação de recursos. Os preços
variam entre R$ 50 e R$ 400. Informações: (11) 6647-5151.
Já a
Escola Superior de Propaganda e Marketing ensina Responsabilidade
Social Empresarial (R$ 3.000) e Administração, Comunicação
e Marketing (R$ 450). Informações pelo telefone (11)
5085-4600.
Gestão
do Terceiro Setor (R$ 594 mensais) é o curso da Anhembi-Morumbi,
que dura 2 anos. Informações: 0800159020.
O Idis (tel.
(11) 304-4686), o Instituto Mackenzie (11-5091-7060) e o Centro
Nacional de Estudos e Projetos (21-2223-0290) também têm
um série de cursos na área do terceiro setor.
(Valor -
21/11/02)
Captador precisa angariar recursos e gerar confiança
Mais que levantar
recursos para viabilizar qualquer projeto, o objetivo maior do captador
é conquistar a confiança do patrocinador. "Quando
o empresário se compromete com a causa, acaba envolvendo
a companhia inteira", diz Wellington Nogueira, fundador do
Doutores da Alegria, grupo de atores profissionais que visitam crianças
hospitalizadas.
"O patrocinador
é o co-realizador do projeto", complementa Célia
Cruz, a primeira captadora de recursos 'full time' no Brasil, hoje
responsável pela área de captação do
Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis).
Célia e Nogueira fazem parte de um seleto grupo de profissionais
conhecidos como peças-chave nas instituições
do terceiro setor.
Profissional
da captação costuma ser vibrante, inflamado e apaixonado
como um torcedor fanático. "Só mesmo acreditando
muito na causa é possível convencer alguém
a investir", diz a advogada Elisa Larrouté, diretora
da Associação Brasileira dos Captadores de Recursos
(ABCR), que reúne 150 profissionais. Para eles, captar recursos
vai além dos valores materiais. "Contribuições
podem vir também na forma de recursos humanos, apoios institucionais
e até como parcerias, que são bens intangíveis,
mas que agregam um valor moral que o dinheiro não compra."
Esse misto de
idealismo e profissionalismo eleva o captador à condição
de raridade no mercado de trabalho. "Captador pode até
ser bem remunerado, mas nunca comissionado", diz Elisa, da
ABCR. "A remuneração nunca pode ser atrelada
ao valor captado." Célia Cruz concorda: "Captação
deve ser feita em nome da causa e não do bolso de quem capta."
Essa postura
ética permeia o trabalho do captador desde a etapa da prospecção
até a prestação de contas ao patrocinador.
O captador representa a imagem da instituição, que
ele deve conhecer a fundo - desde a causa até o planejamento,
incluindo detalhes de gestão e, principalmente, o destino
de cada centavo doado. "A abertura da contabilidade e a transparência
dos valores garantem a credibilidade da organização
e, em conseqüência, a confiança do doador",
diz Célia Cruz. "Patrocinador informado fica mais ligado
à causa."
Observar com
rigor os princípios éticos é um dos pontos
cruciais da profissão - e, não raro, coloca o captador
frente a frente com dilemas. "É possível que
ele tenha de decidir, por exemplo, entre recusar a doação
de um patrocinador duvidoso e comprometer financeiramente a entidade.
Ou o contrário", supõe Elisa. "Tomada a
decisão, o captador precisa estar preparado para enfrentar
o que vier sem perder a credibilidade."
Além
de estar comprometido com a missão da organização,
captador precisa ser antenado, comunicativo, gostar de pessoas,
cultivar relações, ler jornal, ver tevê, acompanhar
o mundo, ser paciente para escutar, ter tranqüilidade para
falar em público e ser claro, direto e objetivo. "Também
contribui muito uma formação em administração
ou marketing, já que o captador trabalha com questões
de gestão e organização", diz Célia
Cruz. "Se não tiver, ele vai precisar de um bom apoio
técnico."
Organizações
sociais já em fase de profissionalização precisam
do captador da mesma forma que não podem dispensar o patrocinador.
É o profissional da captação quem vai desenvolver
argumentos, formar a rede de contatos e cruzar o interesse de eventuais
investidores com a causa da entidade. Mas que não haja pressa.
"Em organizações menores, muitas vezes são
necessários pelo menos dois anos até que a captação
dê os primeiros frutos", avisa Célia.
Para quem acredita
ter boa parte desses requisitos e imagina que a captação
possa representar uma boa oportunidade de trabalho, Célia
e Elisa recomendam começar pelo voluntariado. "Não
é obrigatório, mas é produtivo", diz Célia.
Para quem está empregado, mas quer migrar para o terceiro
setor, a porta de entrada também é o voluntariado.
"Mergulhar na causa sem remuneração é
um dos caminhos que levam à profissionalização",
concorda Nogueira.
(Valor -
21/11/02)
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