Terceiro Setor faz pesquisa socioeconômica no Nordeste

O terceiro setor está ajudando o Brasil na produção de estatísticas socioeconômicas mais específicas, uma área cuja ausência de dados freqüentemente acarreta problemas para a elaboração de planejamentos de regiões subdesenvolvidas.

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Terceiro Setor faz pesquisa socioeconômica no Nordeste

O Terceiro Setor começa a ajudar o Brasil na produção de estatísticas socioeconômicas mais específicas, uma área cuja ausência de dados freqüentemente acarreta problemas para a elaboração de planejamentos microrregionais.

Iniciativa pioneira neste sentido, partiu do projeto "Aliança com o Adolescente pelo Desenvolvimento Sustentável no Nordeste", uma parceria entre o Instituto Ayrton Senna, Fundação Odebrecht, Fundação Kellogg e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Dedicado a apoiar comunidades carentes do Nordeste na produção de riquezas, o projeto ressentia-se da inexistência de um diagnóstico econômico-social mais preciso para eleger seus focos de atuação.

O universo em pauta era o Baixo Sul da Bahia, uma região que tem a sua imagem fortemente ligada ao turismo. Conhecido nos meios turísticos como Costa do Dendê, o Baixo Sul foi premiado com uma natureza exuberante, que mistura matas ainda intocadas, rios de águas limpas, estuários, manguezais e belas praias, a mais famosa delas a de Morro de São Paulo, paraíso de turistas. Mas há um outro lado, bem menos atraente, o que situa os municípios da região no rol dos que apresentam os menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do País.

Foi para avaliar melhor esta realidade, impossível de ser percebida com mais exatidão pelas estatísticas do IBGE, que o projeto decidiu realizar uma ampla pesquisa que respondesse às suas indagações.

O levantamento foi realizado por 25 educadores e 137 adolescentes ligados ao projeto, meninos e meninas pertencentes às comunidades carentes a serem investigadas. Técnicos das prefeituras, educadores e adolescentes participaram também da elaboração do questionário. Os resultados serão reunidos no livro "Conhecendo o Baixo Sul", a ser publicado no final do ano. Realizado entre julho de 2000 e maio de 2001, o estudo cobriu oito municípios da região, próximos entre si, com base econômica e tecido social idênticos.

Os questionários foram aplicados em todas as comunidades destes municípios, embora não tenha sido possível cobrir toda a população, de cerca de 150 mil habitantes. Os índices de cobertura variaram de 41,87% em Maraú, a 82,22% em Igrapiúna.

Chamou atenção o fato de 20% da população ouvida não ter qualquer documento, nem mesmo o registro de nascimento, ou seja, não existem oficialmente. Do total, 33,7% não possuem carteira de identidade, embora parte deles declararam possuir título de eleitor. Em relação à renda, 66,94% vivem com até um salário mínimo/mês.

Os analfabetos são 35,02%, e 65,53% não concluíram o segundo grau; 73,86% começaram a trabalhar antes dos 15 anos é o desemprego estava em 57,74% na época da pesquisa. Entre as mulheres, que representam 49,97% do universo pesquisado, 62,59% disseram que não fazem exames preventivos e 75,36% engravidaram antes dos 20 anos de idade.

"O objetivo é, a partir da compreensão da realidade de cada município, criar uma agenda de desenvolvimento local, de forma integrada e sustentável, tendo no adolescente o principal ator das transformações sociais", disse Tânia Almeida, consultora do projeto. Segundo ela, o contato com uma realidade que lhes é próxima, mas em muitos casos pior do que a que vivem, sensibilizou fortemente os adolescentes pesquisadores, que passaram a participar mais do projeto. Uma delas é o esforço para criar na região uma delegacia de defesa dos direitos da mulher.

Os números do "Aliança com o Adolescente" já servem para apoiar outros projetos do Instituto de Desenvolvimento Sustentável do Baixo Sul da Bahia (IDES), uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), ligada à Fundação Odebrecht e parceira da Aliança na região. Estão gerando novas iniciativas, como o Balcão de Direitos, com abrangência por toda a região. O Balcão, inspirado no movimento Viva Rio, conta com o apoio do Ministério da Justiça e visa fornecer documentação civil básica e assistência jurídica gratuita.

A meta é fornecer documentos a pelo menos 150 cidadãos/mês até março de 2003.

(Gazeta Mercantil - 22/10/02)

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