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Terceiro setor questiona ação empresarial de ONGs
O aumento da
busca de geração de receita própria por parte
das ONGs (organizações não-governamentais),
com a venda de produtos e serviços dos mais variados tipos,
vem despertando um novo debate no terceiro setor: a existência
ou não de limites legais ou éticos para a atuação
empresarial dessas organizações.
Trata-se de
uma discussão com várias vertentes, que ganhou fôlego
com o aumento do número de entidades. Vai desde o questionamento
sobre o fato de as ONGs terem tratamento tributário diferenciado
-o que, em tese, as coloca em situação de vantagem
em relação aos concorrentes do setor privado- até
a criação de ONGs por pessoas e empresas com o único
objetivo de serem dispensadas de licitação na prestação
de serviços ao setor público -objeto até de
escândalos recentes envolvendo desvios de dinheiro público.
"Esse é
um debate interessante. A busca cada vez maior das ONGs por recursos
próprios, legítima na medida em que elas devem buscar
sua independência em relação a governos e a
empresas, acabou criando uma zona cinzenta muito grande sobre os
limites de sua atuação -onde deveria ir como ONG,
onde deveria ir como empresa", avalia o advogado Eduardo Szazi,
consultor jurídico do Gife (Grupo de Institutos, Fundações
e Empresas) e professor de direito do terceiro setor da FIA-USP
(Fundação Instituto de Administração)
e da Fundação Getulio Vargas.
O problema,
diz ele, é que esses limites são tênues. "É
como querer classificar a foto de uma mulher nua como pornografia
ou como nu artístico. A diferença existe, mas os conceitos
envolvidos muitas vezes não são objetivos", compara.
É importante
esclarecer, afirmam os especialistas, que o fato de as ONGs serem
entidades sem fins lucrativos não as impede de desenvolver
atividades econômicas. Segundo eles, essa busca pela própria
sustentabilidade financeira é algo saudável, sobretudo
se realizada de modo profissional.
"As ONGs
têm legitimidade para isso, inclusive em termos legais. A
única coisa que não me parece coerente é que
elas atuem ou desenvolvam produtos e serviços sem nenhuma
relação com sua missão na sociedade. É
o caso, por exemplo, de uma ONG que trabalhe com educação
abrir um restaurante sem nenhuma motivação educacional",
aponta Eleílson Leite, diretor regional da Associação
Brasileira de Organizações Não-Governamentais
(Abong) em São Paulo.
É justamente
esse o conceito sobre limites de atuação empresarial
das ONGs mais utilizado -e aceito- hoje em dia no terceiro setor:
se ela guarda ou não alguma relação com sua
atividade principal, de preferência de maneira direta. "É
importante que tenhamos essa relação com a atividade-fim
de cada organização, aquilo que é a sua grande
causa na sociedade. Um hospital filantrópico, por exemplo,
tem de agir como hospital e pode cobrar por isso. Afinal, ele tem
de pagar seus médicos, suas contas, seus equipamentos. A
coisa já muda de figura se esse hospital começar a
ganhar dinheiro com a propaganda de remédios ou com a consultoria
em gestão hospitalar", exemplifica Szazi.
Como grande
parte das empresas tem preferido alocar integralmente o seu trabalho
de responsabilidade socioambiental para as ONGs, outra questão
que se coloca no debate é a propriedade com que tais organizações
poderão tratar de temas com os quais, em tese, não
estão familiarizadas -como o planejamento mercadológico
de seus produtos e serviços.
Segundo os especialistas,
a forma como as ONGs lidam com sua gestão pode definir sua
própria sustentabilidade. "Começamos a ver as
empresas se preocupando com essa gestão profissional dos
serviços e produtos prestados pelas ONGs que apóiam.
Muitas vezes, é preferível que as próprias
ONGs contratem parceiros para determinadas ações,
concentrando, assim, o foco no que sabem fazer: a ação
social", afirma Clarissa Medeiros, diretora da Eis Comunicação,
empresa de relações públicas especializada
no terceiro setor.
(Valor)
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