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Dependência encurta vida de ação social
Nem sempre
os projetos de responsabilidade socioambiental no mundo corporativo
são, para usar um termo largamente empregado no meio, sustentáveis.
Ainda que não existam estatísticas confiáveis
sobre o assunto, especialistas são unânimes em afirmar
que a morte prematura de projetos de responsabilidade tocados pela
iniciativa privada, em parceria ou não com governos, figura
como um problema importante para o setor.
Os motivos são
vários. Mudanças de gestão nas empresas, dificuldades
orçamentárias, divergências de orientação
com políticas públicas e com as entidades patrocinadas
figuram entre os principais. O crescimento exponencial de projetos
e entidades nos últimos anos, com centenas de empresas participantes
e milhões de pessoas direta ou indiretamente envolvidas,
também colabora.
Para o presidente
do Idis (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social),
Marcos Kisil, boa parte desse problema guarda relação
com o que ele considera uma visão paternalista por parte
das empresas nos seus investimentos socioambientais. O que acaba
criando, em sua opinião, uma relação estrita
de dependência entre as empresas e os projetos que elas apóiam.
E tornando, assim, a sustentabilidade dos últimos condicionada
à dos primeiros.
"O paternalismo,
do qual a dependência é a outra face, infelizmente
ainda aparece como uma tendência muito forte no investimento
social brasileiro. Há uma grande dificuldade para mudar essa
visão, mas é necessário. Afinal, os projetos
precisam andar com as próprias pernas, esse é um princípio
básico do investimento social", ilustra Kisil.
A gerente-geral
de sustentabilidade da Philips para a América Latina, Flavia
Moraes, concorda. "Os projetos não só têm
de amadurecer e ganhar independência no médio e longo
prazos como também serem replicáveis. As empresas
também precisam ser responsáveis para não criar
relações de dependência que acabem, no futuro,
prejudicando os próprios projetos e as comunidades envolvidas",
diz ela.
A onda de fusões
e aquisições do mundo corporativo, que implica muitas
vezes mudanças de gestão e reestruturações
complexas nas empresas, também aparece como um fator relevante
nesse debate. O caso recente do Instituto Telemig Celular é
um exemplo.
Seu projeto
social de maior relevância, que estimulava a formação
de Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente
e de Conselhos Tutelares em Minas Gerais, foi descontinuado, uma
decisão tomada na esteira de uma mudança da diretoria,
em outubro. A empresa alega que já se havia "fechado
um ciclo" na criação dos conselhos e que a paralisação
do projeto não guarda nenhuma relação com a
mudança de gestão. Mas pessoas que acompanharam o
projeto acham que ele foi encerrado de forma abrupta.
Nos casos em
que é impossível continuar apoiando um projeto, o
recomendável, dizem os especialistas, é que as empresas
procurem outros interessados para assumir a sua gestão. Foi
o que fez a subsidiária da Xerox no Brasil. Mesmo em dificuldades
financeiras, a empresa continuou apoiando um projeto desportivo
no Morro da Mangueira, no Rio, até encontrar um parceiro
para assumir a sua gestão. O Projeto Olímpico Mangueira,
que existia há 19 anos, foi assumido pela Petrobras e ampliado.
Há também
exemplos, destaca o secretário-geral do Gife (Grupo de Institutos,
Fundações e Empresas), Fernando Rossetti, em que a
simples troca de cadeiras em uma empresa ou em uma fundação
a ela ligada representa riscos para a continuidade dos projetos.
É o que ele chama de "amnésia sistêmica":
"Basicamente,
o fato de a memória da empresa na área socioambiental
não ter sido devidamente institucionalizada, ficando, por
conta disso, personalizada na figura de um ou outro executivo",
aponta Rossetti. "Esse executivo, ao sair da empresa, leva
junto com ele essa memória. Existem casos de empresas em
que, após uma troca de comando, ninguém sabia nem
sequer o motivo de determinado investimento social."
E há
inúmeros casos em que o problema não envolve as empresas,
mas sim as entidades que elas apóiam ou financiam para a
realização dos projetos. As descobertas recentes sobre
desvios milionários de dinheiro público envolvendo
ONGs, por exemplo, ainda estão frescas na memória
de quem trabalha no terceiro setor. Os resultados, muitas vezes,
são uma dor de cabeça institucional para as empresas.
E um fim prematuro dos projetos.
"Esse é
um grande desafio para o setor hoje e que está levando, por
exemplo, a um esforço maior no sentido de cadastrar as entidades,
de fazer uma gestão dessa informação, como
é o caso da base comum de informações sobre
ONGs que a Serasa está criando", relata o secretário-geral
do Gife. "Além disso, as empresas precisam buscar informações
sobre as entidades, e as redes de relacionamento no setor são
importantes nesse sentido", afirma.
Possíveis
divergências entre as linhas de atuação do investimento
social das empresas e as políticas públicas para determinadas
áreas, com destaque para a educação e a saúde,
igualmente figuram como um risco importante para a sustentabilidade.
Um projeto educacional que não tenha convergência com
as políticas públicas pode, por exemplo, criar uma
"ilha" na região ou comunidade em que foi aplicado.
Reforçando uma relação de dependência
dos projetos em relação às empresas que, novamente,
não é saudável.
"O ideal é que trabalhem sempre convergindo, não
divergindo", conclui Flávia Moraes, da Philips.
(Folha de
S.Paulo)
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