Fornecedor socialmente correto

Quando criou a QualiAfro, consultoria da área de recursos humanos de São Paulo, há quatro anos, a economista Laudeci Reis sabia que ajudar as grandes empresas a contratar profissionais negros seria uma oportunidade de negócios promissora. Cobradas por ONGs e pelas próprias matrizes, as multinacionais se viam na obrigação de contratar negros e deficientes, e não havia empresas especializadas em buscar esses profissionais no mercado.

No entanto, ela enfrentou dificuldades para oferecer o serviço às corporações. O quadro começou a mudar quando a QualiAfro conheceu a Integrare, ONG que atua como ponte entre pequenas empresas com perfil inclusivo e multinacionais. Por perfil inclusivo, entenda-se empresas criadas por minorias, como negros, indígenas e deficientes.

A proposta da Integrare, inédita no Brasil, está em operação desde 2001 e já reuniu um banco de dados com 250 empresas ‘inclusivas’ e mais 30 multinacionais que contratam os serviços dessas empresas. São gigantes como IBM, Xerox, ABN Amro Real, Motorola e Kodak.

“É um meio que as grandes empresas têm para investir em inclusão social, mas pela via dos negócios, e não do assistencialismo”, explica Silas Silva, presidente da Integrare. “Ao contratarem esses fornecedores, as empresas estão fortalecendo o empreendedorismo entre grupos excluídos, que por sua vez devem apresentar produtos e serviços competitivos.”

O presidente da IBM Brasil, Rogério Oliveira, é um entusiasta da iniciativa. Preside o conselho da Integrare e reserva parte do orçamento da IBM para as compras inclusivas. Em 2005, foram gastos US$ 17 milhões com esses fornecedores, um crescimento de 40% em relação ao ano anterior. “Além de mulheres e negros, procuramos incluir fornecedores de outros grupos de minorias como asiáticos, GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros) e idosos”, diz Oliveira. “A matriz da IBM nos Estados Unidos tem uma política de contratação de minorias desde 1968”, completa.

A DuPont também aderiu. Contratou 35 fornecedores com esse conceito, que prestam serviços para cinco unidades da empresa no Brasil e geraram negócios de US$ 5 milhões em 2006, segundo Robert Suquet, gerente de suprimentos para a América do Sul da DuPont. “Além do aspecto da inclusão, os fornecedores são bastante flexíveis e têm custos competitivos, o que torna um bom negócio para ambas as partes”, diz.

São pequenas empresas que prestam serviços de manutenção, engenharia e recursos humanos - como a QualiAfro. Hoje, a consultoria de RH tem uma base de dados de 4 mil pessoas e já colocou 80 profissionais negros no mercado. “Há uma mudança de valores em curso nas grandes empresas. Ter mulheres, negros e deficientes se tornou um ativo para as companhias”, afirma Laudeci Reis, sócia da QualiAfro.


A Integrare fechou uma parceria com o Sebrae, que investirá R$ 300 milhões para expandir o programa para todo o País. A ONG também negocia com o IFC e o Fundo Multilateral de Investimentos (Fumin), do BID que, juntos, devem investir US$ 1 milhão na iniciativa, o que permitirá dobrar a base de fornecedores da Integrare.

(O Estado de S. Paulo)

   
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