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A discussão a respeito dos ciclos (em que o aluno não é reprovado anualmente) voltou à tona por causa da eleição para governador em São Paulo. O candidato Paulo Maluf defendeu a volta da repetência ano a ano, esgotadas todas as alternativas de recuperação do aluno antes que ele repita. Seus opositores acusam a proposta de ser eleitoreira. Não cabe aqui entrar nessa questão, mas o fato é que a proposta defendida por Maluf encontra eco em muitos pais de alunos em São Paulo. O que se acostumou a chamar de cultura da repetência no Brasil, infelizmente, encontra respaldo também em muitos pais de alunos, que acham que o filho tem que ser punido quando não consegue as notas necessárias para passar de ano. Por trás da discussão sobre a repetência está uma constatação: é muito mais fácil para pais, alunos, professores, escola e secretaria de educação colocar a culpa pelo fracasso do estudante no próprio aluno. Se o aluno não se esforçou, a culpa não é do pai que deixou de dar a devida atenção ao filho, de conversar com ele para saber em que poderia ajudar, de ir à escola para saber dos professores de que forma poderia contribuir. Também não é do professor que fez pouco esforço para fazer com que o aluno aprendesse, que não se preocupou em conhecer melhor seus alunos, que preferiu usar um método punitivo como a repetência para conquistar autoridade com os alunos. A escola também tem muito pouco a ver com isso, já que é normal no Brasil o aluno repetir. Além disso, sua reputação não vai ficar mal porque repetência, para muitos, é sinal de rigor e seriedade na educação. A secretaria tampouco não se responsabiliza, já que pode fazer muito pouco para um aluno pobre, cujos pais tem pouca escolaridade. Como boa parte dos pais se importa pouco com índices de repetência, o secretário também não é cobrado. Quando um sistema de ciclos funciona perfeitamente, boa parte da responsabilidade sai dos ombros dos alunos e é transferida para quem a merece. Ela vai para os pais, que precisam prestar mais atenção no filho para saber se ele está aprendendo o que deveria, se a escola está fazendo corpo mole ou se o professor está trabalhando na recuperação do aluno quando ele vai mal. Vai para o professor também, que terá que identificar o mais rápido possível quando um aluno vai mal para fazer um esforço extra para recuperá-lo. Chega também na escola, que tem a responsabilidade de não deixar que estudantes analfabetos cheguem ao final de um ciclo sem terem aprendido o que deveriam em anos anteriores. É também, em última instância, da secretaria, que deve preparar os professores e dar condições adequadas para que eles trabalhem com um modelo mais complexo, mas que traz muitos mais benefícios para os estudantes. O sistema de ciclos é quase uma unanimidade entre os educadores. A discussão que me parece válida no nosso caso é se estamos realmente preparados para ele. |
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