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As análises mais simplistas dos motivos dos nossos fracassos na educação costumam dar dois tratamentos díspares a respeito do papel do professor nesse processo. Uma das correntes mais simplificadores afirma que o professor é, em boa parte, culpado pelo mau desempenho. Diz que ele deveria se esforçar mais, que os baixos salários (que alguns dizem não ser tão baixo assim, se comparados com a média de renda de todos os brasileiros) não podem ser justificativa para a falta de empenho. Os defensores dessa corrente dizem também que não ele não está preparado para educar sem punir, preferindo, de forma até preguiçosa, usar um instrumento punitivo como a repetência em vez de se esforçar em reconhecer seus erros e responsabilidade como professor e chamar para si a responsabilidade de fazer com que os estudantes aprendam e sejam aprovados. No outro extremo, há os que tiram toda a responsabilidade do professor, dizendo que ele apenas é vítima de um processo maior de destruição da escola pública. Os culpados desse processo (na maioria dos casos, os políticos) achatam os salários dos professores, pioram suas condições de trabalho na escola, sufocam a democracia nos colégios, desmotivando o professor e desestimulando ele a ter um papel mais participativo nas decisões da escola. Esse sistema perverso seria responsável pelo desânimo do professor e, consequentemente, pelo seu desempenho em sala de aula, que acaba provocando o fracasso dos estudantes. A discussão mais aprofundada sobre as falhas dessas duas teorias eu deixo para os acadêmicos e especialistas, que, melhor do que qualquer jornalista, vão saber aprofundar o assunto. No entanto, acho que há falhas nas duas teorias que podem ser notadas na prática, sem precisar ser especialista para perceber isso. A teoria que sataniza o professor de forma extremamente simplificada é obviamente falsa porque coloca toda a responsabilidade pelo fracasso do ensino público brasileiro em uma categoria que, indiscutivelmente, deveria ter melhor tratamento do poder público. Não se pode ignorar que, em muitos Estados, os professores ganham muito mal, que não têm dinheiro ou tempo para se atualizar, que faltam recursos nas escolas públicas e que o sistema escolar é, muita vezes, montado para não dar certo, com sua burocracia extrema e com a falta de estímulo para um profissional se dedicar à carreira e melhorar a cada dia. A outra teoria, que tira do professor qualquer responsabilidade, é também incoerente se formos fazer uma análise escola por escola. Há Estados que repassam os mesmos recursos por aluno para todas as escolas de sua rede. Apesar de receberem os mesmos recursos (e terem professores que ganham os mesmos salários), as escolas não são iguais. Há escolas quase vizinhas, que atendem praticamente ao mesmo público, que têm desempenho díspares. Em uma delas, pode haver filas de pais procurando uma vaga no início do ano. Na vizinha, pode haver sobra de vagas no ensino fundamental porque poucos querem matricular os filhos lá. As mais vazias, inclusive, acabam trabalhando com menos aluno por turma do que suas vizinhas mais procuradas e, portanto, teriam melhores condições para realizar um bom trabalho. Se pode haver uma diferença tão grande na qualidade do ensino de duas escolas com a mesma verba e com professores ganhando o mesmo salário, logo, é razoável supor que há fatores que interferem na qualidade e que não são apenas causados por razões externas. Numa mesma escola, é possível encontrar bons e maus professores, que ganham o mesmo salário, tem quase a mesma idade, são do mesmo sexo e ensinam a mesma disciplina. Um pode ser ótimo, motivado, preocupado com seus alunos, enquanto outro pode ser um burocrata, faltar às aulas e ser preguiçoso. Pode ser que eu esteja dizendo o óbvio: não se pode culpar o professor pelo fracasso de um sistema deficiente, mas também não é possível ignorar que há fatores individuais ou de um pequeno universo de uma escola que podem melhorar (ou amenizar) em muito a qualidade do ensino em determinada escola, independente da vontade (ou falta de) do poder público. No entanto, nos discursos e colocações que são feitos sobre o assunto, é muito comum encontrar defensores apaixonados das duas teorias. |
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