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O economista Eduardo Giannetti escreveu, em 1999, um livro onde desenvolvia a tese do autoengano. Simplificando bastante a teoria, o autoengano é um erro comum no ser humano. Ele citava um exemplo de uma pesquisa feita com motoristas nos Estados Unidos. A esmagadora maioria deles considerava que os outros motoristas dirigiam mal. Quando a pergunta era a respeito do desempenho do próprio entrevistado no trânsito, a maioria pendia para outro lado, com mais de 50% dos motoristas se autoclassificando como bons condutores. Ou seja, somos capazes de olhar criticamente para o desempenho dos outros, mas temos a tendência, ou o vício, de sempre nos considerarmos melhor que a média. Lembrei desse argumento quando li o livro "A escola vista por dentro", de João Batista Araújo e Oliveira e Simon Schwartzman. Com base em extensas entrevistas com pais e professores de mais de 100 escolas em todo o Brasil, eles chegaram a conclusão que "a escola vista só por dentro é incapaz de perceber a relação entre o que faz e os resultados que obtém." Um exemplo disso. Os professores da escola pública tendem a classificar o seu próprio desempenho como bom, atribuindo nota 7 ao seu trabalho. Quando perguntados sobre a causa do fracasso escolar na sua escola, no entanto, eles praticamente se eximem de responsabilidade e colocam a culpa pela repetência no desinteresse dos alunos. Culpar o aluno pelo seu mau desempenho é a maneira mais fácil e preguiçosa de fugir de um problema que deveria ser da escola e do professor. Se o aluno está desinteressado, é responsabilidade do professor, da escola e dos pais fazer com que ele volte a ter ânimo para estudar. A origem do problema não está no aluno, mas sim na escola. Os pesquisadores mostram ainda, com base em números, que a maioria desses professores que colocam a culpa nos alunos pela repetência costumam ser tolerantes ou omissos com atitudes que, em qualquer escola, prejudicam o desempenho do aluno, como faltas, atrasos e deveres escolares não feitos. A pesquisa mostrou bem o autoengano dos professores, no entanto, quando perguntou para aqueles responsáveis pela alfabetização se conheciam conceitos básicos sobre o assunto. De nove conceitos apresentados, a maioria disse ter conhecimento de todos e afirmou estar bem preparado para alfabetizar. Quando os pesquisadores pediram que os professores explicassem os mesmo conceitos que eles disseram dominar, o resultado foi surpreendente. Nas escolas públicas, a porcentagem de respostas certas só foi superior a 60% em três dos nove conceitos. Não há dúvida que o salário dos professores é baixo no Brasil. Também é certo que são poucas as secretarias com projetos pedagógicos eficientes e preocupadas com a qualidade do ensino. A pesquisa de Simon Schwartzman e João Batista Araújo mostra, no entanto, que há muito que o professor pode fazer para melhorar a qualidade do ensino, independente de salário, estímulo, capacitação profissional ou ajuda de terceiros. A primeira lição (e acho que ela vale para todas as categorias profissionais) talvez seja analisar de forma mais crítica nosso próprio trabalho. PS - O livro ainda não está a venda nas secretarias, mas pode ser encomendado pelo e-mail jm@zaz.com.br |
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