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Melhorou, mas ainda estamos longe do ideal. Esta frase pode ser usada para analisar 99% dos indicadores sociais brasileiros, como foi apresentado mais recentemente pelo IBGE que mostra que a expectativa de vida no país cresceu 2,6 anos em uma década. O dado mostra um avanço do Brasil. Em 2000, a esperança de vida de um brasileiro ao nascer era de 68,6 anos. Mas mostra também o quanto ainda estamos distante de uma situação ideal. Se formos levar em conta a expectativa de vida do Japão, o ideal é chegar à meta de 80 anos de esperança de vida. Muito idealista? Então vamos nos comparar com nossos vizinhos: a Argentina tem uma expectativa de 73 anos, o Chile de 75, o Paraguai de 70 e a Colômbia, 71. Estamos mesmo longe do ideal, seja ele qual for. A mesma situação pode ser encontrada em indicadores como analfabetismo, mortalidade infantil, escolaridade da população, entre outros. Como disse na penúltima coluna, os números podem não mentir jamais, mas às vezes servem de argumento para as mais diversas análises. No caso dos indicadores sociais, é inegável que houve avanços (o que agrada os otimistas), mas, com certeza, ainda estamos longe do ideal (para colocar água no moinho dos pessimistas). Há quem ache que os indicadores sociais brasileiros estão melhorando num processo de "osmose", ou seja, mesmo sem atuação do governo, a sociedade está conseguindo, naturalmente e aos poucos, melhorar sua situação. No caso do cálculo da esperança de vida, discordo dessa análise. Um exemplo: uma das principais causas de melhoria na expectativa de vida é a queda nos índices de mortalidade infantil. Esse trabalho é possível porque os governos estão gastando mais recursos para atacar o problema. A Pastoral do Menor, por exemplo, faz um trabalho digno de prêmio Nobel da Paz com seus voluntários por todo o Brasil; é uma das entidades que mais contribui para melhorar esse indicador. Mas a pastoral também recebe recursos importantes do governo Federal, apesar de ser uma ONG e ter uma atuação independente. Sem os recursos, seu trabalho seria bem mais difícil. Outro aspecto que tem que ser levado em conta na melhoria da expectativa de vida é o pouco impacto das mortalidades por Aids. O estudo do IBGE que apresentou a pesquisa sobre esperança ao nascer lembra que, no início dos anos 80, chegou-se a temer que as mortes por Aids diminuíssem o impacto na melhoria da expectativa de vida. Não foi o que aconteceu. Com a política de distribuição de medicamentos pelo Ministério da Saúde, as mortes vem caindo gradativamente, e esse crédito é, também, do poder público. Antes que pensem que escrevo essa coluna para exaltar o(s) governo(s), é bom ressaltar que há um dado que preocupa, e muito, e que, até o momento, os governos não parecem ter apresentado solução satisfatória. A violência urbana tem roubado preciosos anos na expectativa de vida do brasileiro. Nos grandes centros urbanos, as mortes por causas externas (homicídios e acidentes de trânsito, principalmente) já são a principal causa de morte entre jovens do sexo masculino entre 14 e 24 anos. Há quem já tenha defendido que se trata de uma epidemia nas grandes cidades. Epidemia ou não, o fato é que os governos (o federal, os estaduais e os municípios) ainda não conseguiram encontrar soluções para esse problema. Além da frieza das estatísticas, para cada jovem do sexo masculino que morre, há uma mãe ou uma viuva jovem que sofre seriamente por causa da perda. É uma vida jogada fora, do ponto de vista da mãe, familiares e amigos. Mas é também um contribuinte a menos, do ponto de vista do sistema previdenciário público. É um investimento jogado fora, do ponto de vista do poder público que ofereceu escola e saúde para aquele jovem ser preparado para fazer parte da população em idade produtiva. Sob qualquer ponto de vista, é um desperdício. Acima de tudo é uma vida, mas é também um prejuízo para toda a sociedade, e não apenas para os familiares. Talvez seja contra essa epidemia que devemos nos concentrar para descobrir a vacina. E logo. |
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