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A seleção dos bolsistas da Fundação Ford, que levou em conta critérios de ação afirmativa, daria material para um livro sobre a história dos 42 beneficiados com bolsas de mestrado e doutorado. São índios, negros, nordestinos e representantes de regiões ou etnias tradicionalmente excluídas do nível mais alto de nossa educação. Da infância para a vida adulta, a história dos selecionados impressiona pelo salto que eles conseguiram dar, em 15 ou 20 anos. Quem poderia acreditar, por exemplo, que uma índia nascida no interior de Pernambuco poderia se transformar, 37 anos depois, na primeira representante da população índigena a cursar um doutorado? É o caso de Maria das Dores de Oliveria, 37, índia da etnia Pankararú, que foi beneficiada pela Fundação Ford com uma bolsa para completar seus estudos de doutorado em línguistíca pela Universidade Federal de Alagoas. Ou então, quem diria que uma criança negra de sete anos, que trabalhava na roça no interior da Paraíba no início da década de 80, caminhando às vezes 7 quilômetros carregando água para seus pais e 11 irmãos, poderia chegar à universidade e ainda prosseguir num curso de mestrado. Foi o que fez Adriana Freire Pereira, 24. Adriana conta que teve que superar muitas dificuldades para chegar aonde chegou. Em algumas ocasiões, ela teve ajuda de amigos, mas, no final das contas, o fator mais importante para seu sucesso foi mesmo a determinação. Será que algum estudante de classe média hoje passaria pelo sacrifício de morar, durante o tempo da faculdade, em um quarto de empregada cedido por uma amiga para economizar o dinheiro da passagem? Foi o que ela fez. Outra história impressioante é a de Laura dos Santos, 27, que começou a trabalhar aos 14 anos como empregada doméstica em Campo Grande. Além de sua brutal dedicação, Laura contou com o apoio de seus patrões na época, que lhe pagaram um colégio particular à noite e parte de sua faculdade até que ela conseguisse um estágio e uma bolsa de estudos na graduação. Laura, que é negra, se sentiu sempre como um peixe fora d'água em ambientes em que, pelas estatísticas educacionais, negros são raridade: como a escola particular de ensino médio e o ensino superior. Para a coordenadora do programa, Fulvia Rosemberg, há alguns elementos em comum em quase todas as histórias: a perseverança dos candidatos, o apoio da família ou de amigos e o impressionante salto de uma geração para outra que essas pessoas conseguem dar. É sempre perigoso elaborar teses a partir de casos individuais. Mesmo sabendo desse risco, não resisto à tentação de concluir que esses exemplos são a prova concreta de que, quando uma criança é apoiada pela família e pelo poder público, consegue atingir seus objetivos. Mesmo que esse sonho pareca tão irreal em sua infância, a julgar pelo meio em que vive. PS - A Fundação Ford continuará com seu programa de bolsas, levando em conta critérios de ação afirmativa, até 2007. Mais informações no site www.programabolsa.org.br
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