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No mês passado, o ministro Cristovam Buarque foi recebido na cerimônia inaugural do ano letivo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) sob protestos de um grupo de estudantes que pediam mais verbas para o bandejão da universidade. O cartaz dos estudantes falava em "Fome Zero na UFRJ", e foi feito o devido barulho para chamar a atenção na chegada do ministro. O protesto estudantil é legítimo, e eu diria até positivo, numa democracia. Mostra também coerência dos estudantes, que antes criticavam o governo FHC e deram sinais de que, mesmo com um governo do PT, as bandeiras são as mesmas e a forma de protesto, também. A frase do cartaz segurado pelos estudantes mostra, no entanto, que eles não entenderam o que está por trás de um programa como o Fome Zero. Reclamar contra a ausência de um bandejão é um direito dos estudantes. Associar a ausência do bandejão ao Fome Zero, na minha opinião, é um trocadilho infeliz. O Fome Zero é um programa que, pelo que o governo tenta sinalizar, vai colocar como foco do atual governo federal os brasileiros que estão abaixo da linha da miséria. Estamos falando de gente que vive com menos de ¼ de salário mínimo per capita, que não tem emprego fixo e cujos filhos não chegam a completar, pelas estatísticas, a oitava série do ensino fundamental. Esse público em nada se assemelha aos estudantes que seguravam os cartazes na UFRJ. Qualquer estatística séria, do IBGE ou do MEC, mostra que, da mesma forma que é injusto dizer que só os ricos estudam na universidade pública, é igualmente errado dizer que os pobres têm acesso a essa mesma universidade. Nem todos que chegam à universidade pública são ricos, mas pouquíssimos deles são pobres. Um estudo feito pelo economista Simon Schwartzman mostra que apenas 9% dos universitários brasileiros estão entre os 50% mais pobres da população. No dia em que fez o discurso na UFRJ, o ministro pediu que os negros se levantassem. Num auditório lotado com capacidade para 500 pessoas, havia apenas três negros. Como a porcentagem de negros entre os pobres da população é maior, essa é a maior prova de que não estávamos lidando com o público do Fome Zero. É bom lembrar que, para se estar entre os 50% mais ricos, basta que se tenha renda per capita superior a R$ 200. Ou seja: uma família com quatro pessoas teria que ter renda total maior que R$ 800 para estar entre a metade mais rica da população. Nenhum centavo do Fome Zero deve ser associado a estudantes de universidades públicas. Para eles, o governo tem outra proposta: oferecer bolsas para que os universitários mais pobres tenham condições de se manter durante o curso. Se sair do papel, será uma ajuda legítima ao que a UFRJ costuma chamar de heróis do vestibular, ou seja, estudantes que, apesar das dificuldades, conseguiram ultrapassar a elitista barreira do vestibular e conquistar uma vaga na universidade pública. No seu discurso aos alunos, o ministro Cristovam Buarque lembrou que a universidade pode _e deve_ cobrar mais verbas do governo. Ela tem seu papel fundamental (e precisa também, como diz aquele comercial de TV, rever seus conceitos) no momento de formar alunos. No entanto, se não quiserem ser chamadas de elitista, as universidades públicas precisarão mostrar mais do que têm feito atualmente para reduzir a desigualdade do país. Como lembrou o ministro, será que o conteúdo do currículo nas escolas de medicina, engenharia ou arquitetura está mais voltado para resolver o problema dos 50% mais pobres da população ou estamos apenas formando alunos para ganharem dinheiro projetando prédios para elite e hospitais e consultórios para os endinheirados? O governo federal gasta mais com qualquer aluno de universidade pública ao longo de quatro anos do que o que gasta, em média, com uma criança que nasce entre as famílias que serão beneficiadas pelo Fome Zero (se o programa realmente sair do papel). |
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