| ||||||||||||||||||||||||||||||||
|
Uma análise mais profunda dos resultados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), o teste onde os estudantes brasileiros ficaram em último lugar entre 32 países analisados, mostra que os problemas da educação brasileira são maiores do que se imaginava. Em quase todos os aspectos de nossa vida cotidiana, uma minoria da população brasileira consegue viver com padrões de primeiro mundo, enquanto uma imensa maioria vive com um padrão quase africano de pobreza. Essa dicotomia foi classificada pelo economista Edmar Bacha como "Belíndia", uma mistura de Bélgica e Índia. Isso porque uma pequena parcela da população vive com indicadores de Bélgica no Brasil, enquanto uma imensa maioria tem padrões de Índia. Um estudo feito pelo pesquisador Creso Franco, da PUC do Rio, no entanto, mostra que, no que diz respeito à educação, a porção Bélgica do Brasil não existe, ou, se existe, como diz Franco, é muito menor do que se imagina. Franco comparou o desempenho dos estudantes mais ricos brasileiros com os estudantes mais ricos de países desenvolvidos. Para isso, ele comparou apenas os 7% mais ricos do Brasil com os 25% mais ricos de países como França, Estados Unidos e Espanha. Como bem lembra Franco, ao falarmos dos 7% mais ricos do Brasil, estamos falando de uma população que estuda em escolas particulares, com acesso à Internet, cujos pais têm diploma de nível superior. Em outras palavras, seriam os estudantes que vivem na nossa porção "Bélgica" da Belíndia brasileira. O desempenho desses estudantes, no entanto, também foi pífio se comparado aos demais. Somente 21% deles conseguiram notas que os colocavam nos dois níveis mais avançados de aprendizado. Os estudantes mais ricos da França (57%), Coréia do Sul (55%), Estados Unidos (53%), Portugal (48%), Espanha (46%), Rússia (33%) e México (27%) deram um banho nos nossos. "Isso mostra que algo de muito errado parece estar acontecendo com a educação aqui. E o problema agora não está na repetência, na escola pública ou na qualidade oferecida para a maioria dos jovens. Com as exceções de praxe, a boa escola brasileira não é uma boa escola no mundo globalizado", afirma Franco no estudo. Especialistas que eu ouvi numa reportagem da Folha de S. Paulo citam o problema da falta de preparo dos professores como um dos entraves para que a educação de nossa elite, que pode pagar caro pelo ensino, não tenha a mesma qualidade da educação de elite de outros países. Isso mostra que, em educação, a qualidade do ensino público afeta todos os estudantes, e não apenas os que estudam nas escolas públicas. Os professores que dão aulas nas escolas particulares, na maioria das vezes, são os mesmos que dão aulas na rede pública. Eles recebem um salário maior na rede particular, mas ficam com um pé na rede pública de olho na aposentadoria, que, na maioria dos Estados, é mais vantajosa para um funcionário público do que para um trabalhador comum. Quando não há qualidade na escola pública, os alunos da rede particular tendem também a se acomodar, pois sabem que têm chances muito maiores de garantir uma vaga numa universidade, por exemplo, do que um aluno da rede pública. A melhoria da qualidade da escola pública contagiaria também a rede particular, que teria que fazer mais do que tem feito para justificar a cobrança de mensalidades. Enquanto isso não acontecer, não existirá nem mesmo o lado Bélgica do Brasil na educação.
|
| ||||||||||||||||||||||||||||||