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No Brasil, a desigualdade é uma lição que se aprende, na prática, desde cedo, antes mesmo das crianças entrarem na escola. É o que mostram os dados do Censo do IBGE. A maioria das crianças que moram em bairros ricos de São Paulo ou Rio de Janeiro, como Moema, Jardins, Pinheiros, Urca, Lagoa ou Joá, onde a renda dos chefes de família é superior a R$ 3.000, estão alfabetizadas aos 6 anos, ou seja, antes mesmo de entrarem no ensino fundamental. Nos bairros mais pobres, a porcentagem de crianças com 6 anos já alfabetizadas é ridícula. Ela não passa de 20% em locais como Cidade Tiradentes, Jardim Ângela, Lajeado, Vidigal ou Rocinha, onde a renda dos chefes de família é inferior a R$ 600. Por detrás da frieza desses números está a constatação de que a desigualdade no acesso ao conhecimento começa desde cedo. Crianças filhas de pais ricos ou de classe média, em geral, têm oportunidade de serem matriculados em pré-escolas, que atendem crianças de 4 a 6 anos. Além de serem estimuladas no ambiente escolar, elas têm também o incentivo dos pais, que têm condições de comprar livros, tapetes com letras, brinquedos com o alfabeto ou qualquer outro apetrecho que familiarize a criança com o universo das letras. Nos bairros mais pobres, onde a população adulta teve menos acesso à escola e, por isso, tem menos hábito de leitura, isso não acontece. É justamente aí onde deveria entrar o poder público, oferecendo creches e pré-escolas para que as crianças menores tenham condições menos desiguais em comparação com as mais ricas. A pré-escola nunca substituirá o papel dos pais, mas pode ajudar muito. Foi isso que constatou a educadora Regina de Assis, presidente da MultiRio, em reportagem publicada na Folha de S. Paulo. "As crianças que vivem em famílias de baixa renda têm que lutar com mais dificuldades porque seus pais são menos escolarizados e têm menos recursos para comprar livros, por exemplo. É por isso que é importante estarem na escola desde cedo'", disse. Segundo Regina, não há nenhuma pesquisa que mostre que crianças mais pobres tenham menos capacidade de aprender. Se elas tiverem acesso aos mesmos meios e condições das ricas, terão desempenho igual. Se o país foi
capaz de lançar uma campanha e colocar todas as crianças
de 7 a 14 anos na escola, deveria fazer o mesmo com as de 4 a 6. |
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