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O MEC sinalizou claramente na semana passada que pretende acelerar a implementação do ensino fundamental de nove anos. Trata-se de uma boa idéia, defendida por quase todos os educadores, mas que deve ser analisada com cuidado, para que não haja perda de qualidade. A proposta do MEC, na verdade, já consta da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, aprovada no final do 1996. O ministério quer incentivar os municípios e Estados a anteciparem a entrada da criança no ensino fundamental. Hoje, essa entrada costuma ocorrer aos sete anos, quando os estudantes entram na primeira série do ensino fundamental. O que a LDB propõe e o MEC tenta viabilizar é que mais municípios e Estados comecem a incluir os estudantes já aos seis anos na primeira série do ensino fundamental, que passaria a ter, então, sete anos. A idéia é boa porque sabemos que, na prática, os filhos de classe média e alta já adotam o ensino fundamental de nove anos. Reportagem da Folha do domingo passado mostrou que em bairros ricos do Rio e de São Paulo a grande maioria das crianças já está alfabetizada aos seis anos. No outro extremo, em áreas pobres das mesmas cidades, as taxas de alfabetização não passam de 20%. A criança com mais recursos estudou aos seis anos (e até mesmo antes) em uma boa pré-escola, que já começou a preparar sua entrada para o ensino fundamental. Esse é o principal motivo para defender a ampliação do ensino fundamental. O que preocupa especialistas em educação é como essa antecipação será feita. Para a educadora Regina de Assis, uma das maiores especialistas do Brasil em educação infantil, a ampliação do ensino fundamental é boa, mas é preciso tomar alguns cuidados. Ela alerta os professores que, aos seis anos, a criança ainda aprende por meio de brincadeiras, de forma lúdica, e não deve ser jogada no sistema forma do ensino fundamental sem que isso seja levado em conta. A educadora explica que essa fase é favorável ao desenvolvimento cognitivo, em que a criança passa a ter mais facilidade para lidar com a linguagem, a escrita, a leitura e a interpretação. Ela também começa a entender os mecanismos das quatro operações matemáticas. "Apesar de todo o potencial para aprender, a criança aos seis anos ainda quer brincar. Não se pode pensar que acabou o tempo da brincadeira e começou o da seriedade. Ela está com uma condição psicolinguística muito favorável, mas o professor só vai ter êxito se trabalhar de forma lúdica", alerta Regina, que hoje está à frente da Multirio, órgão da prefeitura do Rio que trabalha com a educação e os meios de comunicação. A preocupação de Regina é dividida com outros educadores. Jogar uma criança de seis anos no ensino fundamental hoje é também expô-la, ainda mais cedo, a uma das maiores tragédias da nossa escola: a repetência. Dados do MEC mostram que é justamente na primeira série do ensino fundamental onde estão as maiores taxas de repetência do Brasil: 36%. Isso significa que um em cada três estudantes da primeira série estão repetindo a série. Não é preciso ser especialista para saber que os efeitos da repetência de um estudante de sete anos em sua auto-estima são devastadores. Antecipar essa bomba para mais cedo deve afetar ainda mais a auto-estima da criança. É esse tipo de preocupação que todos devemos ter com as propostas do MEC. Os técnicos do ministério sabem desse problema e prometem orientar os municípios e Estados a dar um tratamento adequado à idade da criança de seis anos. O problema é
que o ensino fundamental é responsabilidade dos municípios.
Como o MEC não tem como fiscalizar cada município, cabe
a sociedade verificar se uma boa idéia como essa não vai
acabar, no final das contas, trazendo ainda mais prejuízos para
a qualidade do ensino. |
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