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Outro benefício inegável do debate sobre as cotas foi forçar a universidade e a sociedade a pensar em formas de resolver o problema da desigualdade na educação. Dizer que é preciso melhorar o ensino público para dar as mesmas condições de igualdade não basta mais. Isso é o mesmo que dizer que somos a favor de resolver o problema da fome no Brasil. Alguém é contra? O problema é como fazer. Se nos últimos 500 anos nós não conseguimos dar um ensino com a mesma qualidade para pobres e ricos, o que garante que conseguiremos fazer isso agora em 5, 10 ou 20 anos? Como já disse em outra coluna, falar que o problema da desigualdade na educação só pode ser resolvido quando melhorarmos a qualidade do ensino público é o mesmo que repetir a ladainha do regime militar, que dizia que era preciso esperar o bolo da economia crescer para reparti-lo. Quem acreditou nessa história, está esperando até agora a parte do bolo. A lógica por trás das cotas é que elas são uma maneira de amenizar (e não resolver) o problema da desigualdade a curto prazo. É justo que as populações marginalizadas cobrem medidas de curto prazo, que compensem logo pelo que sofreram nos últimos 500 anos. Além delas, é preciso também investir na educação de qualidade, para que não tenhamos que discutir se cotas são boas ou ruins no futuro. As cotas podem se revelar um tremendo fracasso. Pode ser que elas sejam revogadas, declaradas inconstitucionais ou que apenas contribuam para piorar a qualidade do ensino superior, sem garantir uma educação de qualidade para todos. Mas ela teve o mérito, até agora, de obrigar a sociedade a pensar em formas de melhorar o ensino público. Se é tão óbvio que é preciso melhorar a qualidade da educação pública, por que as pessoas não faziam, na prática, algo para melhorar isso antes? No caso das universidades públicas, por exemplo, por que elas não organizaram cursos para preparar alunos carentes para seu vestibular? Hoje, há muitas ONGs que com muito menos estrutura e recursos desempenham esse papel. Se uma ONG que trabalhar com professores voluntários em salas de aula improvisadas nos finais de semana, por que as universidades _ que têm ótimos professores em potencial (alunos que entraram num vestibular concorrido e estudam de graça), salas de aula ociosas (nos finais de semana, principalmente) e conhecimento melhor do que ninguém de como é realizado o concurso vestibular _ não tiveram essa idéia antes. A experiência das ONGs que realizam cursinhos pré-vestibulares comunitários mostrou que as universidades podem fazer cursos semelhantes, e com muito mais qualidade, sem gastar um tostão a mais de seu orçamento já apertado. Além da academia, o debate chegou também à classe média, que viu as chances de seus filhos entrarem numa universidade pública diminuírem, no caso da Uerj. A classe média prefere, com toda a razão, pagar por uma escola particular para seus filhos terem uma educação de qualidade. Mas quantos de nós já visitamos a escola pública mais próxima de nossa casa para saber em que podemos ajudar? Por último, a reserva de vagas na Uerj também fez com que nós, da imprensa, falássemos como nunca do problema da qualidade do ensino público, ouvindo especialistas sobre como resolver a questão. Isso mostra que, na
pior das hipóteses, as cotas terão contribuído para
amadurecermos o debate sobre a questão. |
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