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Apesar de todos os avanços na área educacional mostrados pelo Censo 2000 do IBGE (e eles realmente existiram), não há como não olhar com preocupação alguns dados que vieram à tona nesta semana, com a divulgação dos resultados preliminares. Um dos que mais chama a atenção é o atendimento em creches. O Censo mostra que houve significativo aumento na escolarização de crianças de 5 e 6 anos, se compararmos os dados com 1991. No entanto, no que diz respeito à creche, ainda estamos longe, muito longe, do que poderia ser classificado como razoável. O IBGE mostrou que, em 2000, apenas 11,6% das crianças de 0 a 3 anos estudavam em creches. Isso significa que de cada 10 crianças brasileiras, nove não têm acesso à rede pública ou particular de creches. É verdade que nem todos os pais gostam de matricular seus filhos em creches. No entanto, em um país como o Brasil, é mais do que razoável supor que a imensa maioria dos pais de crianças fora de creches gostaria que seus filhos recebessem cuidado e atenção de profissionais enquanto trabalham. Na avaliação da educadora Regina de Assis, presidente da MultiRio, esse dado revela o quanto a cobertura de atendimento por parte do poder público no setor é ridícula. O pior, lembra Regina, é que mesmo os pais que têm o privilégio de matricular seus filhos em escolas nem sempre têm a certeza de que a criança está recebendo o atendimento adequado. "Muitos pais pagam bastante caro para colocar seus filhos nas mãos de amadores, sem qualificação mínima para atender essas crianças", diz Regina, que foi integrante do Conselho Nacional de Educação e ex-secretária municipal de Educação do Rio de Janeiro. É muito comum encontrar, por exemplo, na periferia das grandes cidades, "crecheiras", que nada mais são do que mães que cuidam dos filhos de outras mães em sua casa no horário de trabalho. Na imensa maioria dos casos, a única função dessas crecheiras é manter as crianças ocupadas, na frente de uma TV, enquanto esperam passar o tempo. A legislação a respeito no Brasil é uma das mais avançadas no mundo. Temos uma lei, o Estatuto da Criança e do Adolescente, que garante a todas as crianças o acesso às creches e pré-escolas. As normas que tratam de qualidade e formação dos professores no setor também são muito avançadas. O problema é mesmo colocar em prática isso tudo. Muitas mães não têm consciência de que têm o direito de exigir do poder público a matrícula de seus filhos em creches. Se o poder público não cumprir, elas podem recorrer ao Ministério Público para que este exija, judicialmente, que a prefeitura cumpra a lei. O atendimento na faixa etária de 0 a 3 anos pode trazer grandes benefícios para a criança. A falta de cuidado nessa faixa etária, por outro lado, pode trazer danos irreparáveis. Entre essas consequências, podem surgir a falta de vontade de estudar ou uma agressividade sem controle, que dificilmente pode ser revertida mais tarde. Na avaliação de Regina, a creche hoje é fundamental na educação de qualquer criança, rica ou pobre. "A creche não substitui o papel da família, mas ela pode complementar a educação das crianças independente de sua classe social", diz.
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