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Há certas culturas que ainda existem entre os universitários brasileiros que são injustificáveis. Uma delas é a pendura, hábito de estudantes de direito de almoçar em restaurantes no dia 11 de agosto e não pagar a conta. Essa prática sempre foi vista como um gesto de irreverência e até hoje há profissionais que defendam esse gesto. Na edição da Folha de S. Paulo de nove de agosto, a OAB de São Paulo defendeu o "pendura" dos futuros advogados com o argumento de que o tom de irreverência deveria ser mantido. O próprio presidente da OAB de São Paulo, no entanto, afirma na reportagem que a vocação do advogado começa no respeito à lei. Deveria ser assim, mas não é. Imagine, leitor, que um grupo de operários da construção civil resolva estabelecer o dia 12 de agosto como o dia do pendura. Eles iriam em grupo a restaurantes caros e, na hora da conta, se levantariam e leriam versinhos engraçados evocando a tradição do pendura para a sua classe. A cena de trabalhadores humildes se recusando a pagar a conta em restaurantes caros é um tanto difícil de imaginar, mas as consequências seriam muito fáceis de prever. Todos iriam para a cadeia, muitos ficariam por lá um bom tempo além do estipulado por lei e outros até apanhariam bastante dos seguranças do restaurante. Em tempos de fome zero, é inaceitável que universitários de direito, que trabalharão no futuro com as leis, desrespeitem elas em nome de uma tradição. Só para lembrar, segundo o IBGE, 60% dos estudantes universitários estão na parcela dos 20% mais ricos da população. O que coloca os estudantes de direito num patamar acima dos operários, médicos, enfermeiros ou empregados domésticos? Nada. É necessário ressaltar que essa postura de achar que está acima da lei não é privilégio dos advogados. Jornalistas, até pouco tempo, tinham descontos em passagens aéreas. O que colocava os jornalistas em situação de privilégio em relação aos demais passageiros? Nada. A sensação de estar acima da lei muitas vezes é a primeira lição que os universitários recebem. Ainda hoje, por exemplo, há quem ache que o trote nos calouros é um hábito saudável para a integração entre veteranos e estudantes novos. Pode até ser, desde que a pessoa que recebe o trote esteja de acordo. O problema é que nem sempre isso é respeitado. Por incrível que pareça, ainda hoje há alunos das melhores universidades que acham que todos os calouros deveriam receber trote ao chegar, mesmo aqueles que demonstrarem claramente que não aceitam participar do ato. E isso ainda acontece, mesmo depois de um calouro ter sido morto em um trote em 1999, no curso de medicina da USP. |
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