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Desde que escrevi o artigo "Arte é bom, mas o que vale é educação", acho que fiquei devendo um outro que deixasse claro que não sou contrário ao ensino de arte em escolas ou em organizações não-governamentais. A oportunidade veio agora, com a notícia que recebi da Unesp (Universidade Estadual Paulista) da pesquisa de doutorado da professora de piano Maria Helena Borges, defendida na Faculdade de Ciências e Letras, intitulada "O ensino de piano e o desenvolvimento da autonomia: uma proposta inovadora." No artigo anterior sobre o assunto, critiquei algumas iniciativas de organizações não-governamentais que enfocavam apenas o ensino da música, do teatro ou do esporte, sem preocupação com a questão da qualidade do ensino no trabalho com crianças carentes. Continuo achando que o mais importante para uma criança em situação de risco é, sim, receber uma educação de qualidade, já que a música, o esporte ou qualquer outra forma de arte, infelizmente, no Brasil, só garante o sustento de poucos. O ensino isolado da arte em escolas e ONGs pode ser maravilhoso para a auto-estima do indivíduo, mas não ataca o problema central de nosso país, que é a desigualdade. Um menino pobre pode ser um ótimo capoeirista (nada contra a capoeira), por exemplo, mas isso em pouco vai influir em seu sucesso profissional se ele não receber uma educação de qualidade. Ou seja, ele vai continuar excluído e em situação desigual se comparado a uma criança que estudou e foi até o fim do ensino médio em escola particular. Isso independente de ele saber ou não capoeira, piano, canto ou qualquer outra manifestação artística. A pesquisa de Maria Helena Borges, orientada por Durlei de Carvalho Cavicchia, me dá a oportunidade de deixar claro que concordo que há maneiras de se trabalhar a música, o esporte ou qualquer outra manifestação artística de forma contextualizada. Maria Helena, que é professora da Universidade Federal de Goiás, notou que alguns de seus alunos de piano eram mais desinibidos e criativos do que outros para trabalhar em público. Esses alunos tinham uma característica em comum: viam da mesma escola, o Lilian Centro de Música, em Goiânia. Nessa escola, as aulas de piano utilizavam uma metodologia interdisciplinar. As aulas ensinavam muito mais do que aprender a ler e tocar partituras, elas incentivavam os alunos a buscar em outras áreas do conhecimento conteúdos da área tradicional do ensino escolar. Uma música de Bethoven, por exemplo, era um pretexto para falar do contexto histórico da época em que viveu o compositor e a história e geografia de seu país. Tenho certeza de que, como esse, há vários exemplos pelo Brasil de escolas ou entidades com trabalhos de educação artística que contribuam para a qualidade da educação. Não sou educador para falar com tanta segurança sobre o assunto, mas os exemplos de professores que conseguem conciliar o ensino de disciplinas artísticas e esportivas de forma contextualizada me parecem tão simples quanto eficientes. O ensino de arte é muito bom, e, quando aliado à educação, é um instrumento e tanto de estímulo a melhoria da qualidade do ensino. |
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