Governo
investe em educação infantil, mas não prioriza qualidade
Boa e má noticia
para os que defendem a bandeira da educação infantil no
Brasil. A boa é que as pressões externas, de organismos
internacionais como o Unicef, e internas, de ONGs e educadores, têm
surtido efeito. Neste ano, parece que o governo decidiu encarar o problema
e admitir que é preciso melhorar as estatísticas no setor,
que mostram que há um déficit de quase 15 milhões
de vagas.
A má é que, pelo andar da carruagem, corremos mais uma vez
o risco de investir em um modelo de expansão de baixo custo do
setor sem a devida preocupação com a qualidade.
No mês passado, após mais uma crítica do Unicef em
relação ao baixo número de crianças nas creches
e pré-escolas, desta vez com o gancho do desrespeito ao Estatuto
da Criança e do Adolescente, uma entidade ligada ao governo federal
resolveu agir e chamar a responsabilidade para si. O Comunidade Solidária
se mostrou interessado em unificar as ações de diferentes
ministérios do governo federal no setor. Até o fim do ano,
a entidade pretende apresentar uma política nacional para a área.
Já era hora. Em 1999, nenhum centavo foi gasto do orçamento
do MEC para a educação infantil.
O Brasil gasta por aluno na pré-escola 28% a menos do que a Argentina
e menos da metade do que o Chile. Segundo o último relatório
da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico), divulgado em março deste ano, um aluno da pré-escola
do sistema público de ensino custa US$ 820 anuais no Brasil. Esse
valor é 13 vezes menor do que o gasto com alunos nas universidades
públicas. Nessas, segundo estudo do professor da PUC José
Márcio Camargo, nem com lupa é possível ver estudantes
vindos dos extratos mais pobres da população (os 40% mais
carentes, para ser mais preciso).
O fato de uma entidade com solidariedade no sobrenome estar tomando as
rédeas da discussão pode estar indicando que o Brasil pretende
resolver esse problema sob a ótica da solidariedade e do investimento
no setor como forma de combater a pobreza. Nada contra a entidade comandada
pela primeira-dama, mas o MEC faria um favor a todos caso mostrasse que
ele é o maior interessado na questão.
A educação infantil é mais do que uma questão
de solidariedade. É um direito adquirido das crianças de
0 a 6 anos de ter educação de qualidade. Hoje, no Brasil,
segundo estudo da pesquisadora Maria Dolores Kappel, do IBGE, a chance
de uma criança rica de 0 a 3 anos estar na creche no Brasil é
quase 6 vezes maior do que uma pobre. Trocando em miúdos, a desigualdade
educacional começa antes mesmo de a criança aprender a falar.
É consenso que essa situação precisa ser mudada.
Porém, a pesquisadora Fúlvia Rosemberg, da PUC-SP e da Fundação
Carlos Chagas, lembrou no Congresso da Omep (Organização
Mundial para a Educação Pré-escolar), que aconteceu
no Rio de Janeiro no mês passado, que o país até hoje
paga o preço de ter escolhido investir num modelo de expansão
de baixo custo no setor, sem a preocupação com a qualidade.
Para ela, uma pré-escola de péssima qualidade pode até
atrapalhar o desempenho escolar do aluno no futuro.
Uma boa educação infantil custa caro, é verdade.
Porém, mesmo se de uma hora para outra investíssemos o mesmo
que a Alemanha no setor (algo em torno de 5 mil dólares por aluno
por ano), ainda assim, um aluno de creche ou pré-escola custaria
menos da metade do que hoje gastamos com os alunos de universidades públicas.
Antônio
Gois é repórter da Folha de S.Paulo .
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