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De novo em defesa das cotas Desde que comecei a escrever neste site, nenhum dos meus artigos rendeu tantos e-mails (discordando de mim, a maioria) como a defesa do sistema de cotas em universidades. Talvez até como modesto estímulo ao debate, volto a defendê-las, dessa vez trazendo novos números, tirados de uma reportagem da Folha de S. Paulo. Cinco fatos: 1 - Nas universidades brasileiras, entre os formandos, há um negro para cada 36 brancos. Na população brasileira, essa proporção é de um negro para cada dez brancos. 2 - Há mais formandos de cor amarela do que de cor negra entre os 18 cursos avaliados pelo provão. Em alguns deles, como em odontologia, os amarelos dão um banho nos negros e aparecem em número 6,2 vezes maior. Na sociedade brasileira, os negros estão em número 11 vezes maior do que os de origem asiática. 3 - A chance de se encontrar pelos corredores dos cursos de medicina um negro se formando é de 1%. Com o perdão da piada, é mais fácil encontrar torcedores do Madureira (para os cariocas) ou do Juventus (para os paulistanos) andando pela rua do que esbarrar com um negro na universidade. 4 - Mesmo nos cursos menos prestigiados salarialmente (os que formam professores), o número de negros entre os formandos (3,9% em letras, por exemplo) é menor do que na população (5,7%). 5 - Estamos usando exemplos de negros, mas a mesma desigualdade apresentada acima acontece com os pardos e mulatos. Eles representam 45% da população, mas apenas 15% dos formandos. Cinco motivos para adotar o sistema de cotas: 1 - É a forma mais rápida (não a mais eficaz, é verdade) de amenizar o problema da desigualdade racial no ensino superior. 2 - A experiência deu certo em países como os Estados Unidos (para usar o exemplo de um país desenvolvido) e Malásia (para falar de uma nação em desenvolvimento). No caso americano, não consta que a reputação da excelência acadêmica das universidades de lá tenha sido afetada pelas políticas afirmativas. 3 - Finalmente deixaríamos de tratar de forma igual os desiguais. 4 - A sociedade brasileira reconheceria que tem uma dívida a pagar com os negros e que a democracia racial brasileira nunca existiu. 5 - As universidades receberiam um novo perfil de aluno e, goste ou não a academia, fariam um esforço extra para deixar esses estudantes no mesmo nível dos que vêm das melhores escolas particulares. Sei que há muitos argumentos contrários aos meus. Sei também que há gente muito mais bem preparada para atacar ou defender esses argumentos. No entanto, esse é um assunto que precisa estar em pauta. Se o sistema de cotas for mesmo inconstitucional, então vamos discutir outras políticas de ações afirmativas para amenizar a desigualdade racial brasileira, em curto prazo. Repetindo o que disse no primeiro artigo sobre o assunto aqui no Aprendiz, dizer que a única solução para o problema é melhorar a qualidade do ensino público brasileiro soa mais ou menos como o discurso do regime militar de que "é preciso esperar o bolo crescer para repartir." A solução só virá com a melhoria da qualidade do ensino público brasileiro, é bem verdade. No entanto, pedir que os negros e pardos esperem esse dia chegar talvez seja pedir demais para quem já esperou 500 anos. PS - Para quem se interessa sobre o assunto, sugiro a leitura do estudo do pesquisador Sergei Suarez Dillon Soares, do Ipea. Ele estudou a discriminação no mercado de trabalho contra negros e mulheres. Uma de suas conclusões é que a discriminação contra os negros se dá, principalmente, na formação. Trocando em miúdos, "o destino de muitos negros já é selado na escola", como lembra Sergei. Para acessar o estudo, basta ir no site do Ipea e procurar o texto para discussão de número 769. O título é "O Perfil da Discriminação no Mercado de Trabalho Homens Negros, Mulheres Brancas e Mulheres Negras." Leia outro artigo de Antônio Gois sobre a defesa de cotas nas universidades
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